São Patrício

Bela “esmeralda encastoada no mar”, a Irlanda, pelo apostolado de São Patrício, tornou-se a “Ilha dos Santos”. Ameaçando chefes piratas e expulsando demônios com Fé e destemor, São Patrício foi um exímio discípulo do Senhor nessas terras de missão.

 

No dia dezessete de março, comemora-se a festa de São Patrício.

No livro de Hello(1), “A fisionomia dos santos”, há alguns dados biográficos magníficos a respeito da figura dele.

“São Patrício é, sem dúvida alguma, um dos santos de vida mais extraordinária que se conhece. Aos doze anos foi raptado por piratas e levado para a Irlanda.”

Vale lembrar que quem era raptado por piratas tornava-se escravo.

“Ali foi feito pastor, recebendo o dom da oração. Ajoelhava-se no meio do campo e rezava, cercado por seus animais.”

Esmeralda encastoada no mar

A grama da Irlanda é extraordinariamente verde e cobre grande parte do país. Por isso, os poetas antigos diziam que a Irlanda era como uma esmeralda encastoada no mar, ao norte da Europa.

Imaginemos a bonita cena: São Patrício, pequeno, mas já com fisionomia de santo, pastorzinho pobre e humilde, rezando sobre a relva esplendidamente verde da Irlanda, e os animais fazendo círculo em torno dele, para protegê-lo ou a contemplá-lo. Cenas semelhantes eram comuns na hagiografia da Idade Média, constituindo fioretti(2), servindo para iluminuras, vitrais de catedral, etc. A história e a fantasia nelas se reúnem para a realização de um aspecto magnífico do poder da oração, bem como da candura, da inocência, quando fortalecida por carismas vindos de Deus.

“Depois de seis anos, ele sai dessa região, fazendo várias viagens cheias de peripécias, mas se tornou novamente escravo.”

Depois de seis anos dessa forma pastoril tão encantadora, ele consegue fugir, mas se torna escravo de novo.

“Enfim, chegou ao mosteiro de São Martinho de Tours. E como sempre sentira que sua vocação estava na Irlanda, partiu para evangelizá-la. Mas tal era a via estranha pela qual Patrício era conduzido que, apesar de seus desejos, de sua santidade, de seu zelo e do chamamento sobrenatural por ele recebido, fracassou completamente. Foi tratado como inimigo.”

Provação dos santos

Vemos como Deus prova os seus santos, fazendo com que caminhem por uma série de lados, sem conseguirem o objetivo que o próprio Deus tem em vista. Em determinado momento, esse objetivo lhes vem às mãos.

Compreendemos, assim, que nosso Movimento sofra dificuldades, como é natural que em nosso apostolado tenhamos revezes. Os santos progridem assim. Os não-santos progridem rapidamente nas suas obras de pseudo-apostolado; o verdadeiro apostolado somente é feito por quem é santo ou, pelo menos, tende para a santidade e a admira com todas as veras de sua alma.

“Ainda não chegara a hora, a Irlanda não estava pronta. Patrício volta à Gália onde passa três anos sob a direção de São Germano de Auxerre. Depois se retira para a solidão da ilha de Arles.”

Quanto esse homem viaja e quantas curvas tem sua vida antes de voltar para a Irlanda! Ele vai para a Gália, onde aprende com um santo as vias da vida espiritual, torna-se eremita, depois se distancia ainda mais da Irlanda porque se dirige para Roma…

“…onde o Papa São Celestino lhe dá a bênção apostólica. E ele retoma então o caminho da Irlanda, aí aportando em 432. Logo dirigiu-se à assembléia geral dos guerreiros da Hibérnia.”

Hibérnia era o antigo nome da Irlanda.

Pregou a Fé com destemor

Imaginemos como seria bonita, em meio à natureza suave da Irlanda, uma assembléia geral de guerreiros para deliberar a respeito das coisas da nação. Os guerreiros eram os nobres que compareciam a essas assembleias revestidos de suas armas. E quando havia dificuldades nas votações, brigavam entre si utilizando essas armas. Era regime de barbárie. Às assembleias comparecia também o colégio dos druidas, sacerdotes pagãos da Gália e da Irlanda, que pertenciam, então, à mesma raça.

Ali se apresentou São Patrício, que atacou de frente o centro religioso e político da nação. Perante todos os seus inimigos agrupados, pregou ele a Fé. Que destemor! Nada de meias medidas, de panos quentes, de recuos; ele era um santo e tinha o poder dos santos.

“A partir desse momento, as maravilhas se sucederam com rapidez. Houve conversões de famílias reais inteiras.”

Anjos no Céu se inclinam para ouvir os bardos da Terra

Naturalmente, “famílias reais” significam federações de tribos. Não podemos pensar, por exemplo, em princesas como as filhas de Luís XV pintadas por Nattier, mas em nossa Paraguaçu(3): as “princesas reais” de então eram umas “Paraguaçus” louras, mas autênticas “Paraguaçus”.

Enfim, devemos imaginar a selvageria dessas hordas e São Patrício dizendo-lhes todas as verdades. Ele desperta admiração; os guerreiros começam a ficar pensativos, depois contritos, as mulheres a mudar de atitude. Famílias reais inteiras são batizadas, seguidas das respectivas tribos. Que cena linda!

“A Irlanda se transforma rapidamente na ilha dos santos. Naquela terra onde outrora fora escravo, Patrício anda agora como conquistador triunfante. Reis, povos e também poetas vêm a ele.”

A Irlanda é uma das mais antigas pátrias da poesia.

A cítara, uma pequena harpa, com a qual cantavam os bardos irlandeses e do País de Gales, faz parte da bandeira da Irlanda. O maior cantor que houve na Irlanda tornou-se cristão.

“O Homero da Hibérnia inclinou os velhos heróis ante o estandarte do Deus desconhecido. Então, diz um velho autor, os cantos dos bardos ficaram tão belos, com a conversão lucraram tanto em sua beleza, que os Anjos de Deus se inclinavam na beira do Céu para escutá-los.”

