O Papa que travou uma batalha decisiva

São Gregório VII travou uma batalha decisiva, depois da qual não houve mais luta séria entre o papado e o império, ou qualquer monarquia, a respeito do princípio contra o qual Henrique IV se levantou. Posteriormente houve escaramuças, mas fundamentalmente a batalha estava ganha por esse Santo.

 

São Gregório VII teve um importante papel contrarrevolucionário ao reivindicar a prioridade das coisas espirituais sobre as temporais, do papado sobre o império, ao impor, com palavras magníficas, o castigo necessário ao Imperador rebelde que, assim contido, teve reprimida na sua pessoa, durante séculos, a marcha da Revolução a qual, como serpente que saía de sua toca, tentava começar a caminhar na História, quando o cajado firme desse pastor lhe quebrou a cerviz.

Vibrou contra Henrique IV a punição mais alta, profunda e intransigente

Tudo isso constituiu a glória desse Santo o qual pôde dizer que morria no exílio porque tinha amado a justiça e odiado a iniquidade, cumprindo desta forma inteiramente o seu dever de pastor, e dando o magnífico testemunho de si mesmo.

Mas há um aspecto da vida de São Gregório VII o qual, embora reluza com todo o brilho e seja notado por todo mundo, não vi ninguém que comentasse. Que aspecto é esse?

Ele travou uma batalha decisiva depois da qual não houve mais luta séria entre o papado e o império, ou qualquer monarquia, a respeito do princípio contra o qual ele se levantou. Sobre aplicações colaterais ou transgressões desse princípio, punidas justamente pela Igreja, ainda houve escaramuças, mas fundamentalmente a batalha estava ganha por esse Santo. Portanto, o golpe desferido por ele foi certeiro, atingindo o ponto que deveria.

Em segundo lugar, São Gregório VII teve que enfrentar o maior potentado da Terra, e não tentou ladear a questão. Ele não procurou mandar emissários incumbidos de deformar o problema, atenuando-o com meias palavras e por meio de inadequadas contemporizações.

“O Imperador se levantou e sustentou tal coisa? Eu, Gregório, sucessor de São Pedro, declaro que esta coisa é falsa, e digo a ti, ó Imperador: Tu és o maior potentado civil da Terra, tu te encontras no meu caminho como o homem mais poderoso que a mim poderia se opor. Está bem, eu travo esta batalha contigo! Entesto o meu poder contra o teu, e vamos ver qual é o poder que vale mais. Eu te deponho e excomungo, escorraço-te da Igreja Católica. Mais ainda: amaldiçoo-te, declaro que tens parte com satanás e pertences à grei maldita que Deus expulsa da sua presença. Vai, sai!”

Quer dizer, contra esse potentado ele vibra a punição mais alta, profunda e intransigente que se poderia imaginar. Não tem medo de nada. E se tiver que acontecer qualquer coisa, aconteça. “Eu estou aqui para a glória de Deus, para a vida ou para a morte desta minha pobre existência terrena. Mas lutarei até o fim.”

Um fato sem precedentes na História

O Imperador vai a Canossa. De lá para cá, “ir a Canossa” ficou uma expressão consagrada na literatura de bom quilate. Diz-se que vai a Canossa a pessoa que, em linguagem corrente, vulgar, banal de hoje em dia, entrega os pontos, não tem mais resistência a fazer e se declara derrotada.

Canossa é uma comuna italiana, próxima a Toscana – Norte da Itália –, onde a Condessa Matilde, fervorosa devota do papado, possuía um castelo no qual abrigara o Santo Pontífice contra quem o furor do Imperador Henrique IV estava por se desatar.

Esse Imperador, em pleno inverno, toma trenós e, percorrendo os desertos gélidos da Suíça, particularmente inóspitos nessa época, vai a Canossa e pede perdão, porque não tinha outro remédio. Nos últimos dias em que ele permaneceu no poder, até os criados fugiam de sua casa, de maneira a não ter sequer quem lhe prestasse os serviços domésticos. Não é só dizer que não possuía apoio político, ele não tinha quem lhe preparasse o banho! Por quê? Porque era o homem maldito sobre o qual caíra a excomunhão do representante de Cristo na Terra, do sucessor de São Pedro. Por isso ninguém queria nada com ele.

Henrique IV atravessa as vastidões perigosas da Suíça durante o inverno, e naquele tempo a qualquer momento podia acontecer que caísse por um abismo abaixo, ficando sepultado na neve. Com a excomunhão, na neve ficaria o seu corpo e no fogo sua alma para todo o sempre, se não houvesse um arrependimento perfeito.

Enfim, ele se apresenta e pede perdão. Fato sem precedentes na História: um imperador humilhado a este ponto, por uma mera palavra de um papa. É o mais alto potentado da Terra contra quem o Sumo Pontífice pronuncia uma fórmula, e ele cai no chão. Era o caso de dizer: “Sed tantum dic verbum – dizei uma só palavra, e a Igreja será salva deste inimigo.” São Gregório VII disse a palavra, e a Igreja ficou libertada.

“Excomungado aqui não entra!”

No castelo da Condessa Matilde, o Papa é informado que o Imperador estava ali. Alguém mais fraco – não só um homem que não fosse santo, mas mesmo um santo não assistido por uma graça especialíssima – talvez tivesse pensado em acolher o penitente de imediato. Mas estava ali o varão cuja vocação era dar o exemplo do que é o gládio da Igreja, e fazer amar de modo todo especial essa integridade de alma pela qual a Igreja não cede. São Gregório VII manda fechar as portas do castelo:

— Excomungado aqui não entra!

— Mas o que ele pode fazer, pois está do lado de fora das muralhas, ajoelhado no gelo e pedindo perdão.

— Que fique!

Nesse gesto tão duro e admirável nota-se a mão maternal da Igreja. Ele poderia ter dito: “Que vá embora!” Entretanto, disse: “Fique!” Na ponta do gesto floresce uma vaga esperança de perdão. Mas antes a penitência, a humilhação. Durante três dias e três noites, o soberano deposto sofreu essa humilhação.

A História nos conta que só depois disso São Gregório VII admitiu Henrique IV e, tendo este pedido perdão com toda a humildade, o Papa o perdoou, reconciliou-o e permitiu que fosse embora. Estava quebrado o cetro que satanás levantara contra o papado. São Gregório VII tinha obtido uma grande vitória.

Que a maldita Revolução gnóstica e igualitária seja punida!

Qual é a lição que tiramos disso? A de ser rijo, firme, ir ao fundo, até o fim dos princípios, às últimas consequências, enfrentar qualquer adversário de viseira erguida e de gládio em punho, não se contentar com meios termos, com palavras vazias, nem com esperanças vãs, mas, ao pé da letra, exigir que se quebre o poder que se levantou e se anule o risco que se constituiu; só então ter misericórdia.

Porque a misericórdia é admirável enquanto chama para o arrependimento o pecador e o perdoa. Ela não seria admirável e não seria verdadeira misericórdia se fosse a paz com o pecador que não se arrepende. É preciso que o pecador se arrependa sinceramente e peça perdão. Depois disso ele deixou de ser empedernido. Então é a vez da misericórdia; antes não.

Mesmo depois de pedir o perdão ainda há a penitência a cumprir. É o que nos ensina esse entrecruzamento maravilhoso de justiça e de misericórdia que é o Purgatório. Almas de pessoas que faleceram piedosamente em Jesus Cristo, morreram rezando, pediram perdão de seus pecados e comparecem diante de Deus. Entretanto, em número incontável, são mandadas para o Purgatório. Por quê? Porque é preciso expiar, pagar de algum modo o mal feito. E a alma que se arrepende tem vontade de reparar esse mal praticado.

Assim, em nossa luta devemos considerar os desígnios da Providência: desejar, com toda a nossa alma, que o adversário da verdadeira Igreja Católica Apostólica Romana em nossos dias seja punido: a maldita Revolução gnóstica e igualitária. Mas seja punida ainda mais do que o Imperador Henrique IV foi, porque ela ousou coisa pior: tentou penetrar no próprio Santuário e transformá-lo num reduto da Revolução. Ela desbastou a Terra inteira, e é preciso que o castigo seja proporcional. A Revolução, enquanto tal, tem que desaparecer!

Eis a lição do grande São Gregório VII. Em última análise, levar o bem, a verdade, a beleza e a fidelidade à Igreja até as suas últimas consequências.

Devemos nos preparar para a grande luta que nos espera

Esse Pontífice não viveu no tempo de Carlos Magno, em cujo gládio estavam inscritas as palavras: “Defensor dos Dez Mandamentos”. Que coisa maravilhosa! Entretanto, São Gregório VII foi o Carlos Magno da Igreja Católica. A glória carolíngia, de proporções mais angélicas do que humanas, a Igreja a viveu nos dias de São Gregório VII magnificamente.

Nós, que queremos a glória da Santa Igreja porque desejamos a glória de Deus, devemos pedir a São Gregório VII que faça voltar à Terra esses dias de glória. Por meio dele, voltemo-nos para Nossa Senhora e peçamos a Ela, cuja intercessão é onipotente, que abrevie os dias tremendos nos quais estamos; faça com que atravessemos corajosamente todos os obstáculos que temos diante de nós e sejamos capazes da grande luta que nos espera.

São Gregório VII disse: “Eu odiei a iniquidade e amei a justiça, por isso morro no exílio.” Nós devemos afirmar: “Odiamos a iniquidade e amamos a justiça, por isso vivemos no exílio.” A nossa vida é um longo exílio, tivemos que nos exilar de tantas coisas, de tantos ambientes, de tantas circunstâncias; nós somos os exilados! Mas que belo exílio esse no qual um tão pulcro sentimento fraterno, uma tão bela conformidade de todos os espíritos e de todos os desígnios, no mesmo amor à mesma causa, nos reúnem.

O glorioso São Gregório VII, que morreu no exílio, dê força e ânimo a quem deve viver e, mais tarde, morrer no exílio. Como também àqueles destinados a ter suas vidas ceifadas durante os castigos profetizados em Fátima, para que morram com bravura. E os chamados a viver no Reino de Maria, vivam igualmente com coragem nessa ideia: o exílio acabou, mas se ainda hoje eu devesse me exilar, repetiria o meu passo e me exilaria novamente. Não tenho apego nem ao prêmio da minha vitória. Eis o nosso pedido a esse grande Santo, no dia em que se comemora a sua festa.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 25/5/1985)
Revista Dr Plinio 266 (Maio de 2020)

 

Levaremos a luta até à vitória

Alguns meses antes de sua morte, ao narrar certos episódios de sua vida, Dr. Plinio afirma: “Ainda na minha infância, senti a Revolução em pé contra mim como uma hiena, e compreendi que a salvação de minha alma e o futuro de todo o mundo estavam arriscados se essa hiena não fosse derrubada; resolvi então combatê-la. Custasse o que custasse, com a proteção de Nossa Senhora, eu haveria de lutar contra ela e a Santíssima Virgem me daria a vitória”.

 

Quando eu era menino, entre sete e dez anos, havia no meu quarto, além de uma estampa com o Sagrado Coração de Jesus, um quadro bonito representando Nossa Senhora, não me lembro sob que invocação.

