Senso hierárquico e contrarrevolucionário

 

Os sete Santos Fundadores Servitas propagaram uma devoção que prenunciou a da escravidão a Nossa Senhora, pregada por São Luís Grignion de Montfort. O título de “Servos” marca muito bem a diferença entre a boa piedade católica e a Revolução.

A respeito dos Sete Santos Fundadores dos Servos da Bem-aventurada Virgem Maria, cuja festa se comemora no dia 17 de fevereiro, diz Dom Guéranger1:

Aclamados por crianças nas ruas de Florença

Quando, no século XIII, o funesto cisma instigado por Frederico II2 e as sangrentas facções dividiam os povos mais civilizados da Itália, a previdente misericórdia de Deus suscitou, dentre pessoas ilustres pela santidade, sete nobres florentinos, de cuja união na caridade iria dar um memorável exemplo de amor fraterno.
No ano 33 desse século, no dia da Assunção da Bem-aventurada Virgem, rezavam eles fervorosamente na piedosa confraria “Laudesi”, a Mãe de Deus apareceu exortando-os a abraçar um gênero de vida mais santo e mais perfeito.
Tendo, pois, conversado previamente com o Bispo de Florença, estes sete homens logo disseram adeus à sua nobreza e riquezas. Eles tomaram como vestimentas hábitos vis e usados, e, por baixo destes, cilícios. Estabeleceram-se num lugar retirado fora da cidade no dia 8 de setembro, pois queriam colocar sob os auspícios de Maria Santíssima esta nova existência, no mesmo dia em que Ela, nascendo entre os homens, começava sua santíssima vida.
Deus mostrou por um milagre o quanto esta decisão lhe foi agradável. Com efeito, pouco depois os sete atravessaram Florença mendigando de porta em porta. Aconteceu que de repente as vozes das crianças, entre as quais São Felipe Benzini com apenas cinco meses, os aclamaram como servos, “servitas”, da Bem-aventurada Virgem Maria. Seria com este nome que a partir de então deveriam ser conhecidos.

 

A Virgem lhes mostra o hábito que deveriam trajar

Depois deste prodígio, o amor que eles tinham pela solidão os levou a evitar o contato com as pessoas, escolheram se retirar ao Monte Senário. Lá, entregando-se a uma vida inteiramente celeste, moravam nas cavernas. Contentando-se com água e ervas como alimento, castigavam seus corpos com vigílias e outras macerações. A Paixão de Cristo e as dores de sua aflitíssima Mãe eram o objeto de suas contínuas meditações.
Numa sexta-feira santa em que meditavam fervorosamente nessas considerações, a Bem-aventurada Virgem lhes apareceu uma segunda vez, indicou-lhes o hábito negro de que deveriam se revestir e lhes disse que seria muito do seu agrado que eles fundassem uma nova Ordem regular cuja missão seria venerar e promover sem cessar o culto das dores por Ela suportadas ao pé da Cruz do Senhor.
Na constituição desta Ordem sob o título de Servitas da Bem-aventurada Virgem, eles tinham o apoio de São Pedro mártir, ilustre dominicano, que se tornou íntimo amigo dos Santos fundadores a quem, numa visão particular, a Mãe de Deus revelou seus desígnios sobre esta fundação.
A Ordem foi aprovada pelo Soberano Pontífice Inocêncio IV.

 

Saúde espiritual, virtude, alta civilização

Nessa narração há vários fatos magníficos como índice de saúde espiritual, de virtude, de alta civilização, que ocorriam outrora, mas em nossos dias não se dão mais, o que indica a profunda putrefação na qual se encontra o mundo moderno.
Analisemos ponto por ponto. Primeiro, existia em Florença uma confraria em honra de Nossa Senhora que impedia os progressos da heresia cátara. Será que em nossos dias se fundaria uma confraria em honra da Santíssima Virgem para impedir o progresso de qualquer heresia? Onde tal confraria encontraria aceitação?
Em determinado momento, essa confraria admitiu sete membros da aristocracia. Ora, hoje em dia vemos como é árduo o apostolado junto às elites.
Certa ocasião, os sete rezavam juntos. Que coisa linda encontrar sete aristocratas orando juntos! Foi quando, Nossa Senhora lhes apareceu exortando-os a abraçar um gênero mais perfeito de vida. Eles decidiram, então, retirar-se à solidão.
Depois de algum tempo voltaram para a cidade e aconteceu algo maravilhoso pelo qual as pessoas louvavam a Deus e as crianças gritavam: “Eis os servidores de Maria!” A admiração da cidade por jovens que abandonam tudo por amor de Deus, e quando voltam são recebidos calorosamente, isso acontece hoje em dia? Vemos, assim, como tudo mudou, a fonte mesmo do bem parece estar estancada, enquanto a do mal afigura-se ter atingido o auge de sua miserável fecundidade.
O título de servidores de Maria deixou-os jubilosos e decidiram se dedicar ao culto da Mãe de Deus. Portanto, Nossa Senhora falou pela boca dos inocentes e lhes deu um nome, o qual eles aceitaram com alegria.