Como é linda essa ideia de os bardos cantando na Terra; e no Céu, aberto como se fosse uma claraboia, revoadas de Anjos ouvindo aquelas vozes. Isso tem uma indiscutível poesia, com um aroma e uma força de atração verdadeiramente extraordinários.

Como bem disse certa vez Montalembert(4), a Idade Média foi a “doce primavera da Fé”. Tudo isso se parece com a primavera: é uma energia que surge, com todo o dinamismo para crescer, vencendo todos os obstáculos, iluminando tudo como o sol nascente, ou como uma boa estação do ano que vai entrando.

Como é diferente o dinamismo desse apostolado com a situação que hoje vemos!

Ameaça a um chefe pirata

“Entretanto, as invasões dos piratas desolavam a Irlanda. Patrício escreveu a Corotido, chefe da quadrilha.”

Esses piratas vinham da Dinamarca, da Noruega e da Suécia — quão mudadas daquele tempo para cá! — e eram chamados reis do mar. Nações inteiras, em naus — com proas monumentais, velas bonitas — singravam com rapidez os mares e desciam em hordas pelas praias, devastando os povos, as plantações. Então, para um tal Corotido, ou Corótido — não sei como se pronuncia — nosso santo escreveu o seguinte:

“Patrício, pecador ignorante, mas coroado Bispo de Hibérnia…”

Quão linda a ideia de que o bispo é coroado como um rei!

“… refugiado entre as nações bárbaras por causa de seu amor a Deus, escrevo de próprio punho estas letras para serem transmitidas aos soldados do tirano.

“A misericórdia divina que eu amo não me obriga a agir assim, para defender aqueles mesmos que não há muito me fizeram cativo e trucidaram os servos e as servas de meu pai?”

Quer dizer, ele enfrentou perigos e mostrou os desígnios de misericórdia da Providência.

Ele prediz que a realeza de seus inimigos será menos estável que a nuvem e a fumaça.

“Em presença de Deus e dos seus santos — acrescenta Patrício — atesto que o futuro será tal qual eu previ.”

Ele, portanto, os ameaça dizendo que não adianta atacar, porque vão perder o que estavam querendo conquistar.

“Alguns meses depois, Corotido, acometido de alucinação mental, morria no desespero.”

Podemos imaginar o desespero de Corotido, matando pessoas e depois se golpeando a si mesmo, porque ficara louco. Era o resultado da maldição de São Patrício. “Os inimigos de Patrício caíam mortos, os amigos ressuscitavam. Os túmulos pareciam um domínio sobre o qual ele tinha direito”.

Assim se converte um povo! Se pudéssemos imitar São Patrício, como tudo seria mais simples! Não precisaríamos nem de burocracia, nem de máquinas. Bastaria irmos à sepultura de Dom Vital e de outras pessoas virtuosas para ressuscitá-los. E muita coisa mudaria. Mas a nós isso não foi dado.

Quando se tem esse direito sobre os túmulos, abre-se e fecha-se a porta da morte dessa forma, o que mais é necessário?

Poder sobre os demônios

“Quando de sua chegada à Irlanda, os demônios, diz um historiador do século XII, fizeram um círculo com que cingiam toda a ilha para lhe barrarem a passagem. Patrício levantou a mão direita, fez o sinal da cruz e passou adiante.”

Lindo tema para uma iluminura: um barquinho em cuja proa está São Patrício, fragilzinho, tendo um pé colocado para frente e outro para trás, um halo de santidade, e uma sarabanda de demônios correndo. Para pintar os demônios, pediríamos o auxílio da arte moderna que realmente os representa como eles são. E ao lado, outro quadrinho: São Patrício dando uma bênção, e os demônios, com fogo saindo de suas pernas, caem de ponta-cabeça dentro do mar; e monstros marinhos fugindo espavoridos de todos os lados — porque os demônios até aos monstros causam horror. Outras cenas: o barquinho de São Patrício ancorando sereno; ele descendo, amarrando a pequena embarcação e penetrando na Irlanda. Lamento não saber pintar iluminuras para representar coisas dessas.

“Depois derrubou o ídolo do sol, ao qual as crianças, como ao antigo “Moloch”, eram oferecidas em sacrifício.”

Isso eu gostaria muito mais de pintar: um ídolo horrendo, em pé, numa atitude sanguinária, diante do qual há adoradores infames; uma mãe que entrega espavorida seu filhinho; ao lado, restos de cadáveres de crianças mortas; e São Patrício que chega. Segundo quadro: o santo faz uso da palavra com veemência. Terceiro: ele derruba o ídolo. Quarto: a população festeja.

Assim é que se tocam as coisas para frente. Mas para isso é preciso ser santo.

O bastão de São Patrício enxotou serpentes da Irlanda

Certa vez perguntaram a Napoleão — pode-se imaginar quão cretino era o indivíduo que fez tal indagação — por que ele não se fazia aclamar como deus. Napoleão respondeu: “Olhe, meu caro, depois de Jesus Cristo, só há um jeito para alguém ser deus: tomar a cruz, subir ao Calvário e fazer-se crucificar. E eu não tenho vontade disso. Porque depois d’Ele ninguém toma a sério outro deus”. É bem verdade. Assim também, para fazer essas coisas é preciso ser santo. Se quiséssemos verdadeiramente ser santos, talvez pudéssemos realizá-las.

Continua Hello:
“Atribui-se ao bastão de São Patrício o poder de enxotar as serpentes.”

Parece que esses animais são desconhecidos na Irlanda, e sua ausência é atribuída a uma bênção particular: a bênção do bastão que São Patrício segurou nas mãos. Por que não pedimos um pouco dessa relíquia para o Brasil? Positivamente, é falta de imaginação. Poder-se-ia andar tranquilamente pelos matos, com a cruz de São Patrício na ponta de um bastão.