Dificuldade com a devoção a Nossa Senhora

Mas a minha devoção, por causa do exemplo de mamãe, ia toda para o Sagrado Coração de Jesus. Embora eu a visse rezar também para a Santíssima Virgem, por uma espécie de relacionamento especial que ela possuía para com o Divino Filho d’Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo, mamãe me ensinava a rezar muito ao Sagrado Coração de Jesus. Ela falava menos de Nossa Senhora e do Imaculado Coração de Maria.

E formou-se em mim – menino, bobinho – um estado de espírito pelo qual eu tinha uma espécie de dificuldade com a devoção a Nossa Senhora. Compreendia, achava bonito, mas tinha uma espécie de objeção contra aquilo. Uma objeção de mau espírito, porque no fundo dizia o seguinte: “Reza-se demais para Nossa Senhora. Devia-se orar menos para Ela e rezar mais para Jesus Cristo”, o que me fazia orar pouco para Ela. É uma péssima disposição de espírito.

Eu não sabia que a Santíssima Virgem misericordiosamente me reservava um caminho especial nas vias d’Ela, de tal maneira que mais tarde – em virtude das circunstâncias que vou relatar daqui a pouco – a minha vida acabou sendo um ato de devoção contínua a Nossa Senhora e, por meio d’Ela, a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os fatos se passaram do modo mais inesperado possível. No Colégio São Luís, onde eu estudava, os padres distribuíam a cada aluno, todo mês, um boletim no qual constava uma nota em cada matéria lecionada. A primeira matéria mencionada, a muito justo título, era Religião e depois vinham as outras.

Em cada matéria havia dois quadradinhos especiais: um se referia à aplicação e outro ao comportamento. A nota de aplicação visava premiar o aluno que aprendia bem, ou censurar o que não fazia esforço para aprender, sendo relaxado e preguiçoso. A de comportamento considerava a conduta do aluno durante a aula: se conversava, dava risada do professor, atrapalhava por meio de provocações e brincadeiras os outros colegas.

Os alunos deveriam levar os boletins para os seus pais. Em geral a distribuição era feita nas sextas-feiras à tarde. Na segunda-feira, o aluno tinha que trazer de volta o boletim assinado pelo pai, e o colégio o arquivava.

Minha conduta na aula era boa e em geral as notas eram elevadas, até bem elevadas. Quanto à aplicação, havia uma diferença. Certas matérias me interessavam muito, então dessas eu era um aluno bem bom. Religião, História, Francês, Português eram matérias de que eu gostava e me aplicava. Mas em Geografia, Matemática, Geografia do Brasil e outras coisas dessas, eu recebia notas menos altas porque não estudava. Eu tinha birra dessas matérias, não gostava de estudá-las e concentrava o melhor do meu esforço naquelas que apreciava.

Mas mesmo nas matérias das quais eu não gostava as notas de aplicação eram suportáveis. Em comportamento, sendo um aluno muito calmo, tranquilo, disciplinado, graças a Deus eu tirava dez em todas as matérias, que era a mais alta nota.

O homem vale pelo seu caráter

Quando eu chegava em casa, Dona Lucilia estava à minha espera, porque ela já sabia que aquele era o dia da distribuição do boletim. Ela me perguntava:

— Filhão, você trouxe seu boletim?

Eu o tirava da minha pasta e entregava-lhe tranquilo porque já tinha visto as notas e sabia que tudo estava bom. Ela lia com atenção, depois em geral me beijava e fazia um comentário de uma matéria ou outra:

— Matemática está muito baixa. Veja se você levanta essa nota no mês que vem. Você não quer apreender Geografia do seu país? O que é isto?

Eu dava uma saída qualquer e percebia que ela não fazia uma questão fechada.

Ela às vezes me dizia:

— Eu fico especialmente contente por causa da nota dez de comportamento que você sempre tem. Você quer saber por quê?

Eu dizia naturalmente que queria, e ela me dava sempre a mesma explicação:

— Ninguém tem culpa de ser burro, tem culpa de ser ruim. Um aluno que tem nota baixa de comportamento não é burro, é ruim, não gosta da ordem, da disciplina, do esforço. Agora, um aluno que tem nota baixa de estudos significa que é burro, ele não tem culpa de não aprender aquela matéria, não dá para aquilo. Eu prefiro mil vezes ter um filho burro, mas bom, do que um filho ruim, mas inteligente, porque o homem vale pelo caráter. A inteligência é uma coisa de valor, mas secundária. Sem inteligência se vai para o Céu, sem caráter não.

Eu ouvia aquilo que me era dito com muito afeto e achava que ela tinha razão. Ela fazia como se não soubesse se eu era inteligente ou não. E acrescentava:

— Se você vier a dar um homem burro não tem culpa, está perdoado desde já, nem tenho o que perdoar. Mas se der um homem ruim será diferente; com sua mãe homem ruim não passa.

Uma nota baixa em comportamento

Certo dia, após a distribuição dos boletins, eu abri o meu e verifiquei que as notas estavam razoáveis. Entretanto, a de comportamento na matéria Geografia era péssima, seis, muito abaixo do que Dona Lucilia toleraria. Se uma nota de comportamento fosse nove, ela toleraria, mas com uma observação: que isso não se repita; mas seis ela não toleraria.

Olhei aquilo e fiquei pasmo. Pensei: “Eu não fiz nada na aula de Geografia, não tenho culpa nenhuma, isso é uma injustiça ou um engano de quem copiou essas notas. Mamãe agora vai ficar indignada e não sei o que vou fazer. Devo tirar essa nota do boletim”.

Aí veio a criancice, a imbecilidade. Cogitei: “Preciso passar uma água em cima dessa nota seis.” Depois eu refleti: “Mamãe verá que passei água e vai perguntar o que eu quis esconder.” Como estava chovendo muito, pensei: “Vou lá fora, abro o boletim, cai água da chuva em cima e depois direi a ela: ‘Mamãe, eu quis ler o boletim na chuva e pingou água na nota de Geografia, como em outras partes do boletim’; e assim tapeio a coisa”.

Fui para a chuva, mas houve algo incrível: chovia em torno da nota seis, porém nenhuma gota de água caía em cima do seis. Perdi a paciência, esperei cair uma gota grande de água e com um dedo molhei resolutamente a nota seis. Aí verifiquei que ficou uma porcaria, ela veria mesmo e eu teria que lhe dar explicações.

E como diz a Escritura “abyssus abyssum invocat” – quer dizer, um abismo atrai outro abismo, um erro atrai outro erro, uma má ação atrai outra má ação –, resolvi escrever dez em cima do seis com a minha letra. Ela estava farta de conhecer minha letra e veria que era o auge da infantilidade e do não saber fazer as coisas.

“Prefiro tudo na vida a ter um filho falsário”

Quando chego em casa, ela, com seu afeto habitual, indagou:

— Filhão, você tem seu boletim aí?

— Tenho.

— Deixe-me ver.

Entreguei-o fechado. Eu costumava entregá-lo aberto para ela.

Ela abriu e perguntou:

— O que é isto aqui?!

— Mamãe, caiu água.

— Não me venha com essa história. Aqui em cima você escreveu dez. O que tinha embaixo? Por que você apagou o que estava embaixo?

Eu disse:

— Mamãe… tinha seis.

— Ah?! O que você fez para seu professor de Geografia lhe desse seis?

— Não fiz nada, mamãe, mas saiu essa nota. Não querendo aborrecer a senhora, eu arranjei um jeito de pôr uma nota que a deixasse contente; mas sabia que tinha feito mal.

Mamãe ficou indignada e tirou logo uma conclusão cujo verdadeiro alcance eu não peguei na hora. Ela disse:

— Prefiro tudo na vida a ter um filho falsário.

Ela pronunciou a palavra “falsário” de tal maneira que eu senti, no modo de ela dizer, sem poder compreender bem, todo o mal que existe na falsificação.

No meio de casos publicados nos jornais e contados na família, eu já tinha ouvido falar de falsário, qualificado nas conversas, como por toda parte se qualifica, como um crime realmente dos mais nocivos, mais condenáveis e, nessas condições, como uma coisa que rebaixava muito o homem.

Naturalmente não se tratava de falsário de nota de colégio, eram falsários que falsificavam cheques de banco e coisas dessas, quer dizer, crimes de prender na cadeia, uma coisa muito mais séria, muito mais forte.

Mas, enfim, ela disse “falsário” e toda aquela censura do falsário caiu em cima de mim. E acrescentou:

— Você fique sabendo o seguinte: na segunda-feira seu pai irá ao Colégio São Luís, vai mostrar ao padre o que você fez e pedirá para verificar, nos assentamentos do colégio, qual é a sua verdadeira nota. Se foi uma nota errada que copiaram mal, você está perdoado; mas se de fato a nota real é seis, você não vai ficar mais um dia em São Paulo. Eu vou mandar você para o Colégio do Caraça.

Eu fiquei pasmo:

— Longe de casa, mamãe?

— Sim, senhor. Eu não quero ter falsário perto de mim.

Eu caí em vários abismos. Para mamãe não me querer mais perto dela, pode-se imaginar o que isso significava, era uma coisa horrorosa!

Ela, ao mesmo tempo, me disse que esse Caraça era uma espécie de penitenciária para crianças, que só meninos meio criminosos é que iam parar lá. Não correspondia à verdade, pois era um dos melhores colégios do Brasil. Mas naquele tempo as comunicações eram mais difíceis, as pessoas estavam menos informadas do que hoje e ela tinha esse conceito errado a respeito do Colégio do Caraça.

Ela me disse:

— Vou mandá-lo para lá e você vai ficar um ano sem me ver e sem que eu possa vê-lo. Não pense que vou visitá-lo, porque mãe de falsário… eu não quero saber disso.

Cada vez que ela dizia uma coisa dessas, que contrastava com o carinho requintadíssimo e dulcíssimo com que ela me tratava, eu me sentia mais achatado e mais esmagado pelo meu próprio delito: “Falsário, que coisa horrorosa!” Eu, sem saber bem o que isso significava, me sentia um falsário.

Paralelamente com isso eu fiz uma outra ação, a qual não tenho razão para contar aqui, que foi uma ação má. Quer dizer, infelizmente eu estava atravessando dias ruins. Mamãe não sabia dessa ação. Se ela viesse a saber, eu não sei onde iria parar.

Missa na Igreja Sagrado Coração de Jesus

Mamãe pediu a papai para vir falar com ela na minha presença. Explicou-lhe o acontecido e papai naturalmente também não gostou nada do que eu fizera. Combinaram que ele iria na segunda-feira – no primeiro dia útil, portanto – ao Colégio São Luís para perguntar o que havia.

Passou-se com isso a sexta-feira, o sábado – triste e aborrecido para mim. No domingo resolvi ir à Missa na Igreja do Coração de Jesus. Estava com pouco sono e acordei-me cedíssimo, quando costumava despertar tarde aos domingos. Levantei-me e fui sozinho à Missa, sem mamãe, nem papai, nem minha irmã, nem ninguém.

Quando cheguei à igreja, esperava encontrar junto à imagem do Sagrado Coração de Jesus um banco para me ajoelhar e assistir à Missa. Mas notei uma cena inteiramente diferente.

O Colégio do Coração de Jesus é colossal, toma as quatro faces de um quarteirão muito grande. Naquele tempo era um internato enorme, não sei quantos meninos cabiam ali. Eles estavam entrando na igreja a fim de assistirem à Missa, a qual era obrigatória para todos. Eles entravam em fila cantando e iam ocupando os lugares nos bancos.