Em nossos dias, vasta conspiração contra a Igreja

 

Então a Santíssima Virgem lhes apareceu mais uma vez e lhes deu a missão de honrar especialmente a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e as tristezas de Maria ao pé da Cruz. É o attendite, et videte – parai e vede se há uma dor semelhante à minha – que se canta na Semana Santa.
Aos pés da Cruz, Nossa Senhora sofria em união com os padecimentos de seu Divino Filho, não só por causa dos pecados que ali estavam sendo cometidos, mas pelos pecados de todos os tempos. Portanto, o imenso pecado de apostasia – o pior de todos os séculos – Os afligiu naquele momento. E por uma reversão difícil de entendermos, os atos de reparação feitos hoje por nós consolam a Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima no Calvário, porque prevendo essa nossa reparação, Eles se consolaram. Desta maneira podemos consolá-Los e desagravá-Los pelos pecados cometidos hoje.
Assim sendo, o que significa esta expressão do Profeta Jeremias: “Ó vós todos que passais pelo caminho parai e vede se há uma dor semelhante à minha dor?” (Lm 1, 12). O que quer dizer “parai”?

Deixai os vossos negocinhos, as vossas preocupaçõezinhas, não vos preocupeis com vossos interesses pessoais.
Ele não se referia a um caminho material pelo qual talvez as pessoas passassem perto do Calvário, mas é algo imensamente maior, a estrada da História por onde transita toda a humanidade. É um convite a todas as pessoas que passam em todos os tempos.

Num mundo no qual se cometa o pior das ofensas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora como jamais se praticou, porque em nenhuma época houve uma tão vasta conspiração contra a Igreja, e que chegasse a uma tão pequena distância da vitória completa, de forma a constituir um superlativo de injúrias.
Então “parai e vede” é a missão dos servos, é a nossa missão em nosso século. Devemos ser almas reparadoras, ter na mente os sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe. Sobretudo com a ideia de estarmos consolando-Os. E se Eles tiveram consolações imensas pela reparação de tantos Santos ao longo da História, é verdade também que receberam uma gota de alívio ao terem o conhecimento de que, neste século de suprema apostasia, essas minhas palavras seriam ouvidas com boas disposições de alma.
Alguém poderia objetar que Nossa Senhora apareceu a eles, mas não a nós. Aqui se aplica o que o Divino Mestre disse a São Tomé: “Tu crestes porque viste; bem-aventurados os que creem sem terem visto” (Jo 20, 29).
Na capela de uma de nossas sedes temos uma relíquia dos sete Fundadores dos Servitas. Certa ocasião, alguém perguntou qual a razão de existir uma única relíquia e serem mencionados os sete Santos.
Foi-lhe explicado, então, que eles foram sepultados juntos, de maneira que, com o passar do tempo, seus restos mortais se confundiram. Essa confusão até do pó desses sete Santos, os quais, em certo sentido, formavam uma só alma e acabaram constituindo uma só relíquia, diz tanto sobre as almas consagradas a Nossa Senhora que mais não poderia dizer.

Prenúncio da devoção ensinada por São Luís Grignion de Montfort

Essa é uma das mais antigas Ordens especialmente fundadas para propagar a devoção a Nossa Senhora. É muito bonito trazerem o título de Servos da Bem-Aventurada Virgem Maria. Como é evidente, esse título prenuncia a devoção de São Luís Grignion de Montfort da escravidão a Nossa Senhora, com um despojamento completo de todos os bens presentes, passados e futuros, inclusive os espirituais, que são os méritos das nossas boas obras, postos nas mãos de Maria Santíssima.
Esse título marca muito bem a diferença entre a boa piedade católica e a Revolução. Há quem o considere como indigno do homem de nosso século, como próprio a ser utilizado no passado, mas não em nossa época em que a escravidão foi abolida, ninguém mais é servo, nem sequer de Nossa Senhora. Assim, em relação a Ela poder-se-á chamar filho, porém não escravo, porque a dignidade humana não comporta tal título, nem em relação à Santíssima Virgem.
Evidentemente, essa é uma afirmação igualitária, de caráter revolucionário.