Propulsor, em escala mundial, da vida da Igreja

“A figura desse santo assemelha-se um pouco a um navio que se distancia da pátria: durante algum tempo pode ser visto distintamente; mas depois, ele parece desaparecer quando o céu e o mar se confundem no horizonte. Assim também São Patrício, no céu e nos mares da Irlanda.”

Essa história coloca diante de nossos olhos uma dessas figuras de fundadores e evangelizadores de povos, de homens da destra de Deus.

Há certas pessoas que Deus escolhe a fim de fazer um apostolado circunscrito e pequeno. Para isso são eficientes e poderosas, pois o Deus lhes dá as graças necessárias. Porém, tais pessoas não são muito salientes por suas obras. No período de evangelização da Europa, houve um grande número de santos e de santas que fundaram cristandades em lugares onde haveria de futuro dioceses — alguns desses santos se tornaram diretamente seus bispos — e foram patronos desses locais.

Seus sepulcros ficam nesses lugares, onde se celebram seus cultos, às vezes com peregrinações. Dir-se-ia que eles são animadores desse aspecto riquíssimo da Igreja, como de toda grande sociedade, que é a vida regional.

Mas há outros santos que são propulsores da vida da Igreja, em escala mundial. E esses são propriamente os homens da destra de Deus. Os obstáculos parecem insignificantes diante deles. Tais santos realizam coisas que nunca ninguém poderia imaginar, fazendo acelerar muito a marcha da História e o progresso da Igreja. Isto se pode dizer de São Patrício e também da nação irlandesa.

A Revolução conspurca até as coisas mais esplêndidas

Os irlandeses participaram da ação missionária do império de Carlos Magno, evangelizando a França, a Holanda e, sobretudo, a Alemanha. A Irlanda foi um ponto de irradiação extraordinário da Religião Católica nesta época, mais ou menos como, séculos depois, a Península Ibérica, da qual partiu a evangelização de toda a América Latina, parte da África e regiões da Ásia.

Tal qual aconteceu com a Península Ibérica, depois se apagou a glória internacional da Irlanda, mas algo de sua fidelidade restou. Espanha e Portugal — este último em medida infelizmente menor — têm resistido a toda espécie de tentativas para obrigá-los a apostatar. Na Espanha houve até resistência a uma terrível revolução comunista, e a Irlanda sofreu perseguições atrozes, mas não apostatou, como prêmio pelo fato de ter sido uma nação apostólica, e continua firme para a glória de Deus.

Isso é bonito, edificante, e eleva os nossos corações.

(Extraído de conferências de 18/3/1966 e 16/3/1967)

 

1) Ernest Hello, escritor francês. 1828-1885. Não possuímos referência exata da ficha original usada por Dr. Plinio.
2) Termo retirado da coletânea de histórias de São Francisco de Assis intitulada I Fioretti (As florzinhas).
3) Índia tupinambá, esposa de Diogo Álvares Correia (Caramuru).
4) Charles de Montalembert, 1810-1870.

Santa Ceia

Nossa alma não pode deixar de transbordar de reconhecimento, de enlevo e de gratidão por aquilo que Nosso Senhor operou na Santa Ceia. Somente uma inteligência divina poderia excogitar a Sagrada Eucaristia, e imaginar esse Sacramento santíssimo como um meio de Jesus permanecer presente neste mundo, depois de sua gloriosa Ascensão.

Mais ainda: de estabelecer um convívio íntimo e inexcedível, todos os dias, com todos os homens que O queiram receber nos seus corações. Sim, só mesmo Deus poderia realizar esse mistério tão maravilhoso, essa obra de misericórdia prodigiosa para com suas humanas criaturas.

Plinio Corrêa de Oliveira

São Clemente Maria Hofbauer e a lição do “rio chinês”

Arrostando um quotidiano semeado de ziguezagues, onde o caminho traçado pela Providência parecia mudar a todo momento, São Clemente Maria Hofbauer (1751-1821) se manteve incólume na Fé. Firmeza esta muito admirada por Dr. Plinio, cujos comentários à vida do santo redentorista o exaltam como exemplo de constância e confiança diante das aparentes contradições no cumprimento do chamado divino.

A vida de São Clemente Maria Hofbauer se reveste de um interesse particular, pelo fato de nos servir como exemplo de confiança e perseverança no meio das adversidades. Com efeito, sua existência se compõe de dois aspectos. Primeiro, uma longa trajetória de “rio chinês”(1), na qual ele, homem inteligente e dotado de maravilhoso poder de atração e de persuasão, parecia fadado a uma vida quebrada, errada, fracassada. Dir-se-ia que a Providência o chamou para algo superior, mas orientou seus passos num rumo diverso, fazendo-o conhecer, larga e dolorosamente, as vias tortuosas de um ziguezague aparentemente incompreensível.

O segundo aspecto é o da vitória sobre o primeiro. Após uma série curiosa de circunstâncias, tudo se transforma nos dez últimos anos da vida de São Clemente. Ele se viu transferido para Viena, cidade‑chave dos acontecimentos políticos e sociais europeus do seu tempo, e ali esse homem, até então posto à margem, exerceu profunda influência nas almas de pessoas igualmente chaves, e realizou assim a missão para qual fora suscitado por Deus.

Após sua morte, em idade não muito avançada, multiplicaram‑se os milagres operados por sua intercessão. Abriu-se o inquérito de sua existência, sua santidade foi comprovada e a Santa Sé o canonizou. É o grande São Clemente Maria Hofbauer.

Piedoso desde menino

Ele nasceu no território do antigo Império Austro‑Húngaro, cuja capital era Viena, debaixo de certo ponto de vista o centro de gravidade da Europa. Seu pai, de origem tcheca, era um homem de condições bastante modestas, e mudou-se com a família para Viena, à procura de melhores oportunidades. O jovem Clemente contribuía para aumentar o orçamento doméstico: levantava-se de madrugada e, nas primeiras horas do dia, punha-se a distribuir pães pelas ruas de Viena que despertava.