Eu vi logo que quase todos os bancos estavam ocupados e que não haveria nenhum livre, pois os padres fariam sair do banco qualquer menino que não fosse do colégio para dar lugar aos alunos.

Senti-me rechaçado por todos os lados, por Deus e pelos homens: “Tudo me acontece mal, eu andei mal em dois pontos, sou um falsário, é uma coisa horrorosa, vou-me espremer neste canto da nave lateral – do lado direito de quem entra na igreja – e aqui vou ficar bem no fundo. Neste lugar a misericórdia de Deus ainda olha para um miserável falsário que aqui pode rezar durante a Missa.” Coloquei-me lá.

Os meninos começaram a cantar, o padre entrou, iniciou a celebração da Missa e as coisas tomaram seu caminho normal. Por causa das colunas, eu não conseguia ver o padre e acompanhar seus movimentos; levantava-me e ajoelhava seguindo o povo .

Uma imagem alvíssima de Nossa Senhora

Também não podia ver a imagem do Sagrado Coração de Jesus. A única imagem que eu via era a de Nossa Senhora, de mármore alvíssimo, branquíssimo. Maria Santíssima tinha o Menino Jesus num braço e no outro um cetro para indicar que Ela era Rainha porque Mãe do Homem-Deus. Nossa Senhora, portanto, mandava no mundo inteiro e tudo quanto Ela quisesse Deus faria; Ela participava de algum modo da onipotência d’Ele. O Criador A ama como a Mãe d’Ele. Podia imaginar como Deus A amava, imaginando quanto eu queria a minha mãe.

Pensei: “Se eu que sou finito e um trapo amo minha mãe tanto, tanto, tanto, imagine como Deus, que é infinito, amará a Mãe d’Ele.” Mas conjeturem também como é Nossa Senhora para que Deus A tenha escolhido por Mãe, resolvido encarnar-Se n’Ela, passado um estado de gestação em seu claustro bendito e depois, através d’Ela, ter nascido para salvar o mundo, é uma coisa extraordinária. “Ela deve ser formidável!”

Por um jogo natural de ideias veio-me à mente que se eu, um falsário, me dirigisse ao Sagrado Coração de Jesus não seria atendido, mas que se pedisse por meio d’Ela seria acolhido. Porque assim como eu fazia tudo quanto mamãe queria, também Ele faria tudo quanto a Mãe d’Ele desejava.

Ora, a Mãe de Deus teria – como eu já disse – a influência junto a Ele parecida com a que mamãe tinha sobre mim e, portanto, o que Ela pedisse Deus faria. Mas como era Mãe, Ela queria bem não como um pai quer um filho, mas à maneira que uma mãe quer um filho. Papai me queria bem de um certo modo, mas outra era a maneira de mamãe me querer bem. Deus era Pai, infinito, perfeito, mas Ela tinha mais pena de mim, mais misericórdia, era mais acessível.

Enquanto eu estava pensando assim e olhando para a imagem de Nossa Senhora, não se deu milagre nenhum, mas, sem que houvesse no rosto de mármore da imagem o menor movimento, alguma coisa se passou pelo que eu tinha impressão de que Ela me olhava cheia de bondade e com muita pena de mim.

Por um certo sorriso que os lábios d’Ela não definiram – os lábios não se moveram, a imagem é de pedra, não pode mover-se –, eu tinha a impressão de que Ela sorria. E sorria como quem me conhece: “É o Plinio, filho de Dona Lucilia e de Dr. João Paulo”, e Ela olhava para mim com uma misericórdia e uma bondade especiais.

Plinio: um menino de correção excepcional nas aulas

O fato produziu na minha alma uma verdadeira reviravolta. Compreendi, então, quem era Nossa Senhora e o papel d’Ela para com cada um de nós quando andamos mal, não só quando procedemos bem. Quando andamos bem, Ela é uma Mãe indizivelmente boa para com o filho bom. É uma efusão mútua de afetos e carinhos, enormemente maior quando desce d’Ela até nós do que quando sobe de nós até Ela. Mas em certo momento os dois afetos se encontram e é como se fosse um arco voltaico, um arco-íris, a caminho do Céu.

Então, sem ouvir nenhuma voz – como eu disse, não houve milagre nenhum –, alguma coisa me disse no interior da minha alma o seguinte: “Confie, Nossa Senhora rezará por você, tudo isso se resolverá e mamãe ficará bem com você de novo. Esse negócio vai passar porque Maria Santíssima pediu”.

Voltei para casa e encontrei Dona Lucilia tal e qual. E não podia deixar de ser, porque ela só ia tomar conhecimento da solução do caso do boletim no dia seguinte. Para mim o que contava era ela. Se Dona Lucilia estava contente comigo, o mundo estava contente; se ela não estava, o resto não valia nada.

Na segunda-feira, meu pai, que tinha ido ao Colégio São Luís, a horas tantas entrou em casa com uma cara calma, segura, tranquila. Olhei para ele – que nem percebeu que eu ali me encontrava – e percebi que estava preocupado com o chaveiro o qual não funcionava bem. Cogitei: “Se ele está pensando no chaveiro é porque não está preocupado comigo; tudo correu bem”.

Meu pai era de Pernambuco e os pernambucanos antigos tinham o hábito de chamar as esposas de senhora. Ele aproximou-se de Dona Lucilia e disse:

— Senhora, aqui está o boletim de vosso filho.

Mamãe o pegou logo e perguntou:

— O que houve?

Ele respondeu:

— O Padre Reitor, diretor do colégio com quem eu conversei, deu muita risada quando viu a borradela que o Plinio fez no boletim. Depois me disse que deveria ter havido um engano de cópia, porque o Plinio era em geral de uma boa educação e de uma correção excepcional nas aulas. Acontece que sempre é possível um menino fazer alguma coisa errada. E afirmou: “Se o padre deu essa nota, vou falar com ele para saber qual o motivo”.

Depois de algum tempo, o reitor voltou com o boletim na mão, no qual ele escrevera uma nota dizendo ter havido um engano da secretaria que copiou errado, que a nota que o padre dera ao comportamento de Plinio era dez.

Estava tudo resolvido e o céu azul…

Prestando atenção nas palavras da “Salve Rainha”

Enquanto eu estava na igreja, no domingo, orando a Nossa Senhora, não sabendo o que dizer para Ela, rezei uma Salve Rainha. Foi a primeira vez que prestei uma atenção séria nessa oração. O texto me pareceu lindíssimo – é mesmo uma verdadeira obra-prima – e convinha para minha situação. Aquelas palavras podiam-se adequar a um menino mal comportado e ameaçado de ir para uma espécie de penitenciária, como eu imaginava. Na aflição que eu estava elas convinham perfeitamente.

“Salve” em latim é uma saudação, como quem diz “bom-dia” ou “eu te saúdo”. Mas eu não sabia isso, pensei que “salve” queria dizer “salvai-me”. Dizendo “Salve Rainha” eu entendia: “Rainha, salvai-me desse apuro.”

Então eu pedia com um desejo enorme de ser atendido: “Mãe de misericórdia”. Eu pensava: “Está vendo? Mamãe é tão boa, eu a quero tão bem, mas Nossa Senhora é muito melhor do que ela.”

Isso é pura verdade. Nossa Senhora é melhor a perder de vista do que o mais santo dos homens e o primeiro dos Anjos. Nosso Senhor não fez criatura que fosse igual a Ela. Maria Santíssima é um escalão intermediário entre Deus e a Criação inteira. Há os homens, os Anjos, depois Nossa Senhora num ponto supremo e mais elevado que tudo, e infinitamente acima está Deus. Quer dizer, o que é Nossa Senhora nós nem temos uma ideia.

Ora, essa noção de que Ela era uma pessoa excelsa eu tinha, mas não de sua bondade e misericórdia.

Tudo isso fazia-me ter a ideia: “Vê como a Igreja trata a Virgem Santíssima. Diz que Ela é nossa vida, doçura e esperança. Que beleza! Então Nossa Senhora é nossa vida, essa criatura tão única que ninguém tem comparação com Ela. Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Esposa do Divino Espírito Santo, Filha do Padre Eterno, Ela é Mãe de Misericórdia. Mãe já indica a ideia de misericórdia. Mãe de misericórdia é uma mãe toda feita de misericórdia”.

Eu pensava: “De algum modo pode dizer-se isso de mamãe, mas quão menor é ela do que Nossa Senhora. Quão maior é Ela, mais perfeita, mais incomparável; ninguém é igual a Maria Santíssima. E como Ela tem pena de mim e sorri para mim. Ah, já sei! Com quem eu vou me arranjar na vida é Ela.”

E realmente em casa as coisas todas se consertaram. Depois, ao longo dos anos, eu às vezes brincava com Dona Lucilia sobre o Colégio do Caraça e o filho “falsário” dela. Ela sorria porque eu brincava com muito carinho, muito respeito com ela, e o fato se perdeu nos tempos. Mas uma coisa ficou: a devoção a Nossa Senhora.

Aplausos entusiásticos do público católico

Tudo isso se passou antes do período em que, ainda na minha infância, senti a Revolução em pé contra mim como um leão – ou, pior, como uma hiena – e compreendi que a salvação de minha alma e o futuro de todo o mundo estavam arriscados se essa hiena não fosse derrubada; resolvi então combatê-la. Custasse o que custasse, com a proteção de Nossa Senhora, eu haveria de lutar contra ela e a Santíssima Virgem me daria a vitória.

Minha vida foi transcorrendo, tive com a Revolução esse começo de luta no Colégio São Luís. Fiquei moço, a partir do Congresso da Mocidade Católica, em 1928, ingressei na Congregação Mariana de Santa Cecília. Mais tarde veio a fundação da Liga Eleitoral Católica e minha eleição como o deputado mais moço e mais votado do Brasil.

Precisamente quando eu estava nesse píncaro, exercendo uma liderança enorme sobre todo o movimento católico do País, as coisas chegaram a um tal ponto que, sendo ainda muito moço e convidado continuamente para fazer conferências, discursos por todos os recantos do Brasil, o público católico tomou um tal entusiasmo e uma tal preferência por mim, que fazia coisas que me deixavam pasmo.

Por exemplo, eu não era muito pontual e às vezes chegava atrasado até para a conferência que devia fazer. Mas o público era benévolo, e não só perdoava o meu atraso, mas até me recebia com manifestações de agrado e entusiasmo muito grandes. Quando eu entrava, às vezes vinha correndo do automóvel para o palco para compensar meu atraso. Pouco antes de chegar ao palco parava de correr e andava com passo normal. Quando eu entrava, o auditório inteiro se levantava para bater palmas.

Discurso em homenagem a São José de Anchieta

Entretanto, comecei a notar uma coisa que me encheu de pasmo. No próprio meio católico começaram a aparecer maledicências a meu respeito, como, por exemplo, que eu estava fazendo um número insuficiente de discursos na Constituinte, quando deveria falar mais; que eu tratava os deputados anticatólicos com uma dureza que chegava aos limites da brutalidade, e outras coisas assim.

Ora, o Cardeal Leme, Arcebispo do Rio de Janeiro, mandou um recado aos deputados católicos dizendo esperar que não fizéssemos discursos, de maneira a não comprometer a combinação feita por ele com todos os deputados da Constituinte, para aprovar tudo quanto a Igreja queria. Segundo ele, já estava todo o jogo pronto e não havia dúvida a esse respeito. Por causa disso ficássemos quietos.