 

Sendo Nossa Senhora a Rainha absoluta do Céu e da Terra, em relação a Ela todos são servos, e é uma honra sê-lo. Por isso aspiramos e consideramos dever nosso sermos verdadeiros escravos d’Ela, pois assim seremos autênticos filhos. Porque nós A amamos como filhos, queremos servi-La como servos.
Os sete Fundadores dessa Ordem religiosa, à qual quiseram dar o nome de Servos de Maria, a Igreja canonizou, instituindo essa Ordem, aprovando e promulgando suas regras. Assim, o magistério da Igreja, por várias formas, indica que em relação a Nossa Senhora deve-se ser servo.
O espírito demoníaco da Revolução, não querendo nenhuma espécie de superioridade, não se contenta em abolir a hierarquia na Terra – tanto a eclesiástica como a temporal –, mas quer negar até as desigualdades na ordem sobrenatural. Contesta a existência das desigualdades imensas estabelecidas por Nosso Senhor entre a Mãe d’Ele e as demais criaturas, enquanto Rainha de todos os Anjos e Santos e de todo o universo.
Se os sete Santos Servitas ressuscitassem e vissem as abominações proferidas por lábios católicos e amadas por corações católicos, que indignação teriam, que censuras fariam!
Nós devemos pedir a eles que intervenham aqui na Terra e ajudem a estabelecer uma verdadeira devoção a Nossa Senhora entre os homens e, com essa devoção, o senso da hierarquia e da Contra-Revolução.v

(Extraído de conferências de 11/2/1965 e 11/2/1966)

São Teodoro: um mártir increpador

Descendente de uma família nobre e rica, o jovem Teodoro cheio de garbo desafia o magistrado, proclama a caducidade dos ídolos, a vacuidade do Imperador, a nulidade do Império. Foi torturado barbaramente e queimado vivo. Assim como o sangue de Abel, vertido por Caim, clamava a Deus por vingança, o sangue dos mártires implorava a Deus a punição e, ao mesmo tempo, a conversão do Império Romano.

 

Proponho que assistamos juntos a um episódio histórico. Não é um filme de televisão, mas a descrição de um fato digno de ser lembrado na História da Igreja, contado circunstanciadamente não por mim; vou apenas ler a narração tirada da obra do Padre Rohrbacher(1).

O Império Romano decaía devido à corrupção moral

Trata-se do martírio de São Teodoro. Ele foi denunciado como católico e, convocado por um magistrado qualquer, recusou-se a abjurar a Fé. Foi levado, então, a um lugar de suplício onde ele poderia, a qualquer momento, fazer cessar os seus tormentos desde que se dispusesse a renunciar a Fé. Aguentou esses tormentos crudelíssimos até a morte. É um mártir.

Uma nota particularmente interessante nesse martírio é que o juiz e ele travam uma verdadeira batalha psicológica, na qual o magistrado procura de todos os modos amolecê-lo para evitar martirizá-lo. São Teodoro resiste, desafiando o juiz cada vez mais. O fato foi notório, conhecido e presenciado por muita gente.

Nós devemos nos perguntar qual é o efeito disso sobre a opinião pública correspondente ao Império Romano que abrangeu toda a bacia do Mediterrâneo. Os romanos se estendiam não só pelo litoral, mas eram senhores das nações ribeirinhas do Mediterrâneo. Aprofundando-se, portanto, longamente pelo território da África, Ásia, Europa, e constituindo, portanto, uma unidade impressionante.

Esse Império, pela imensa extensão e pela dificuldade de comunicação naquele tempo, fragmentou-se em dois: o do Oriente e o do Ocidente. Mas entendia-se que formava um só todo moral e até mesmo político, e que os imperadores, sem serem irmãos pelo sangue, o eram pela missão e deveriam governar em mútua colaboração, cada qual a sua parte do Império. Uma unidade, portanto, enorme, majestosa.