Pelo que consta em suas biografias, foi desde menino muito piedoso e devoto da Santíssima Virgem. Frequentava os sacramentos, e levava uma existência modelar, ocupada, semeada de trabalhos, na qual a graça lhe falava e atuava na alma.

Assim, enquanto entregava os pães, Clemente refletia, dava-se a meditações cujo fundo, pode-se entrever, era essencialmente religioso e que o amadureciam para, em determinado momento, encontrar sua vocação.

Eremita nas florestas europeias

Após algum tempo desse cotidiano de esforços e reflexões, e ainda durante seus afanosos dias, através da ajuda de benfeitores que se interessaram por ele, São Clemente pôde cursar a universidade, e se mostrava aluno muito estudioso.

A Providência, porém, reservava-lhe o “rio chinês”. Certa ocasião a graça lhe bate à porta da alma: “Tu serás ministro de Deus. Interrompe teu curso acadêmico e dirige seus passos para a vida sacerdotal”. E no intuito de prepará-lo para ingressar nessas novas vias, Nosso Senhor o inspirou a se tornar eremita. Naquele tempo, a Europa era muito menos povoada, havia regiões silvestres mais abundantes do que em nossos dias, e os desejosos de se retirarem do mundo iam viver nas florestas, como outrora viviam os eremitas nas tebaidas do Egito.

Na congregação redentorista

Após um tempo de isolamento, São Clemente Hofbauer se depara novamente com o “rio chinês”. Movido pela graça, ele procura outro eremita que habitava pela mesma região, e lhe disse: “Irmão Hübl (era o nome do amigo), façamos uma peregrinação a Roma, a pé, porque lá nos espera um maior chamado de Deus”. Hübl aceitou.

Partiram, atravessando aqueles desfiladeiros, vales e montanhas, correndo toda espécie de perigos, até alcançarem a Cidade Eterna, onde se hospedaram numa pensão qualquer. No dia seguinte, pela manhã, decidiram ir à Missa. São Clemente disse ao companheiro:

“Roma é tão grande, tem centenas de igrejas, e não sabemos a qual ir. Então, a igreja cujo sino ouvirmos em primeiro lugar, é aquela onde assistiremos a Missa. Vamos esperar que ali haja algo da Providência para nós.”

Dali a pouco, no meio do silêncio de uma Roma ainda sonolenta, o eco de um sino se fez ouvir. Os dois logo se puseram a caminho em direção ao local de onde partia o som, e encontraram uma pequena igreja. Entraram e se sentiram inundados de consolação ao participar da celebração eucarística. Todo o ambiente lhes pareceu muito piedoso. Era uma igreja dos padres redentoristas, filhos de Santo Afonso de Ligório.

Ao término da Missa, São Clemente e o amigo procuraram se informar a respeito da instituição que cuidava daquele templo, e lhes explicaram tratar-se de uma obra destinada a difundir em todas as classes sociais a doutrina católica e a religião, por meio da oratória e da pregação.

São Clemente sentiu que era aquele o chamado de Deus. Solicitou um encontro com o superior daquela comunidade, e expôs a este os seus anseios.

— Ora, então o senhor acaba de encontrar o que procura — respondeu-lhe o padre. — A vocação que deseja abraçar é essa, ela realiza seus desejos.
— Quer dizer que o senhor nos aceita como noviços redentoristas?
— Aceito!
Após uma certa relutância de Hübl, os dois ingressaram na ordem redentorista. Mais uma lição do “rio chinês”: seria normal que ambos estivessem de pleno acordo, e o amigo fosse um poderoso auxiliar para São Clemente. Pelo contrário, tornou-se naquele momento um fardo. Se São Clemente desistisse, provavelmente ter-se-ia mudado a história da congregação redendorista e de uma importante obra da Igreja. Não desistiu. Insistiu, perseverou, convenceu o amigo.

Precioso ensinamento para nós. Se quisermos andar depressa rumo ao mar em que acaba o “rio chinês”, carreguemo-nos de fardos. Suportemos tudo, sejamos amáveis para com os ingratos, e o nosso objetivo caminhará em direção a nós. A distância rumo ao mar se encurta, se aceitarmos escolhos nas nossas costas. Aceitemos as atrapalhações, como Nosso Senhor Jesus Cristo aceitou a cruz.

De cidade em cidade, fazendo o bem

Entram na congregação redentoristas, são ordenados padres, e recebem do superior geral a incumbência de fundar uma casa e fazer apostolado em Varsóvia, na Polônia. Ali, acompanhados de um terceiro, hospedam-se nas dependências de um convento quase em ruínas, onde quatro padres de uma ordem em extinção lhes deram abrigo. O lugar era uma velha tapera. São Clemente e os dois companheiros começaram a trabalhar, a pregar missões, e atraíram o povo. O velho convento encheu-se de gente, o fervor reverdeceu nas almas, e a vida de piedade se desenvolvia naquela região.

Foi o bastante para incomodar as autoridades civis e anticlericais sob cujo governo eles se achavam. Não demorou para que viesse um decreto ordenando o fechamento do convento. São Clemente consulta o geral dos redentoristas, e recebe a resposta: “Partam para a Suíça, procurem as cidades católicas e ali se estabeleçam. Se forem expulsos de um lugar, dirijam-se para outro. E assim vão passando de cidade em cidade, fazendo o bem”.

Não é difícil compreender que vida de ziguezague e de vai-vens que tal programa anunciava. E assim foi, literalmente. Estabeleciam-se numa cidade, pregavam, colocavam a vida religiosa do povo em ordem, e, pouco depois, uma ordem do governo local os expulsava.