Assim, eu não podia fazer outra coisa senão ficar quieto. Se fosse falar, cometeria uma irreverência contra a Igreja que mandava isso. Então, só discursava quando surgia uma ocasião boa na qual eu podia justificar ser indispensável falar.

Houve, por exemplo, um centenário de Anchieta e eu aleguei ser preciso um deputado católico falar, porque Anchieta era uma grande personalidade do mundo católico, e que eu, deputado por São Paulo, ex-aluno dos Jesuítas – Anchieta era jesuíta –, tinha o direito de falar. Dom Leme concordou e fiz um discurso.

Com voz tonitruante, redarguiu um deputado comunista

Em outra ocasião, estava falando na tribuna um deputado comunista chamado Zoroastro de Gouveia. Em certo momento ele deu a entender mais ou menos esta ideia: o católico não podia ser um bom patriota porque dependia do papa, o qual para os católicos é uma potência estrangeira e, portanto, todo o católico estava disposto a trair o Brasil em favor da Igreja.

Eu me levantei e, da primeira fileira que ficava a dois passos da tribuna, falei com uma voz verdadeiramente tonitruante:

— Senhor deputado, venho lavrar o meu protesto mais categórico e indignado contra o insulto infame que Vossa Excelência acaba de atirar em rosto dos católicos…

E tonitruei contra ele. A Câmara estava acabando o trabalho do dia, os deputados cochilavam e alguns cochichavam. Quando saiu aquele barulho todos se levantaram:

— O que é isso aí?

O Zoroastro de Gouveia ficou pasmo com aquilo tudo, sem saber como responder. Então me disse alguma coisa qualquer, eu mais uma vez protestei e ele saiu da tribuna.

Esse episódio deixou tal lembrança em quem o presenciou que, uns trinta anos depois, precisei ir à Câmara dos Deputados, em Brasília, para levar um protesto de proprietários rurais contra a Reforma Agrária que já naquele tempo se queria fazer. Ali indicaram que entregássemos o protesto ao secretário da Câmara para ele encaminhá-lo ao Governo.

Chegando lá, cumprimentamo-nos e entregamos-lhe aquele protesto. Ele começou a tomar notas, trabalhos de burocrata, e em certo momento fitou-me. Pensei: “Já estou vendo o que está na cabeça desse homem…” Ele parou o serviço e me perguntou:

— Diga-me uma coisa, o senhor já foi deputado?

— Já.

— Não foi o senhor que passou aquela descompostura no deputado Zoroastro de Gouveia?

Trinta anos depois o homem ainda estava lembrado da descompostura! Mas, apesar disso, a difamação circulava.

Uma freira procurou denegri-lo

Eu notava também – e isso me impressionava mais – que, da parte dos católicos e de alguns daqueles a quem tinha em conta de bons católicos, vinha uma indizível série de pequenas indiretas contra mim, na minha presença, que indicavam haver uma conspirata qualquer para me afastar, pôr-me de lado, e eu não sabia a razão.

Uma coisa característica foi isto: durante esse tempo, criou-se em São Paulo a Universidade Católica e fui nomeado professor de História da Civilização de duas faculdades dessa universidade. Certo dia, eu estava lecionando e uma freira veio me pedir licença, dizendo que estava ali presente uma compatriota dela, belga, a qual tinha ouvido falar muito das minhas aulas e queria assistir a uma delas.

Eu disse:

— Pois não, à vontade. Arranjem uma cadeira mais confortável para a freira poder assistir à aula, e eu tenho todo o gosto de lecionar diante dela.

Quando terminou a aula, pensei que ela estaria de pé na porta para me cumprimentar, porque seria o normal, uma vez que eu lhe dera licença de assistir à minha aula. Mas ela tinha sumido.

Algum tempo depois, encontrei a freira que fizera o pedido e perguntei:

— O que aquela freira belga achou da minha aula?

— Ah, ela fez um comentário muito elogioso.

Pareceu-me esquisito que ela não fizesse o comentário elogioso para mim, mas fosse fazê-lo para a outra. Pensei: “Aqui tem ronha…”

— Ah, sim, está bem. E o que ela comentou? – perguntei.

— Ela disse que o senhor é um professor tão claro que, segundo o parecer dela, está mal empregado numa universidade, e seria muito melhor que o senhor fosse utilizado numa escola para débeis mentais porque, sendo claro como o senhor é, até esses conseguiriam entendê-lo.

Ou seja, o senhor ficaria melhor empregado lecionando para uma escola de bobos. Ora, isso não é elogio, mas sim denegrir um professor, e de um modo muito esquisito, porque não é degradar por um defeito, mas por uma qualidade. Quer dizer, a qualidade é tão grande que até merece ser degradado.

Discussões vivíssimas com católicos de ideias revolucionárias

Comecei a notar também que, fazendo parte do Movimento Católico, começava a se formar uma ala de gente que professava uma doutrina inteiramente diferente da Doutrina tradicional da Igreja.

Essas pessoas achavam, por exemplo, que até então a Igreja tinha feito muito mal em proibir danças e a ida a lugares suspeitos, porque isso fazia com que os bons, separando-se dos maus, nunca tivessem oportunidade de convertê-los. Então o mundo ficava rachado em dois: os bons e os maus. O que os bons deviam fazer era misturar-se completamente com os maus e ir até aos lugares de perdição, porque ali, se tivessem comungado de manhã, eles levariam “o Cristo” – não diziam “Nosso Senhor Jesus Cristo”. “O Cristo” presente neles haveria de converter essas pessoas.

De maneira que, segundo essa concepção, tudo deveria mudar. Os católicos precisavam se modernizar, tornar-se gente muito capaz de coisas engraçadas, pilhérias, etc. As moças deveriam fazer concessões em matéria de trajes, ler revistas inteiramente mundanas.

Integrantes dessa corrente fizeram reuniões comigo e tivemos algumas discussões vivíssimas a esse respeito. Notei que a corrente estava imbuída de ideias da Revolução Francesa.

Certa noite, eu estava na sede do “Legionário”, semanário católico do qual era o diretor. O andar térreo do prédio era todo ocupado pelas dependências do jornal. No piso superior, havia um salão grande que tomava o andar inteiro e servia de sala de conferências ou de teatro. Eu estava embaixo, trabalhando com outros nos preparativos do próximo número do “Legionário”, e notei que essa ala nova estava fazendo uma festa no salão de cima. De onde me encontrava podia ouvir as músicas que cantavam e alguma coisa dos discursos que faziam. Era tudo ao revés do que somos e defendemos.

Houve um menino que, numa hora muito difícil, clamou a Nossa Senhora

Em certo momento, um deles desceu e me disse o seguinte:

— Plinio, eu vim falar com você uma coisa muito séria.

Pensei: “Como pode ser séria, se você não é sério?”

— Mas o que é? – perguntei.

— Você note a diferença entre os dois andares. Você aqui embaixo e os seus jovens do “Legionário” representam a Igreja antiga, séria, que reza, trabalha, luta contra o adversário. Nós, em cima, representamos a Igreja nova, que ri, dança, se diverte, vai para a praia, para a piscina, vai por toda parte levando “o Cristo”. Mas uma coisa eu queria avisar a você: está feita uma combinação de mudar completamente a Igreja, de fazer com que a Igreja antiga cesse de existir, e dentro da casca dessa Igreja antiga apareça uma Igreja nova que somos nós. Agora, qual é o seu futuro? Se você aderir à Igreja nova, temos muita força política e não há cargo político a que não elevemos você. Mas se você continuar nessa situação em que está, aos poucos a Igreja vai passando completamente para o outro lado, você vai ficar só e completamente esmagado, o seu futuro acabou. Você vai acabar por ser um desconhecido.

Olhei para ele, e disse:

— Fulano – não quero revelar o nome dele –, eu prefiro tudo a vender-me. E você saiba que ainda que eu deva ser o último dos homens, serei o último dos soldados da Igreja tradicional, mas ela nunca morrerá. Afirmar que serei o último dos soldados é um modo de dizer, porque depois de mim virão outros que pensarão como eu, mas a Igreja não morre.

— Bem, você foi avisado. Depois não se queixe…

— Eu só me queixaria se soubesse que Deus vai me abandonar na luta. Mas isso nunca acontecerá, porque tenho confiança n’Ele e em Nossa Senhora. Poderá suceder que eu seja derrotado; porém outros virão e vencerão, mas não abandono a minha posição.

Nunca mais nos falamos. Realmente, ele foi alçado aos mais altos graus. Eu, a esses graus não subi. Eu sou Plinio Corrêa de Oliveira.

Os anos escoaram e até aqui chegamos. Durante esse período, houve perseguições de todo tamanho contra minha Obra, estrondos publicitários aos quais temos respondido na ponta da lança continuamente. O fato concreto é que nunca ninguém conseguiu vencer-nos, crescemos cada vez mais e jamais perdemos a confiança. Isso porque houve um menino que, numa hora muito dura de sua existência, recebeu uma graça e clamou a Nossa Senhora, dizendo: “Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve!”

Rezando o Rosário e comungando todos os dias, confiando na Santíssima Virgem como Mãe e Rainha de Misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, Medianeira universal de todas as graças junto a seu Divino Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, nós temos resistido e resistiremos; e com a ajuda d’Ela levaremos a luta até à vitória!             v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/2/1995)
Revista Dr Plinio 266 (Maio de 2020)

 

Glória de fogo na História da Igreja

No tempo do Império Romano, Santo Atanásio combatia os arianos com muito vigor. Mas, a certa altura, o mundo inteiro tornou-se ariano, como que da noite para o dia, e esse Santo Patriarca de Alexandria quase ficou sozinho nessa luta, chegando a ser tão perseguido que, para evitar a morte, não teve outro remédio senão entrar na sepultura dos pais e ali morar escondido.

Entretanto, ele lutou contra tudo e contra todos até que o Concílio de Niceia definiu a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, a Maternidade Divina de Nossa Senhora.

Santo Atanásio pode ser chamado a coluna da Igreja. Uma coluna qualquer um terremoto derruba. Porém, nada derrubou Santo Atanásio! Ele tinha a graça divina que o ajudou. A muitos Deus oferece a graça, mas nem todos correspondem. A este grande Doutor da Igreja, pelo contrário, Deus a ofereceu e ele correspondeu generosamente. O nome dele ficou com uma espécie de glória de fogo na História da Igreja.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/10/1985)

Revista Dr Plinio 266

Inteira e filial confiança em Nossa Senhora

Ó  Maria Santíssima, que nunca negais acolher um pecador, dai-nos a graça de compreender que junto a Vós encontraremos o mais seguro e suave refúgio.

Suplicamos-Vos, ó Mãe, que do alto do Céu desçam sobre vossos filhos – transpondo suave e vitoriosamente camadas espessas de pecado – vossas bênçãos maternais.

Como os discípulos de Emaús ao Divino Redentor, nós Vos pedimos que essas bênçãos fiquem conosco, porque se faz noite sobre o mundo. A cada instante, a cada angústia e necessidade, ajudem-nos elas a manter a mais inteira e filial confiança em Vós.

Mãe e Senhora nossa, nesta emergência, realizai por nós tudo o que de solicitude, desvelo, penetração psicológica e misericórdia fazeis aos filhos que Vos pedem com verdadeira confiança.