O Império Romano foi monumental e riquíssimo, mas também corruptíssimo. À medida que se desenrolava sua história, seu poder e sua riqueza foram crescendo, porém foi se dissolvendo moralmente e terminou na corrupção moral mais espantosa, acumulando dois aspectos diferentes.

De um lado, os romanos propriamente ditos, não só os habitantes de Roma, mas da Itália, que constituíam o núcleo do Império. Estes sentiam-se muito seguros e estáveis em função do poder e da riqueza que possuíam, e pelo fato de que os inimigos estavam longe, em fronteiras que dificilmente seriam transpostas por eles; e se as transpusessem seriam contidos com facilidade pelas legiões romanas.

Além da prosperidade e da segurança por verem o perigo bem longe, contribuía para a dissolução dos costumes o fato de que a religião dos romanos não dava o mínimo fundamento para uma atitude moralizada. Resultado: o Império foi se corrompendo até chegar a toda espécie de imoralidade e deterioração.

A Religião Católica se desenvolvia

Ao lado dessa depravação generalizada havia a Religião Católica que, do fundo das catacumbas, nascia e se desenvolvia, apresentando-lhes o oposto.

Vemos, então, o jovem Teodoro, nascido na Grécia, de uma família nobre e rica, julgado por um juiz daquela região, o qual estava, portanto, sob a influência dessa família. Esse jovem cheio de garbo desafia o magistrado e proclama a caducidade dos ídolos, a vacuidade do Imperador, a nulidade do Império, com uma força que vai crescendo à medida que o juiz oferece mais.

Dá-se, então, um debate entre o juiz – que visa despertar no jovem o desejo pela vida cômoda e agradável, sem o conseguir – e São Teodoro, que procura comunicar a Fé Católica proclamando as virtudes cristãs e o nome de Jesus Cristo, levando as verdades da Fé tão alto quanto se pode levar um estandarte; e o juiz recusando também.

A recusa de ambas as partes resulta em choque, que culmina com a morte do jovem Teodoro. Dir-se-ia que o fato está encerrado. Ora, a história começa aí. No Céu há um mártir rezando, enquanto na Terra os frutos de seu sangue se difundem.

Tertuliano disse aquela famosa frase: “O sangue dos mártires é semente de cristãos”. Assim como o sangue de Abel, vertido por Caim, clamava a Deus por vingança, o sangue dos mártires implorava a Deus pela punição e, ao mesmo tempo, pela conversão do Império Romano. E o sangue de São Teodoro passou a clamar.

Houve uma opinião pública que em parte presenciou, em parte tomou conhecimento desse martírio. Que atitude terão tomado aquelas pessoas diante dos diálogos impressionantes que vamos ler? Imaginem aqueles romanos que faziam festa quase todas as noites, comendo e bebendo durante horas, chegando ao extremo horror de provocar-se náusea, pela ação de escravos que vinham com penas de pato coçar o paladar, para lançar fora o que haviam ingerido e, esvaziando assim o estômago, poderem continuar a beber e a comer.

Podemos nos perguntar qual o efeito produzido nessa opinião pública pelo diálogo entre São Teodoro e seus algozes.

São Teodoro proclama a sua Fé e investe contra o inimigo de Cristo

Passemos à leitura e comentário da referida ficha.

A perseguição se deu pouco depois de que os Imperadores Galério e Maximino publicaram seus editos, que mandavam continuar as perseguições aos católicos, ordenadas por Diocleciano.

Diocleciano ordenou uma das piores e mais longas perseguições.

O jovem soldado, muito longe de dissimular a sua Fé, a trazia como que escrita sobre a fronte.

Imaginemos, então, um legionário romano com aquela armadura e elmo característicos, e que trazia sobre a fronte como que escrita a Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo visto por um folgazão que se embriagou na véspera e se embriagará naquela noite, e que para encher tempo vai assistir ao martírio e olha para aquilo aviltado e com o olhar embaçado pelo álcool.

Teodoro foi apresentado ao Tribuno da Legião e ao Governador da província, que lhe perguntaram por que ele não adorava os deuses, segundo as ordens dos imperadores.

Ele respondeu: “Sou soldado de Jesus Cristo, meu Rei. Eu não conheço outros deuses; meu Deus é Jesus Cristo Filho único de Deus”.