Anos e anos de apostolado transcorreram dessa maneira. Por toda a parte aonde ia, São Clemente fazia o bem, e muito bem. Mas, a Providência permitia que logo fosse removido, à semelhança de uma plantação que o agricultor é obrigado a transferir de terra para terra, sem que nenhuma produza todos os frutos que se era de se desejar. São Clemente passou, na aparência, fazendo ninharias fracassadas ao longo de mais ou menos vinte anos de sua vida.

No centro do movimento romântico

Afinal de contas, depois de percorrem as cidades católicas da Suíça, recebem ordem do superior geral de retornarem a Viena.

De volta à capital do império, São Clemente começou a prestar assistência religiosa nessa e naquela igreja, num convento e noutro, e, a partir daí, a ter uma certa influência nos meios católicos vienenses.

As vias da Providência, através de sendas tortuosas, o encaminharam para aquela situação. Depois de tanto labutar em terrenos menos férteis, São Clemente Maria Hofbauer se viu posto no próprio centro de um movimento que, naquele tempo, ia tomando conta da Europa, e que tinha em Viena um de seus principais focos de irradiação: o chamado movimento romântico. De tal maneira que alguns homens, cujos nomes se acham nos compêndios de Filosofia, tornaram-se comensais de São Clemente, porque foram por este convertidos.

O apostolado do santo tomava envergadura e alcançava ótimos resultados. Aquelas celebridades anunciavam sua conversão e passavam a ser excelentes católicos, militantes, empenhando-se em atrair outros para a Igreja.

Por razões de vida social, esses intelectuais eram ligados a pessoas da nobreza de Viena e, sobretudo, de Budapeste. Assim, estabeleceram-se assíduas relações entre São Clemente Hofbauer e os nobres húngaros, donde também resultaram inúmeras conversões.

Com isso, o movimento romântico mudou de figura e passou a ser organizado por São Clemente, de propósito, para dar uma orientação católica aos rumos do império austro-húngaro. Ele procurou constituir uma obra, não predominantemente de padres, mas de leigos postos em situações estratégicas na vida social e política, alguns com altos cargos diretivos, que tinham por missão trabalhar no respectivo meio de maneira a formar um grupo católico de irradiação. Através dessa influência, poderiam alcançar o objetivo que os norteava, ou seja, alicerçar a sociedade nos fundamentos da doutrina católica apostólica romana.

Ação de presença no apostolado

É interessante salientar um aspecto do apostolado de São Clemente Maria Hofbauer: o modo como ele convertia as pessoas.

Pelas narrações de sua vida, percebe-se que São Clemente era uma inteligência pouco acima da média, em comparação — note-se — com os filósofos e pensadores inteligentíssimos que se deixavam convencer por ele. Então, alguns redentoristas, curiosos de saber o “método” empregado pelo santo, procuravam esses convertidos e lhes perguntavam como as coisas tinham se passado, se eles haviam se tocado por um jogo da razão ou por uma ação da graça.

Resposta: “Pela razão e pela graça. Clemente argumenta muito bem. Mas, além disso (e vem aqui o papel da graça), há algo nele de indefinido que nos toca no mais fundo da alma, fazendo-nos compreender a argumentação dele e, ao mesmo tempo, nos comovendo a respeito dessa argumentação. De maneira que ele não é um mero professor que atrai e convence, mas também um formador que move para a ação”.

Os inquiridores insistiam: “Como assim, algo indefinido?”

Os outros diziam: “Pelo modo de Clemente falar, pela sua personalidade imponente e influente, pela sua extrema bondade. Enfim, porque ele é ele. Não sabemos explicar exatamente como é, mas é assim! E estamos persuadidos.”

São Clemente tinha, portanto, sua boa e santa influência afirmada. A missão para a qual a Providência o suscitara estava cumprida. Pouco depois ele entregaria sua alma ao Criador. Obediente à vontade divina, submeteu-se aos sofrimentos do “rio chinês”. Mas, após ter provado todo o seu desinteresse e sua submissão caminhando nessa via sem sentido, num momento tudo se lhe abriu para que realizasse seu chamado.

Esta é, para todos nós, a grande lição da vida de São Clemente Maria Hoffbauer.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 19/12/1990)

1) Imagem usada por Dr. Plinio para significar as idas e vindas numa determinada trajetória, até se atingir o objetivo desejado, assim como certos rios chineses que dão muitas voltas antes de alcançar o oceano.

São José, Protetor da Santa Igreja

Modelo de todas as grandes virtudes, São José foi o homem escolhido por Deus para estar à altura d’Aqueles com quem deveria conviver: Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria  Santíssima. Apesar dessa insigne missão, pouco se sabe sobre ele, mas a Igreja, dotada de sabedoria, proclama-o seu Protetor e Patriarca.

Na festa de São José há varias invocações que nós poderíamos considerar. Creio que dessas invocações, depois das que dizem diretamente respeito a Nosso Senhor Jesus Cristo, nenhuma é mais bonita do que a de Protetor da Santa Igreja Católica.

Da estirpe real de Davi

Os dados biográficos de São José são muito escassos. Sabemos que ele era da estirpe real de David, era virgem, foi casado com Nossa Senhora. Sabemos que eles mantiveram   virgindade depois do casamento e que ele teve o famoso caso da perplexidade.

Sabemos também que ele esteve presente no Santo Natal e uma das glórias dele é de, em todos os presépios, até o fim do mundo, naturalmente figurar como um dos personagens essenciais. Sabe-se que ele levou o Menino Jesus e Nossa Senhora até o Egito e de lá voltou, depois há um silêncio sobre ele.

Se tomarmos em consideração quem foi São José, compreende-se que deve ter sido um dos maiores Santos, e que até não faltam razões para se considerá-lo como o maior Santo de todos os tempos. Há razões para supor que o maior Santo tenha sido São João Batista ou, talvez, São João Evangelista. Em todo caso, há razões muito grandes e muito boas para supor que tenha sido ele, e podemos imaginar que a respeito de um tão grande Santo os dados biográficos os mais emocionantes, empolgantes e edificantes  não poderiam faltar. Ora, vemos que em lugar  de falar a respeito destes dados, e de nos dizer algo a respeito das maravilhas deste Santo, que ocupa um papel tão proeminente na piedade católica, pelo contrário, a Sagrada Escritura nos diz pouco, e muito pouco, e a Tradição também. Como se explica isso?