Ó Mãe, nós Vos amamos, em Vós cremos e esperamos. Imploramos o vosso perdão pelos que não creem, não esperam e não Vos amam. Amém

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Composta em abril de 1980)
Revista Dr Plinio 266 (Maio de 2020)

A arte de governar

Para bem governar é necessário discernir a ação da graça conjugada com os fatores naturais do povo e do lugar, favorecendo a prática da virtude e combatendo o mal de todos os modos.

 

Ao analisarmos o Brasil vemos que, ainda em nossos dias, ele tem na maior parte do seu território uma expansão demográfica desproporcionada com a área de habitação, ou seja, uma área imensa que a população tem certa dificuldade de preencher. De maneira que se estabelecem núcleos de população aqui, lá e acolá, espalhados de tal maneira que o intercâmbio em muitas partes do Brasil ainda é difícil.

Famílias de almas levadas à harmonia e afinidade

Essa dificuldade faz com que haja isolamentos e tendência a formar zonas com mentalidades e características distintas, constituindo um país com as variedades mais numerosas, entretanto com certa harmonia que a índole brasileira põe nas coisas, pela qual os Estados do Nordeste, por exemplo, constituem uma espécie de sociedade com talento e modo de encarar a vida peculiares, uma filosofia própria, em íntima conexão com o panorama, com as possibilidades do local, os recursos materiais que apresentam, mantendo uma coesão íntima.

Para mim, o Nordeste acaba no limite entre a Bahia e Minas Gerais. Dois Estados tão diferentes quanto possível, entretanto suas fronteiras não dão lugar a entrechoque. Pode ter havido arranhõezinhos, coceiras, mais nada. Por miscigenação, mas também pelo desejo de uma vida harmoniosa acima de tudo, arranja-se um jeito de aparecer um tipo humano abaianado na fronteira entre ambos os Estados, que é mineiro, mas no qual está presente a Bahia. E que tem, portanto, certos charmes, certo jeito, certos predicados da Bahia que são únicos.

Há uma espécie de permeação das fronteiras, do baiano amineirado e do mineiro abaianado que não se fundem inteiramente, mas tudo isso convive dentro de uma sobra de terras, e com uma grande vontade de não brigar. Não é apenas dizer que esses elementos intermediários evitam a briga. Mais ainda: essa briga nem se esboça nem é um desejo.

O baiano de Salvador já nem pensa em Minas, assim como o belo-horizontino nem cogita na Bahia. Porém, há de fato uma espécie de permeação que faz com que o espírito, a inteligência, o talento, a graça formem quase uma nação, mas sem vontade de ser uma nação, não quer separar-se, nem se preocupa em preservar-se; nasce como uma planta no campo, sem instinto de conservação, que se esparrama quanto pode e quando a ceifam ela não chora.

O Maranhão ainda pertence ao Nordeste, mas a meu ver o Pará é uma zona de encontro da Amazônia com o Nordeste.

Depois, abaixo de Minas, apesar de todas as diferenças, eu reputo que São Paulo e Rio formam culturalmente um só bloco, indiscutivelmente muito diferenciado, mas que de algum modo se prolonga até o Paraná, separado dos gaúchos por Santa Catarina, que constitui uma cortina com características próprias que tem e não tem muito prolongamento na zona alemã do Rio Grande do Sul.

Em todos esses Estados foram se formando famílias de almas, levadas a uma espécie de harmonia e de afinidade que tem sua relação com o que aconteceu no lado hispano da América do Sul.

Formação de regionalismos possantes na Europa

Enquanto a Espanha metropolitana é cheia de heterogeneidade, vemos que a “Espanha” sul-americana tem muito menos oposições entre país e país, do que, por exemplo, na zona norte da Espanha entre duas ou três faixas de populações existentes ali. Contudo, não há essa homogeneidade brasileira. Aqui somos irmãos, ali são primos muito achegados, mas primos.

Entretanto, de um lado e de outro dessa linha divisória entre hispano e luso houve o mesmo fenômeno, pois também Portugal é muito mais diferenciado dentro de si do que o Brasil. Já a Espanha é muitíssimo mais diferenciada em seu interior do que a América espanhola. Nesta, porém, veem-se também as mesmas sobras de espaço e a formação das mesmas “ilhas” ou “arquipélagos” de regionalismos que começaram a florescer e que teriam dado, cada qual, algo bem original, interessante, se não fossem certas circunstâncias que descreverei daqui a pouco.

Para compreendermos bem a energia desse fenômeno, que a meu ver fica no fundo de uma descrição do Brasil, antes de voltar a esta eu queria considerar um fenômeno análogo curioso.

As invasões dos bárbaros na Europa representaram qualquer coisa assim. O Império Romano era muito pouco numeroso para povoar as vastidões que conquistara. Entraram por cima os bárbaros e quebraram o Império Romano. Depois disso, cansaço geral, zonas vastas entre uns e outros povos e a formação de regionalismos possantes.

O absolutismo real quis acabar com os regionalismos

Mas não havia nenhuma força empenhada em abafar esses regionalismos, nada colaborava para estancá-los. Daí veio a Europa com suas demarcações, suas diferenças, suas riquezas. Mesmo assim, a partir da Revolução começou a trama para homogeneizar artificialmente a Europa.

Ninguém sabe o que teria sido o Velho Continente se não fosse o absolutismo real que, de um jeito ou de outro, tomou conta de todos os países europeus. Alguém objetará: “Na Alemanha, não.” Devagar… A Prússia foi um foco de absolutismo medonho nas próprias fronteiras, e a Casa d’Áustria, em seus próprios limites, constituiu Estados absolutistas sem regionalismos. De maneira que o mundo alemão era isso também: Baviera, Saxe, Württemberg assim fizeram nos seus âmbitos internos.

Os outros Estados não realizaram porque não podiam, e era o que havia de mais sadio na Alemanha, uma espécie de magma de quinhentos ou seiscentos pequenos príncipes soberanos, senhores de uma aldeia e metade da ponte que dava para a aldeia vizinha…, mas soberanos! Mandando delegações falar com o rei da França, discutir com o imperador, brigar com o rei da Prússia, etc., com peso.

Aquilo que houve de mais regional e sadio no continente europeu foi a Europa antes do Renascimento. Um pouco os Países Baixos, o antigo reino de Lotário, feito de cidades livres, feudos e pequenos reinos, e assim ficou até o fim, com um regionalismo muito marcado.

No período do Brasil–colônia trabalhou-se para a centralização

No Brasil, a formação de blocos isolados teria dado, “mutatis mutandis”, regionalismos contra os quais também houve o intuito de liquidar. Portugal fundou aqui as Capitanias, as quais deram em fracasso porque a nobreza a quem foram concedidas desejava viver em Lisboa. Já não era a nobreza feudal, mas a dos tempos modernos, do século XVI, que queria fazer navegações fabulosas, porém não se estabelecia nos lugares por onde navegava. Em geral, os nobres voltavam a Portugal, não pediam para serem vice-reis vitalícios e hereditários em algum lugar que eles descobrissem, nem o rei permitia. A tendência do monarca era de fazer daqueles Estados todos uma monarquia absoluta, unitária, com cada conquista portuguesa funcionando à maneira de província.

Tomemos, por exemplo, Goa, Damão, Diu, enclaves portugueses na Índia. Para a ótica portuguesa absolutista são províncias. O rei enviava um governador para Goa como mandava para Beira. Também em Moçambique e Angola foi assim. Dessa maneira o regionalismo não se desenvolve, porque enquanto não houver elites regionais não há regionalismo. E este sistema não era inteiramente impeditivo, mas criava largos obstáculos à formação de elites regionais.

O Brasil teve um governo geral, depois foi dividido em dois governos gerais, e mais tarde voltou a ter um único governo geral que, por fim, transformou-se em vice-reinado. Tudo isso mandado fazer sucessivamente por Portugal, a partir do Paço de Belém. As Capitanias foram lentamente absorvidas, enquanto o mesmo povo, em Lisboa, ia “comendo” os regionalismos dentro do próprio Portugal.

Então, no período do Brasil-colônia tivemos um primeiro trabalho para centralizar, ao invés de estimular os regionalismos que, apesar de tudo isso, de algum modo foram se formando a ponto de nos ter sido possível descrever as diferenças entre os diversos Estados brasileiros. Mas essas diferenças existiam à maneira de laivos que não tomaram a força necessária.

Analisemos, agora, como estavam esses laivos quando o Brasil foi declarado independente.

A nobreza da terra

Proclamado o Império, o próprio fato de o Brasil ser monarquia fez com que as partes mais conservadoras, as elites mais marcadas, nascidas do solo muito mais do que vindas de Portugal, iam formando a tal “nobreza da terra”, que se distinguia, mas não se separava da nobreza do reino. Esta era constituída pelos nobres vindos de Portugal, às vezes membros pobres das famílias da nobreza, que vinham para o Brasil e tinham foro nobiliárquico, com todos os privilégios dessa condição. A nobreza da terra não descendia dos nobres do reino, mas enobrecia pelo fato de, durante algum tempo, ter a direção de um desses blocos sociais. Esta, entretanto, olhava muito mais para o Rio de Janeiro, onde estava o trono imperial. E neste sentido a monarquia entrou como um fator de centralização.

Cito dois casos característicos: Pernambuco e Bahia. Cada qual constitui um polo e, se não fosse a monarquia, teriam levado uma vida muito mais centralizada em si mesmos e, portanto, mais regional, cultural e psicologicamente autônoma.

A existência de uma corte no Rio de Janeiro fazia com que todas essas elites mandassem seus melhores homens, suas melhores inteligências para luzir ali, e as damas mais elegantes para frequentarem a corte, considerando-se província e caipirada em comparação com o modelo que viam nascer na capital. Este foi um fator nocivo para a Contra-Revolução.

Sentido descentralizador das monarquias medievais

As monarquias medievais tinham um sentido descentralizador muito forte. Segundo a concepção daquela época, quando um rei possuía vários filhos era preciso dar um grande feudo para cada um, desmembrado das próprias terras do monarca. Assim, à medida que a dinastia ia mudando, o país se multiplicava em novos feudos, porque ficava feio um príncipe ser como é hoje, por exemplo, o Duque de York, que tem tanto a ver com York quanto qualquer inglês que esteja palmilhando uma rua de Londres. Quer dizer, um título meramente verbal, não existe na prática um Duque de York.

Na monarquia medieval, não. O nobre ia para um determinado lugar a fim de abrir ali um foco de vida, mais ou menos como na Igreja, até trinta ou quarenta anos atrás, quando se dividia uma diocese e se nomeava um bispo para a parte da que se tornara uma nova diocese, a qual passava a constituir novo foco de vida religiosa.

A partir da Revolução, todas as monarquias foram centralizadoras. A menos centralizadora foi a austríaca, mas assim mesmo muito centralizadora em comparação com as medievais.

É a regra da Revolução, visando por toda parte resultados como estes: na Europa as grandes cidades e as regiões homogeneizadas. Na América do Sul, cortar a formação das elites regionais e dos regionalismos, para esses irem morrendo aos poucos, com vistas a uma república universal.

O processo pelo qual todas as nações europeias sofreram uma espécie de evanescência das suas fronteiras internas e constituíram blocos coesos e anônimos, como quadradinhos de açúcar, levou ao Mercado Comum Europeu. É o desfecho.

Poder-se-ia levantar uma objeção: há no que estou dizendo uma concepção tão apaixonada e lírica do regionalismo, que se pergunta se isso não conduz, de algum modo, para a autogestão. Afinal de contas, qual seria a evolução bem feita da Idade Média?

Evidentemente, não é a transformação em corpúsculos inviáveis. Seria uma caricatura, onde o presidente da cooperativa faz o papel de marquês. Se assim fosse, estaria tudo estropiado.

A meu ver, se considerarmos os reis santos e direitos e estudarmos as tendências dos reinos deles, compreenderemos o que era o espírito católico que germinava ali, e como essa germinação foi truncada.

Sadio regionalismo

Afinal de contas, o que é o sadio regionalismo e a partir de que momento uma unidade se plurifica? Até que ponto essa plurificação é exagerada e deve voltar ao “unum”? Em última análise, qual é o futuro da regionalização? Ela conduz a quê?

Assim como a graça produz entre a personalidade de cada um de nós uma afinidade em função de uma vocação comum, e por mais que essas personalidades sejam afins, são e devem ser distintas, ela também age nas nações e regiões, determinando movimentos diversos que implicam na forma da sociedade estruturar-se, organizar-se e caminhar para a sua própria perfeição, o que, por sua vez, é o reflexo da vida espiritual da sociedade.

O feitio da santidade da nação determina a forma e o grau de plurificação, de maneira a estabelecer o equilíbrio entre as tendências centrípetas e centrífugas que, vistas não como antagônicas, mas complementares, constituem a harmonia.

Desse modo, sempre haveria a partir do regionalismo e do feudalismo uma linha de progresso que não seria centrífugo, nem uma traição à unidade, mas uma multiplicidade que fosse a plena frutificação da unidade, tornada mais forte, e um estilo de imbricamento que dependeria da forma de virtude, do matiz de vida espiritual e de santidade para que cada povo fosse chamado.

Com efeito, ponham a fidelidade plena à graça e o problema se resolve. Entretanto, não se soluciona apenas pela fidelidade à graça. É preciso haver uma arte de governar por onde quem governa perceba qual é o ponto de chegada, como se conjugam a graça e a natureza em determinado lugar, e como a graça está atuando ali, para discernir profeticamente, com clareza, os próximos passos. Por certo, um futuro que nem sempre se vê como será, mas para o qual a boa dinastia ou a boa sucessão de governos de elite tendem constantemente. Mais do que qualquer outra coisa, governar é ter essa ordem e esse equilíbrio em cena.

Então nós compreendemos que a arte de governar se faz estimulando o movimento uno da graça e da natureza no lugar governado, de maneira a estimular a prática das virtudes pela correspondência à graça que irriga a natureza, e fazendo com que aquilo caminhe por um dinamismo próprio. Isto é ser conservador e, ao mesmo tempo, promover o progresso, no melhor sentido da palavra.

Contudo, o governo comporta outra coisa: a arte de corrigir. Porque não se trata de uma federação de Anjos, mas de gente continuamente tendente a pecar, a errar. Portanto, a arte de governar deve entrar em luta contra o mal, percebê-lo, ver para onde ele caminha, esmagá-lo; e quando ele se tornou tão forte, por falta de virtude dos cidadãos, que não é possível expulsá-lo, conduzir contra ele uma luta na qual, se não se puder combatê-lo de frente, convive-se com ele debilitando-o, criando-lhe condições opostas, “politicando” contra ele, mas procurando liquidá-lo de todos os modos.

Desses dois elementos se faz o caminho histórico de um povo, e ele toma a fisionomia desejada pela Providência.

O Brasil ideal

Assim, quem esteja governando deve tender continuamente, na medida do possível, para um ponto ideal, e para isso precisa conhecer muito bem esse ponto, embora ele só se realize esporadicamente na História. Mas é bom que esse ponto ideal seja uma meta difusa na alma dos povos, com vistas a fazê-los tender de algum modo para isso. Em outros termos, essa ordem ideal, que existe habitualmente apenas de um modo incompleto e irregular, precisa ser conhecida para que os bons tendam para lá.

Há um plano de Deus que resulta de uma certa situação natural e de um certo “equipamento” sobrenatural. Esses dois fatores se encontrando têm um dinamismo próprio que caminha numa certa direção. O segredo é conhecer o mecanismo interno desse dinamismo e ajudá-lo estimulando, protegendo e corrigindo eventuais desvios, não o dinamismo em si, porque este é bom.

Por isso, ao tratar do Brasil deve-se pensar num Brasil ideal. Esse Brasil ideal não se faz lendo nas bibliotecas europeias, mas imaginando, nesses vários esboços de alma que o Brasil teve, como seria o sopro da graça e a perfeição do local, para depois tentar imaginar, com alguma probabilidade, o que poderia ser, nesse Brasil, a harmonia entre a unidade e a variedade, o que favorecer e o que combater, qual é o contra-Brasil atrelado ao Brasil, o “Brasil velho” acoplado ao “Brasil novo” – no sentido espiritual que dá São Paulo a respeito do homem velho e do homem novo (cf. Ef 4, 22-24) –, e como fazer o incremento do Brasil na ordem temporal como fruto da conjugação desta com a ordem espiritual.

Então, considerando assim esses vários Brasis, vai-se elaborando uma escola de pensar, de viver, de fazer o bem, de combater o mal, uma escola de rezar.    v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 19/6/1987)
Revista Dr Plinio 265 (Abril de 2020)

 

 

Errata: Na nota da página 31 do n. 264, no lugar de “Edmond Rostand (*1868 – †1918)” leia-se “Alexandre Dumas (*1802 – †1870)”.

 

A Igreja refulgirá com esplendor

A Igreja foi profanada de maneira a estampar em sua face uma fraqueza e uma indignidade que ela não tem, tornando-se sujeita a uma forma de humilhação inenarrável. Logo, deve vir uma glorificação, não propriamente maior do que a Ressurreição ou Ascensão, porque a Igreja não morre, mas a Esposa Mística de Cristo refulgirá com um esplendor, uma maravilha que esteja na proporção da humilhação sofrida.

 

Páscoa é uma palavra que significa passagem. Quando se fala da Santa Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, refere-se à sua Santa Passagem.

Festa de triunfo

Passagem de quê? Aquele fato extraordinário miraculoso, único na História, pelo qual Nosso Senhor Jesus Cristo morto pelos seus assassinos, depois de ter passado três dias na sepultura, ressuscitou-Se a Si próprio, um Anjo abriu sua sepultura e Ele apareceu resplandecente em vários lugares na glória de sua Ressurreição.

Jesus veio à Terra para uma luta, uma oblação e uma vitória. A sua luta e a sua oblação tinham que terminar numa vitória. A Páscoa é esta passagem d’Ele do estado de morto para vivo; de morto que se auto-ressuscita. É isto que não tem precedente na História. Já houvera pessoas que ressuscitaram um morto. Ele mesmo ressuscitou o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo e Lázaro, mas um morto que ressuscita a si mesmo só pode ser Deus. Ao se auto-ressuscitar, Ele derrota magnificamente todos os seus adversários. Mais: é Deus que vence o demônio, a verdade que vence o erro, a virtude que vence o crime, a ordem que vence a desordem, a luz que vence as trevas. A Páscoa é, pois, fundamentalmente uma festa de triunfo.

Por causa disso as luzes da Páscoa são esplêndidas, a alegria é de vitória, um desses gáudios irradiantes e comunicativos em que as almas têm vontade de proclamar. É uma coisa como o Sol em pleno meio-dia. É assim que se pode interpretar a alegria da Páscoa.

Seriedade com que se celebrava a Liturgia da Semana Santa na pequena São Paulo

Eu me lembro bem do contraste que havia em todo o ambiente da cidade entre a Páscoa e os dias anteriores da Semana Santa.

Na pequena São Paulo de então, em todas as igrejas se celebrava a liturgia da Semana Santa com uma seriedade que hoje em dia, infelizmente, não se tem mais. A partir de Quarta-feira Santa começava-se a rezar o chamado Ofício de Trevas. Colocavam dois grupos de clérigos, um em frente ao outro, no próprio presbitério do altar-mor, onde começavam a recitar salmos alusivos à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. O fundo do presbitério estava todo coberto por um grande pano roxo, que é a cor da dor, da tristeza. Assim, a igreja, habitualmente cheia de cores alegres, apresentava um fundo de tristeza. Uma peça triangular cheia de velas cobria o altar de cima a baixo, terminando com uma vela central. À medida que o ofício ia se desenvolvendo, em períodos marcados levantava-se um acólito, apagava uma vela e voltava ao seu lugar. Quando o ofício estava no fim, era o sinal de que a luz do mundo tinha se apagado.

Todo o recinto sagrado ficava envolto em uma atmosfera de recolhimento e tristeza, com todas as luzes apagadas. Alguém levava aquela última vela para trás do altar, onde ela permanecia acesa, enquanto o restante da igreja ficava na escuridão. Era o sinal de que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha cessado de brilhar no mundo e que sua Morte, já prefigurada naquele dia, aconteceria em breve.

Na Quinta-feira Santa havia uma cerimônia muito bonita, que era o desnudamento dos altares.

Após a Missa, que ainda tinha algo de festivo no meio de tanta dor, pois era a alegria da última Ceia antes da tristeza pela Paixão que se iniciaria. Guardavam o Santíssimo Sacramento numa urna revestida de seda branca e bordada com um cordeiro dourado, colocada no alto de um altar, retiravam dos outros altares todos os ornatos, velas, vasos, toalhas, etc., e a igreja apresentava um ar de desolação e tristeza.

Na Sexta-feira Santa já não havia Missa. Era celebrada o que se chamava “Missa dos pré-santificados”, na qual não existia a Consagração. O padre tirava o Santíssimo Sacramento daquela urna, e apenas se consumiam as sagradas Espécies que na véspera tinham sido consagradas. Depois não havia mais Hóstias na igreja. Guardavam em algum lugar as que eram destinadas aos moribundos, mas sem objeto de culto. O tabernáculo permanecia aberto para indicar que o Dono da casa não estava mais presente.

Os sinos não tocavam mais, os fiéis vestidos de preto formavam longas filas, passando diante de um crucifixo e osculando-o. A cidade toda ficava imersa numa espécie de silêncio respeitoso, refletindo a tristeza enorme da humanidade porque Aquele que era o Sal da terra e a Luz do mundo, o Salvador, não se encontrava mais presente.

Na Páscoa, a cidade passava da tristeza para uma alegria inocente

A partir do meio-dia do sábado, prenunciavam-se as alegrias da Ressurreição. Já pela manhã as crianças penduravam nos postes figuras representando Judas, para serem espancadas. Nas casas começavam a preparar os piqueniques e os almoços festivos do dia seguinte.

Chegada a Páscoa da Ressurreição, as pessoas punham trajes alegres, cumprimentavam-se efusivamente, os sinos da cidade repicavam, pois Jesus Cristo ressuscitou, o demônio foi esmagado e Nossa Senhora está inundada de felicidade!