A primeira observação que cumpre fazer é que também a respeito de Nossa Senhora, figura não infinitamente, mas insondavelmente superior a São José, também a respeito d’Ela as Sagradas Escrituras dizem muito pouco, talvez até menos que a respeito de São José. Entretanto, sabemos que Nossa Senhora é a obra-prima da Criação e que  depois da humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, ligada à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, por união hipostática e, portanto, já superior a qualquer  cogitação que o espírito humano possa fazer, depois d’Ele não há criatura, e nunca houve ou haverá, que possa sustentar uma pálida comparação com Nosso Senhor.

Ora, a respeito de Nossa Senhora, por que a Sagrada Escritura diz tão pouco? E por que a respeito destas duas grandes figuras há tal silêncio das Escrituras?

Pálida ideia da  realidade

Tenho a impressão que, além das razões indicadas habitualmente, como, por exemplo, a humildade de Nossa Senhora e de São José, que quiseram ficar apagados em louvor  a Nosso Senhor Jesus Cristo e em reparação a todas as provas de orgulho que os homens deveriam dar até o fim do mundo; além dessa razão, que é muito boa, há outra  muito formativa e feita para que compreendamos a índole, o espírito da Igreja Católica: por maiores que sejam as maravilhas  que Nossa Senhora e São José tenham    praticado em vida, aquilo que nós sabemos deles, pelo simples fato de uma ter sido a Mãe do Criador e o outro ter sido o Pai legal de Nosso Senhor Jesus Cristo e Esposo de   Nossa Senhora, isto só nos leva a deduzi-los tão grandes, que nenhum fato concreto praticado na vida daria uma ideia suficiente daquilo que eles foram, porque estão acima  de qualquer ato praticado.

Tomemos dois fatos notáveis: a perplexidade de São José, a confiança que conservou durante esse momento. A delicadeza com que resolveu o caso, a prova em que a  Providência o colocou, no momento em que ele estava chamado a receber a honra excelsa de ser o Pai legal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tomem, na vida de Nossa Senhora,  por exemplo, um fato eminente: as bodas em Caná, na qual Ela obteve, pelas orações d’Ela, a antecipação das manifestações da vida pública de Nosso Senhor e fez   com que Ele praticasse um milagre notável como a transmutação da água em vinho, um milagre direto e imediato, para uma família que se sentia provada naquele momento.

Nossa Senhora praticou ali uma grande ação, mas por maior que seja essa ação, não nos dá uma ideia suficiente de Nossa Senhora. O que nós sabemos d’Ela, sabendo que  Ela é Mãe de Deus, é tão mais do que isso! Assim também São José: algumas coisas dele que nós sabemos, por mais eminentes que sejam, não chegam à altura de quem Ele é.

Como terá sido o homem que Deus destinou a ser o Pai legal de Nosso Senhor? Porque São José, como Esposo de Maria Virgem, tinha um verdadeiro direito sobre o fruto das entranhas d’Ela, embora não fosse o pai do Menino Jesus. Então, como deve ter sido esse varão, como  Deus deve ter adornado essa alma, como deve ter constituído esse corpo, como deve ter enchido de graça essa pessoa, para que ela estivesse à altura desse papel?

Ora, se Deus tanto respeitou e venerou Nossa Senhora, quanto não terá venerado ao escolher um esposo adequado a Ela? Porque Ele deve ter feito desse casal o casal  perfeito, no qual o esposo fosse o mais proporcionado possível à esposa.

O que deve ter um homem para estar na proporção de ser Esposo de Nossa Senhora? É uma coisa verdadeiramente insondável. E qualquer coisa que ele tenha dito, feito, não nos dá ideia de quem ele foi, como nos dá essa simples afirmação: Pai do Menino Jesus e Esposo de Nossa Senhora!

Ora, ser o Pai do Filho de Deus é a mais alta honra a que um homem possa chegar, depois da honra de ser a Mãe do Filho de Deus, que é, evidentemente, uma honra maior. Quer dizer, ele não só foi nobre porque se casou com Nossa Senhora, mas porque Nosso Senhor o investiu na mais alta função de governo que possa haver na Terra abaixo de Nossa Senhora.

O exercer uma alta função de governo, de acordo com os conceitos da sociedade tradicional daquele tempo, nobilitava, conferia nobreza. Ora, ser o Pai do Menino Jesus, governar o Menino Jesus e Nossa Senhora é mais do que governar todos os reis e impérios do mundo. Ora, isso não lhe veio só do casamento.

Deus o escolheu para isso. Compreendemos então a nobreza excelsa que lhe vinha disso.

Quer dizer, fica acima de todo elogio e de todo feito. Aqui é que entra a coisa bonita: vemos que a Providência quis constituir, a respeito de Nossa Senhora e São José, os  fundamentos de culto com base num raciocínio teológico, porque é o raciocínio teológico que nos pinta o perfil moral destas pessoas excelsas.

Protetor da Igreja

Imaginem, agora, o que é ser o Santo Padroeiro da Igreja Católica. Protetor de algo é de algum modo um símbolo daquilo que ele protege. Para conceberem isso precisam imaginar da seguinte maneira: considerem, por exemplo, alguém que é guarda de uma rainha. Essa pessoa, de algum modo, toma em si algo da realeza, e escolhem-se para  ser os guardas da rainha os indivíduos mais capazes, os que tiveram maior coragem, os que nas guerras provaram maior dedicação à coroa.

Se é uma honra ser guarda da rainha, se é uma honra ser guarda do Papa, a ponto de ele ter uma guarda nobre especialmente constituída de fidalgos romanos para  guardarem a pessoa dele, então, que honra é ser guarda da Santa Igreja Católica! O Anjo da Guarda da Igreja Católica por certo é o maior Anjo que existe no Céu. Porque das  criaturas de Deus nenhuma tem a dignidade da Igreja. Exceção de Nossa Senhora, que é a Rainha da Igreja, ninguém pode se comparar à Igreja Católica. Nem qualquer Anjo, ou todos os Santos considerados cada um separadamente, têm a dignidade da Igreja Católica, porque ela envolve todos os Santos e ela é a fonte da santidade desses Santos, portanto, um Santo nunca pode ter a dignidade igual a da Igreja.

São José, pelo contrário, tem que ser alguém de tão alto, de tão excelso, que ele, por assim dizer, tem que ser o reflexo da Igreja que ele guarda para estar proporcionado a ela. E nós podemos então considerar que o  “thau” de São José, enquanto co-idêntico com o espírito da Igreja Católica, enquanto sendo exemplar prototípico e magnífico da  mentalidade, das doutrinas, do espírito da Igreja Católica, é um “thau” que só se pode medir por esse outro critério do “thau” dele, que é o fato de ser Esposo de Nossa Senhora e Pai adotivo do Menino Jesus e, portanto, estar proporcionado a Eles.

Alma excelsa

Se nós quisermos ter uma ideia da alma de São José, do espírito dele, acho que não encontraremos, eu ao menos não encontrei na minha vida inteira, uma  pintura ou uma escultura que representasse a ele adequadamente. Por exemplo, aqui no nosso oratório, tão a propósito colocado junto ao estandarte, os senhores têm uma  imagem muito boa de São José, que quando foi comprada foi até catalogada.

Como escultura é muito boa, mas não dá, a meu ver, aquilo que é a alma de São José. Seria preciso imaginar tudo quanto pensamos da Igreja Católica: toda a dignidade, toda a afabilidade, toda a sabedoria, toda a imensidade da Igreja, tudo quanto se pudesse dizer da Igreja Católica e imaginar isto realizado num homem, e então nós teríamos a  fisionomia moral de São José.

E então eu quisera ver quem seria o artista capaz de compor a face de São José.

Devemos imaginar pelo menos o perfil moral desse Santo, a castidade de São José, a pureza ilibadíssima dele, e nós devemos nos aproximar dele com respeito, com  veneração e pedir que nos conceda aquilo que nós tanto desejamos receber. Cada um se pergunte a si próprio, num exame de consciência de um minuto, qual é a graça que  quer pedir a São José por ocasião da festa de hoje.

Graças a implorar

A primeira das graças a pedir seria a da devoção a Nossa Senhora. Outra é a de refletir tão bem o espírito da Igreja Católica quanto esteja nos desígnios da Providência ao nos ter criado e nos ter conferido o Santo Batismo. Outra graça que poderíamos pedir é a de sermos filhos da Igreja Católica, tendo inteiramente o espírito do Grupo, que é o espírito da Igreja enquanto vivendo numa unidade viva da Igreja onde esse espírito se refrata de um modo particular. Nós podemos pedir a pureza, a despretensão, pedir  tudo, podemos escolher cada uma dessas coisas.

Podemos pedir todas essas coisas no seu conjunto. Às vezes é bom pedirmos uma coisa só – a graça nos leva a pedir uma coisa só –, às vezes é bom pedirmos tudo, porque há  momentos em que a graça nos leva a sermos audaciosos e a pedir muita coisa ao mesmo tempo.

Então hoje, na festa de São José, conforme o movimento da graça interior em cada um de nós, devemos pedir alguma coisa a ele. E se não soubermos bem o que pedir, dizer a São José: “Meu bom São José, vede que eu sou meio palerma, dai-me Vós aquilo que eu preciso, uma vez que sequer sei o que me convém!”

Eu acredito que do mais alto dos Céus ele sorri e dará com bondade alguma graça muito bem escolhida.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 19/3/1969, 19/3/1970 e 19/3/1976)

Consorte da Sede da Sabedoria e pai do Leão de Judá

Para se ter alguma noção do semblante de São José seria preciso deduzir, à maneira de suposição, o caráter de um homem que esteve à altura de ser o pai d’Aquele cuja Sagrada Face está estampada no Santo Sudário de Turim. Quer dizer, o homem que foi o educador, o guia, o protetor do Senhor daquele rosto impresso no Sudário; um homem da mesma linhagem, parente e esposo da Mãe d’Ele.

Conceber algo menor do que isso é não ter ideia da extraordinária figura de São José, modelo de fisionomia sapiencial porque consorte da Sede da Sabedoria, do Espelho da Justiça, Maria Santíssima. Modelo de fortaleza, porque pai do Leão de Judá, Nosso Senhor Jesus Cristo.

A este verdadeiro São José devemos elevar nossas preces, rogando-lhe interceda por nós junto à Virgem Santíssima e a seu Divino Filho, e nos alcance a graça de o imitarmos nas suas excelsas virtudes.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/3/1967)

Revista Dr Plinio 252 (Março de 2019)

São Leandro, Bispo de Sevilha

Sem o auxílio da graça, o homem é incapaz de obter êxito em seu apostolado; porém, amparado por ela, consegue o inimaginável. Disto nos dá um belo exemplo São Leandro de Sevilha, o qual extirpou a heresia que havia quase dois séculos grassava na Espanha.

Os grandes movimentos da História, em geral, são impulsionados por homens a quem Deus concede uma grandiosa missão, comunicando-lhes seu espírito e sua força. Um destes homens foi São Leandro de Sevilha. Convertendo os godos e salvando uma nação inteira do jugo dos arianos, ele bem pode ser considerado um dos fundadores da Idade Média.