Pelo gosto de sondar esses ambientes, lembro-me de que certa vez fiz algo de que me alegro: subi ao ponto mais alto de São Paulo naquele tempo, que era a torre da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, para dali contemplar a cidade no momento em que se comemorava a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu queria ver se no ar da cidade se sentia a alegria da Páscoa, e de fato senti. Quando, aos meus pés, os carrilhões começaram a tocar e depois na cidade de São Paulo, sem arranha-céus ainda, de todas as distâncias chegavam os ecos dos sinos que bimbalhavam naquela quantidade enorme de torres de igrejas por todos os lados, percebia-se a transformação da cidade, que passava da tristeza para uma alegria inocente e triunfal. Eu saí de lá triunfante, com a ideia de que tinha participado com vitória Nosso Senhor calcando aos pés o demônio.

Era um júbilo, um triunfo pascal com grandeza bíblica, pois o verdadeiro espírito da Páscoa tem grandeza bíblica, desde que se preste atenção e o contemple como os personagens bíblicos olhariam para esse acontecimento.

Grandeza do fato de Nosso Senhor ressuscitado aparecer a sua Mãe Santíssima

Certa ocasião, durante uma Missa, eu estava pensando como seria, dada a grandeza intrínseca da Ressurreição, o “modus faciendi” adotado por Deus para que ela tivesse toda a sua majestade.

Um “modus faciendi” seria a vida voltando ao cadáver divino – no qual a união hipostática não cessou apesar da morte – de maneira que as cicatrizes se recompusessem, a respiração recomeçasse, e toda a perfeição e grandeza d’Ele fossem como que florescendo. A mais estupenda primavera da História! Quando chegasse um determinado momento, a sepultura estaria cheia de Anjos que cantariam o mais estupendo “Gloria in excelsis”, e Nosso Senhor Se levantaria como um Rei. Os Anjos removeriam a pedra e Jesus, no mesmo instante, apareceria para Nossa Senhora porque para Ele não havia distância. Eu tenho como certo que, no momento em que Jesus recobrou a vida, Ele já saiu da sepultura e apareceu a Maria Santíssima.

Outro modo seria: de repente a vida voltar ao cadáver com a plenitude inteira d’Ele, como se fosse um raio feito para viver e não para matar, mas que, encontrando obstáculos, mataria. Sua Alma entraria no Corpo e apareceria a Nossa Senhora. Portanto, uma coisa imediata.

A meu ver, a beleza do ato conteve as duas hipóteses. Pode-se imaginar algo de maior grandeza bíblica do que Deus ressuscitando-Se a Si próprio e que aparece à sua Mãe Santíssima? Em comparação com isto, o que é a entrega das tábuas da Lei, a dança de Davi diante da arca, e tudo quanto se passou no Antigo Testamento?

Grandeza semelhante pode ser contemplada na atual fase em que se encontra a Santa Igreja.

Quando alguém é submetido a uma prova de humilhação, quanto mais profunda esta tenha sido tanto mais alta será a glória que virá em reparação. Por exemplo, o julgamento e a Crucifixão constituíram uma humilhação sem nome para Nosso Senhor. Fazem “pendant”, contrapõem-se a isso a Ressurreição e a Ascensão, que são glórias também indizíveis.

O sagrado semblante da Igreja incutirá terror aos maus

Ora, nós vivemos numa época em que a Igreja está sendo humilhada além do extremo limite que se imaginava possível. Em que consiste essa humilhação? É tão horrível que se torna até desagradável a analogia que vou empregar, mas exprime bem a realidade do crime que está sendo cometido.

Os carrascos terem tomado Nosso Senhor durante os três dias da Paixão e O terem desfigurado o quanto puderam, inclusive a Face divina, não é uma coisa tão horrível quanto se eles O tivessem feito ingerir uma substância qualquer por onde Ele fizesse com sua Sagrada Face contorções ridículas e medonhas. Isto seria fazer com que partisse d’Ele um movimento que O desordenasse e causasse o seu desfiguramento. Isso seria mais terrível do que qualquer coisa, sobretudo se permanecesse à maneira de um cacoete definitivo.

Pois bem, precisamente o que se perpetrou foi obrigar a Igreja a fazer um cacoete com a própria face, sujeitando o Corpo Místico de Cristo a esta forma de humilhação inenarravelmente pior do que qualquer outra. Logo, deve vir uma glorificação, não propriamente maior do que a Ressurreição ou Ascensão porque a Igreja não morre. Mas, nesta ordem do desfigurado, a Esposa Mística de Cristo tem que refulgir com um esplendor, uma maravilha que esteja na proporção da humilhação sofrida.

Há mais: seria lógico que quando ela vencer, assim como a face da Igreja foi profanada de maneira a estampar uma fraqueza e uma indignidade que ela não tem, seu sagrado semblante meta terror nos maus e arranque gritos de admiração da humanidade!

Eu creio que Nosso Senhor, por ocasião da Ascensão, reconstituiu um “super-Tabor”. E, portanto, tudo quanto se relata de sua Transfiguração, Ele brilhou com aquilo tudo e mais ainda durante a Ascensão. Tenho a impressão de que, quanto mais Ele ia subindo, mais esplendoroso Se tornava. Seria lógico, pareceria razoável que isto fosse assim, porque há a hora da humilhação e a hora da glorificação. E é preciso que o cálice da humilhação tenha sido bebido por inteiro para depois a glória vir por inteiro também.

Assim acontece com a causa da Contra-Revolução. Esse é um fenômeno tão profundo que há dias nos quais não percebemos a glória de sermos contrarrevolucionários. Mas, de repente, vem um lampejo e sentimos por inteiro essa glória. São pequenos antegozos do esplendor que virá após a longa humilhação que devemos percorrer, para sermos dignos da grande glória quando o dia da glorificação chegar.        v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 25/12/1976, 6 e 15/4/1980)
Revista Dr Plinio 265 (Abril de 2020)

Cindindo a História de alto a baixo

Numa piedosa imagem de Nosso Senhor flagelado, chama muito a atenção a sublimidade do olhar, no qual transparece o sofrimento intenso do Divino Salvador, que medita com profundidade a respeito do significado transcendente, metafísico, sobrenatural de todas as dores pelas quais passa. O Redentor divide a História entre os que são d’Ele e os que são contra Ele.

 

Tenho a intenção de comentar uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo flagelado. Dizer dessa imagem que é bonita é muito pouco, porque mais do que isso é profundamente impressionante, e de molde a despertar muita piedade. E é enquanto tal que desejo fazer dela objeto de nossas considerações.

Significado transcendente, metafísico, sobrenatural das dores

À primeira vista, quando me foram apresentadas fotos dessa imagem, fiquei chocado porque as feridas do Corpo sagrado de Nosso Senhor Jesus Cristo estão apresentadas com um tal realismo e de modo tão brutal, que o instinto de conservação do homem clama com aquilo, tem a tendência a fugir e achar que não é arte representar um horror daqueles de um modo tão horripilante.

Esse é um primeiro impulso que deve ser dominado porque é uma ingratidão. Tal será que, tendo Nosso Senhor Jesus Cristo sofrido tudo o que padeceu por nós, não queiramos sequer olhar para o Corpo chagado d’Ele porque isso pode nos desagradar. Como um primeiro impulso se compreende, pois é uma reação quase física. Porém, haveria ingratidão em consentir nesse impulso. Além de ingratidão é uma falta de respeito sem nome!

Compreende-se, então, que o escultor tenha chegado a esculpir de modo tão terrivelmente realista essa imagem, a qual pareceu-me ser uma escultura espanhola, com aquele realismo próprio das imagens sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que deveria datar de fins do século XVIII, mais provavelmente do século XIX. Soube depois que ela se encontra no Canadá.

Consideremos, nas seguintes fotos, alguns aspectos dessa imagem.

Algumas coisas me agradam extraordinariamente nessa figura. A primeira delas que me chama mais a atenção é o olhar profundamente pensativo, meditativo. Tenho visto incontáveis crucifixos em que Nosso Senhor parece abismado – aliás, santamente – na consideração da sua própria dor, e onde o artista procura atrair a atenção para os sofrimentos do Divino Crucificado a fim de provocar compaixão. Nesses crucifixos o próprio olhar do Redentor, muito legitimamente, parece perguntar: “Pelo menos nesta dor, tu não tens pena de Mim?”

Porém, aqui eu interpreto o olhar de outra maneira. É bem verdade que a dor está presente. É o olhar de uma Pessoa que sofre intensamente, mas, por cima da dor, nota-se que há uma reflexão profunda, consternada de Quem pensa profundamente a respeito do que Lhe está acontecendo, do significado transcendente, metafísico, sobrenatural de todas as dores pelas quais Ele está passando, e que constitui propriamente uma meditação.

Nosso Senhor enquanto pedra de escândalo

É uma meditação sobre a sua própria Paixão, como Ele gostaria que nós fizéssemos e que, segundo interpreto olhando a Face sagrada, parte do mais alto ponto de consideração em que uma mente humana possa se colocar. Mas é, ao mesmo tempo, uma reflexão que vai até o mais concreto, palpável, miúdo, o mais distante da transcendência, e une tudo numa vista em comum, numa consideração global não só do que fazem contra Ele, mas também do que realizam por Ele.

De maneira que estão contemplados não apenas os homens vivos nessa ocasião, mas todos os que ao longo dos tempos meditariam esse passo da Paixão e seriam frios, indiferentes, cruéis, ou O adorariam transportados de amor e admiração na consideração da situação em que Ele está.

Tudo isso é considerado, o que me faz lembrar a palavra do Profeta Simeão sobre Ele: Pedra de escândalo que dividiria os homens para a perda e a salvação de muitos, a fim de que se revelassem as cogitações de muitos corações (cf. Lc 2, 34-35). Quer dizer, dividindo, cindindo a História de alto a baixo em dois: os que eram d’Ele e os que eram contra Ele, salvando-se uns e perdendo-se os outros. Parece-me que essas considerações altíssimas, e outras ainda, estão expressas nesse olhar, que pousa ao longe, num ponto indefinido.

Entretanto, há uma altaneria na posição d’Ele pela qual, por mais que esteja alquebrado, não está arqueado. Pelo contrário, o tronco sagrado está ereto numa posição que se poderia chamar de nobre. A própria cabeça não está caída de modo desairoso, nem erguida de maneira arrogante, mas posta com uma naturalidade digna sobre o pescoço, e elevada como um Homem que está entregue às suas mais altas cogitações.

Notem a posição lindíssima dos dois braços. Dir-se-ia tratar-se de um personagem num ato de muito protocolo, de muita etiqueta. Nas cortes, muitas vezes o modo correto de postar os braços diante de um rei ou de uma rainha é esse. Assim está Ele.

No Corpo ferido pela flagelação vemos partes da carne sagrada intumescidas, algumas foram batidas e outras arrancadas. Embora esteja cercado por gente que ria d’Ele, Jesus não olha para essas pessoas, mas as transcende. Ele está infinitamente acima de tudo isso, entregue aos seus pensamentos, à sua oração. De tal maneira que se poderia colocar, entre os muitos títulos que essa imagem mereceria, a frase: “Iesus autem orabat”, como também “Iesus autem tacebat”(1).

Três aspectos do divino olhar

Observem como o manto da irrisão, apesar de tudo, cai composto, com a parte direita meio voltada para trás, indicando por esses discretos indícios a beleza e a força moral que não O abandonaram nem mesmo nas situações mais terríveis.

Creio ser este semblante a última expressão do comovedor. É Cristo enquanto pensando, refletindo, orando durante a sua Paixão. Julgo discernir nesse olhar três aspectos. Primeiro, muita dor física que se exprime aí, seguida de muita angústia diante do sofrimento que vem. É Alguém que está em pleno tormento e sente o tormento que ainda vem. Portanto, encontra-Se no auge do horror, em que Ele ainda não sofreu tudo, e a morte que o libertará está longe. Ele já sofreu tanto que perdeu toda a força para resistir; entretanto, ainda tem que aguentar enormemente. Há, por isso, uma ansiedade, uma angústia. Mas que angústia doce, suave, sem agitação, confiante! “Isto tem uma saída. Meu Pai atenderá minha prece, e Eu chegarei até o fim. Isto tem um sentido.”

Por outro lado, vê-se a tristeza profunda, mas uma tristeza moral, como que divinamente decepcionado com aqueles que O abandonaram. Não parece que o Divino Mestre Se lembra, nessa hora, não dos miseráveis que O estão chicoteando, mas dos Apóstolos que O deixaram? Ele parece estar revendo cada Apóstolo, um por um: pensando em São Pedro, sobre quem Ele construiu a Igreja; em São João, o Apóstolo Virgem, que horas antes ainda deitara a cabeça sobre o peito d’Ele para fazer uma pergunta na intimidade; em São Bartolomeu, de quem Ele mesmo disse que era um verdadeiro israelita no qual não havia fraude e que, entretanto, O abandonou também… Ele está pensando em todos os outros. E lembrando-Se com horror do filho da perdição que O vendeu, Ele está cogitando em todos aqueles que O trairiam ao longo dos séculos.

Entretanto, Jesus está pensando também em algo que O angustia enormemente, mas é magnífico: Nossa Senhora e a dor que Ela está sofrendo.

Porém, por cima disso, parece-me ver os olhos do pensador que está meditando, fazendo a Filosofia e a Teologia daquele acontecimento central da História, que é a sua Paixão e Morte. E contemplando tudo isso Ele está orando. A meu ver é manifesto haver dentro disso uma magnífica oração.

Nosso Senhor sofreu tudo isso pelos rogos de Maria

Quando uma pessoa pensa, costuma frequentemente formar um vinco precisamente nesse lugar da fronte onde, na imagem, sobressai uma vergastada profunda. A meditação do verdadeiro homem de Deus é muitas vezes acompanhada de dor, de tristeza e de amargura, faz sangrar a alma, se não o corpo, que envelhece, encanece, se consome, mas se eleva e se santifica.

Considerem no Corpo divino a tumefação do braço esquerdo: nem tem o contorno comum de um braço, mas está todo ele bailando em torno dos ossos. E esses braços ainda vão carregar a Cruz, essas mãos ainda serão cravadas no madeiro, até que Ele morra. Esta é a imensidade de tormentos que O aguarda depois de ter sofrido tudo isso.

Ali vemos amarradas as mãos sagradas do Onipotente. É bonito que o escultor as tenha apresentado inteiramente descontraídas; não há contração nervosa, mas estão como as mãos de um rei prontas para serem osculadas. É o Rei da dor.

Por nós, que somos escravos da Santíssima Virgem, essa imagem deve ser considerada de dentro dos olhos de São Luís Grignion de Montfort. Devemos entender que se Nosso Senhor sofreu tudo isso foi pelos rogos de Maria; se esse Sangue é aplicável a nós, é pelos rogos de Nossa Senhora; se nossa presença não causa horror a Ele, mas, pelo contrário, é aceita com misericórdia, é pelos rogos de Maria.

É com Ela, por Ela e n’Ela que nós podemos nos apresentar a Nosso Senhor Jesus Cristo. Maria Santíssima é o caminho necessário, por vontade de Deus, para nos aproximarmos de seu Divino Filho e sermos, não digo dignos, mas pelo menos de algum modo proporcionados para olhar essa figura, e pedirmos por nós e pela Igreja.

Considerações sobre o escultor da imagem

Agora, uma palavra sobre o escultor. A meu ver, esse homem fez uma coisa extraordinária no seguinte sentido: muitas vezes vemos em uma obra de arte a expressão da alma do artista que a produziu. Essa é uma qualidade, pois indica o modo pelo qual a pessoa exprimiu o que aquele tema lhe produzia no espírito. Contudo, muito mais bonito é quando o artista de tal maneira se deixa identificar com o tema, que a expressão de alma dele não aparece, e sim somente o tema. Nessa escultura não se sente o artista, mas apenas Nosso Senhor Jesus Cristo.

O artista de tal maneira viveu, por assim dizer, a dor de Nosso Senhor que ele O representa e se apaga. Não se percebe qual era o estado de alma dele, a não ser na extrema inteligência, propriedade, finura e, sobretudo, na extrema piedade com que ele apresenta a matéria; de resto, ele está ausente. Isso, a meu ver, é o auge do mérito dentro da obra de arte.                v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 10/2/1976)
Revista Dr Plinio 265 (Abril de 2020)

 

1) Do latim: Jesus, porém, orava. Jesus, porém, calava.

 

Fortaleza formidável – Santo Anselmo

Santo Anselmo marcou o século XI por sua ciência, piedade e pelas lutas que travou. Olhando para a sua vida, tem-se a impressão de uma fortaleza formidável, um homem que encheu o seu tempo e cuja glória perdura por todos os séculos graças às vitórias obtidas por ele em favor da Fé.

A solidez, a força, a grandeza da Idade Média se mostram na estatura dos grandes homens que a marcaram. Com efeito, se não tivesse havido campeões como ele, a Igreja teria afundado. Portanto, a solidez não consistia em não haver luta, mas na existência de homens dispostos a combater em todos os sentidos.

É preciso estar lutando sempre, com uma energia inquebrantável, uma atividade contínua, um inteiro desprendimento de si, com os olhos postos completamente na Santíssima Virgem, para que a batalha seja levada a bom termo. Encontrando combatentes verdadeiramente dependentes de Nossa Senhora, a causa é solidíssima, vence mesmo.

Hoje, como durante o Reino de Maria, a nossa vida de luta deve ser constante. Precisamos nos compenetrar de que no dia em que não tivermos lutado, não teremos carregado a cruz. Ora, para um católico, um dia passado longe da Cruz de Cristo e de Nossa Senhora é um dia frustrado. Peçamos a Ela que nunca permita um dia assim em nossas vidas.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/4/1966)

Mediação de Maria suavemente expressa

No afresco da Mãe do Bom Conselho de Genazzano o Menino Jesus está numa grande intimidade com Nossa Senhora, mas os olhos d’Ele estão voltados para cima, enquanto os d’Ela para baixo. Ela olha para Ele, e Ele para Deus.

Entretanto, o olhar d’Ela é curiosamente bivalente. Embora Maria Santíssima contemple seu Divino Filho, também é verdade que está olhando para quem venera o quadro. Este é bem o papel da Mãe de Deus: a Medianeira que recebe nossa oração, transmite para Jesus e Ele a leva às outras Pessoas da Santíssima Trindade.

Desta maneira temos a doutrina católica sobre a Mediação de Maria suavemente expressa, sem a precisão dogmática característica da Teologia, mas com a suavidade e o subentendido próprios à arte.

É muito bonito que tanta doutrina tenha sido posta tão delicadamente nesse afresco. Sem dúvida, é mais interessante descobrir isso analisando a pintura do que se estivesse escrito embaixo: “Mediação Universal”. Porque essa sublime verdade insinuada, dada a entender de leve, sem estar afirmada de modo categórico, mas de maneira a permitir ao fiel ir descobrindo como por detrás de um aroma delicado, tem um inegável encanto. Para uma obra de arte, às vezes um certo mistério aumenta o atrativo, e nesse afresco encontramos esse mistério.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 29/6/1974)

Revista dr Plinio 265 (Abril de 2020)

“Tenho sede”

Imaginemos que um de nós estivesse acompanhando Nosso Senhor Jesus Cristo na sua Paixão, e Ele, a certa altura, pedisse um pouco de água. Levamos-Lhe um copo, o Divino Redentor bebe a água e, cheio de amor e dor, diz: “Mas, meu filho, tão pouco nesse copo?” E continua carregando a sede que por negligência não matamos. Não é verdade que isso nos marcaria até o fim da vida? Eu morreria inconsolável! Ora, isso é o que fazemos quando não Lhe damos o que Ele queria de nós.

Tomando em consideração que cada um de nós foi chamado a matar a sede do Redentor ao longo dessa Paixão atroz pela qual passa a Santa Igreja, e que essa sede nós mataríamos se oferecêssemos todo o esforço, todo o sacrifício que poderíamos fazer, quiçá se Ele nos aparecesse, diria: “Meu filho, tão pouca água nesse copo?”

Esta é uma reflexão muito apropriada para a Semana Santa. Ele tem poucos a quem pedir isto; pede a nós, e damos os copos negligentemente cheios, de qualquer água do caminho, ao invés de procurarmos uma fonte com água magnífica e levarmos uma jarra, para enchermos novamente o copo caso Ele queira beber mais.

Por exemplo: do que valem as nossas Comunhões, nosso Rosário? Se nos fossem pedidas contas, o que teríamos a dizer? E se não for suficiente? Se tal coisa que eu deveria ter dito com entusiasmo não o fiz?

Não pretendo acabrunhar ninguém com meditações muito pesadas, mas quando se aproxima a Semana Santa a ocasião é particularmente indicada para essas considerações. Aliás, a Igreja realiza cerimônias pungentes nesse período precisamente para tocar as nossas almas nesse sentido.

Por isso aconselharia o seguinte: na Sexta-Feira Santa, às três horas da tarde, considerar que Nosso Senhor está morrendo, e nesse momento, do alto da Cruz, Ele viu a vida inteira de cada um de nós e teve sede.

Quando Ele gemeu “sitio” – tenho sede –, sem dúvida padecia uma grande sede física, devido à enorme quantidade de sangue que vertera. Mas a principal era a sede de almas. Jesus teve, portanto, sede de incontáveis almas, dentre as quais estava a minha. Na medida em que correspondo ou não às graças que Ele conquistou para mim com sua Paixão, posso aumentar ou mitigar sua sede.

De maneira que cada um de nós tem o poder de atenuar o sofrimento d’Ele no alto da Cruz. Donde a importância de pensarmos: ao menos nesta hora eu vim me recolher, pôr-me diante do Santíssimo Sacramento, aos pés de uma imagem de Nossa Senhora e pedir que Ele toque minha alma, e dê vida a esses pensamentos.

Há uma canção muito piedosa a Nossa Senhora, que se costuma entoar durante a Via-Sacra, que diz em uma de suas estrofes: “Sancta Mater istud agas: Crucifixi fige plagas corde meo valide”– Santa Mãe, faze isto: fixa em meu coração, de modo efetivo, as chagas do Crucificado.

Pois bem, na Sexta-Feira Santa, às três horas da tarde, por exemplo, é o momento de dizer: “Santa Mãe, fixai as chagas do Crucificado no meu coração valide, ou seja, validamente, de fato”. E assim, não passarmos a Semana Santa com as futilidades da vida comum, mas mantermos firme no nosso espírito essa clave.

Melhor ainda seria se recitássemos os mistérios dolorosos do Rosário todos os dias nesse espírito e com esta ideia: “Em cada mistério atenuo as dores que Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu naquele tempo.” Assim, estaremos dando-Lhe um copo d’água que Ele está nos pedindo.(*)

 

Plinio Corrêa de Oliveira

* Cf. Conferência de 7/4/1990.