Acompanhemos com especial veneração sua ficha biográfica(1):

São Leandro nasceu em Cartagena, Espanha. Seus pais pertenciam à alta nobreza, e sua família estava repleta de santos. Um de seus irmãos, Santo Isidoro, sucedeu-o no trono episcopal de Sevilha; o outro, São Fulgêncio, foi Bispo de Cartagena. Sua irmã, Santa Florentina, tornou-se religiosa.

Quando era jovem ainda, São Leandro retirou-se para um mosteiro, tornando-se perfeito modelo de ciência e piedade. Seus méritos o levaram à Sé Episcopal de Sevilha, onde não diminuíram em nada as austeridades que praticava.

Quando Leandro foi nomeado bispo, parte do território espanhol estava dominada pelos visigodos arianos havia cento e setenta anos. Entregando-se imediatamente ao combate da heresia, o novo Bispo rezava e implorava o auxílio de Deus. O sucesso coroou seu zelo, e em pouco tempo a heresia já contava com menos adeptos.

Entretanto, Leovigildo, então rei dos visigodos, e também ariano, irritado com a atividade de São Leandro, e principalmente com a conversão de seu filho primogênito, condenou o santo ao exílio e o filho à morte.

Seu segundo filho, Recaredo, que vindo a ser um fervoroso católico, ao herdar o trono conseguiu a conversão de todos os seus súditos.

São Leandro dedicou-se a manter o fervor dos fiéis e foi a alma de dois grandes concílios: o de Sevilha e o de Toledo, os quais condenaram o arianismo.

Homem de ação, Leandro a todos inspirava o amor à prece, especialmente aos religiosos. Escreveu instruções admiráveis à sua irmã sobre o exercício da oração e o desprezo do mundo. Reformou a liturgia na Espanha.

Afligido por numerosas enfermidades, o apóstolo dos visigodos faleceu em 596.

A ação do Espírito Santo e a pujança da santidade

A ficha é riquíssima de aspectos passíveis de comentário. O primeiro deles é o florescimento de santos numa mesma família da alta nobreza espanhola: Santo Isidoro de Sevilha — um dos maiores santos da história da Espanha —, São Fulgêncio, Santa Florentina e São Leandro.

Vemos que beleza há na conjunção de tantos santos numa mesma estirpe. Com isso, Deus faz sentir a importância do fenômeno “estirpe” na formação dos santos e na realização dos planos da Providência.

Por outro lado, observamos a pujança de santidade existente naquela época. Trata-se de um dos mais belos fenômenos da História, onde inúmeros santos inauguraram o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo durante a Idade Média; fenômeno não atribuível a nenhum homem, a nenhuma Ordem religiosa, mas diretamente oriundo da ação do Espírito Santo.

De fato, a não ser por um verdadeiro sopro universal do Divino Espírito Santo, não seria possível o surgimento de tantas almas santas ao mesmo tempo.

Em pleno domínio dos bárbaros arianos…

Ao ser eleito Bispo de Sevilha, São Leandro encontrou-se diante do seguinte problema: havia cento e setenta anos, bárbaros hereges exerciam uma função dominadora na Espanha.

Ao contrário do que muitos pensam, a maior parte dos bárbaros não era pagã, mas sim ariana. Quando invadiram o Império Romano, muitas tribos bárbaras já haviam sido visitadas, em suas respectivas regiões, por um Bispo ariano chamado Úlfilas(2), o qual as perverteu para o arianismo.

Desta maneira, enquanto descendentes dos antigos cidadãos do Império Romano, os católicos eram os vencidos, os pobres, estavam por baixo e gemiam sob o jugo dos arianos, os quais, por sua vez, constituíam o povo novo, forte e vencedor.

…a Providência suscita São Leandro de Sevilha

São Leandro recebeu, então, da parte de Deus, a missão de derrubar o domínio ariano. De que maneira ele o fez?

Em primeiro lugar, chorando diante de Deus e pedindo, por meio de Nossa Senhora, os auxílios necessários para a tarefa que deveria realizar de modo admirável. Cônscio da incapacidade humana perante as tarefas apostólicas, São Leandro sabia que o homem não é senão um instrumento de Deus e de Nossa Senhora, os verdadeiros realizadores do apostolado. Assim, as conversões deram-se em número colossal e o poder ariano foi diminuindo graças às suas pregações.

Aspectos fugazes, porém importantes, se desvendam na vida de São Leandro, uma das maiores figuras da hagiografia e da história espanhola.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 26/2/1964 e 27/2/1967)

1) Butler, Alban. Lives of the Saints – With Reflections for Every Day in the Year.
2) Educado no Catolicismo, Úlfilas aderiu ao arianismo por ocasião de uma viagem a Constantinopla, onde Eusébio o sagrou bispo. Tendo voltado para o grêmio dos godos, dedicou-se à conversão de seus irmãos de raça à fé ariana.

São José – Modelo de cavaleiro

Um dos episódios mais bonitos da vida de São José é a fuga para o Egito.

O Santo Patriarca recebe em sonho a visita de um Anjo que lhe diz que o Rei Herodes está querendo matar o Menino Jesus. Então ele sai às escondidas, com Nossa Senhora e seu Divino Filho, e vão para o Egito.

A defesa do maior tesouro que houve na Terra — e tesouro maior do que esse não há no Céu — ficou inteiramente confiada a São José, que representava o braço vigoroso, a previdência, a força varonil na defesa de um Menino que era ao mesmo tempo Deus, mas quis ser fraco nas mãos de São José.

Nós louvamos e apreciamos muito a vocação de Godofredo de Bouillon, que comandou as tropas na reconquista de Jerusalém. É o cruzado por excelência, é uma coisa linda! Entretanto, muito mais do que retomar o Santo Sepulcro para Nosso Senhor é defender a Ele próprio! E disto São José foi encarregado bela e gloriosamente. Ele foi, portanto, o cavaleiro-modelo na defesa do Rei dos reis, do Filho de Deus encarnado.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 30/7/1989