Isso é uma proclamação. Agora vem a increpação. Ele não se limita a proclamar a sua Fé, mas investe contra o outro, dizendo:

“Os deuses que quereis que eu adore não são deuses, mas demônios! Quem quer que lhes atribua honras divinas está no erro: eis qual é a minha Religião, aquela por cuja Fé estou disposto a sofrer. Se minhas palavras vos chocam, golpeai, rasgai, queimai, cortai a língua; é justo que os meus membros sofram pelo Criador.”

Esta apóstrofe tem todas as características de desafio e é metódica. Ele proclama a sua Fé, depois diz que a fé dos outros não vale nada, e desafia: “Agora, querendo, me martirizem. Eu estou disposto!” Eis o desafio total lançado por um legionário romano!

Podemos imaginar a repercussão de uma atitude como essa em pessoas incapazes de compreender como é que alguém, podendo dizer que adora aos ídolos – não precisava adorar de verdade, bastaria dizer que adora –, se expõe a tormentos dos quais elas têm horror e se prive de divertimentos, quando essa privação já lhes parece um tormento.

O Imperador é um fragilíssimo príncipe, no Céu há um Rei eterno e imutável

Os juízes, embaraçados com uma resposta tão ousada, deliberavam sobre o que eles deveriam fazer, quando um oficial, querendo caçoar do Santo que tinha dito ser fiel ao Filho de Deus, se pôs a lhe dizer:

– Então, Teodoro, teu Deus tem um filho? Ele é sujeito às paixões como os homens?

Respondeu Teodoro:

– Não, meu Deus não está sujeito a paixões. Todavia, Ele tem um Filho, mas um Filho nascido da maneira digna de Deus e bem superior a vossas ideias baixas e carnais, pois esse Filho é a palavra de verdade, pela qual Ele fez todas as coisas.

O tribuno lhe perguntou:

– Podemos nós conhecer esse Filho de Deus?

Ele respondeu:

– Eu quereria bem que Deus vos tivesse dado graças para isso.

Mas, disse o oficial:

– Se nós o tivéssemos conhecido, não poderíamos abandonar nosso Imperador para dar nossa vida ao seu Deus.

Disse Teodoro:

– Se vós O conhecêsseis, teríeis em pouco tempo saído de vossas trevas e, em lugar de pôr uma confiança frágil no vosso fragilíssimo príncipe na Terra, vos ateríeis a Deus, que é o Deus vivo, o Rei e Senhor eterno e vós combateríeis comigo em favor d’Ele.

Essa increpação de que o Imperador é um fragílimo príncipe da Terra e que há um Rei no Céu, eterno e imutável, é uma coisa de deixar aquela gente boquiaberta. Porque era gente que tinha uma vaga ideia de uma post-vida, mas tão vaga, contraditória e cheia de lendas, que praticamente não funcionava. Eles não tinham senão uma ideia ainda mais vaga, de vez em quando lampejos, de um julgamento segundo leis que ninguém sabia como eram.

Agora, vem um que afirma, mas trazendo na fronte uma espécie de prova da verdade da Fé que ele proclamava; pode-se imaginar o impacto no juiz, no tribuno e na opinião pública.

Exortava os católicos que eram conduzidos ao martírio

“Deixemo-lo por alguns dias, disse o tribuno, ele mudará e virá por si mesmo, e acabará fazendo aquilo que lhe é mais vantajoso.”

É a regra dos pagãos, que os caracteriza a cem por cento. Vantagem, vantagem, vantagem, não tem mais nada.

Deram-lhe, então, um prazo dentro do qual ele deveria sacrificar aos deuses, senão seria martirizado.

O Santo não se perdeu em vãs deliberações, mas se empregou em rezar e louvar a Deus incessantemente.

O louvar é um estilo de oração, mas é quase mais bonito do que as outras formas de rezar, no caso. Um homem que marcha para o martírio horrível e que louva a Deus, por Quem ele vai ser martirizado, que louvor bonito! Tem-se a impressão de que um Anjo não cantaria melhor.

Os gladiadores não eram mártires, mas escravos ou pessoas livres de baixa condição que lutavam uns com os outros para o público ver. Eles, antes de começar o combate, alinhavam-se diante da tribuna do imperador e diziam a frase: “Ave Cæsar, morituri te salutant” – “Ave, César, aqueles que vão morrer te saúdam.” Depois começava o combate.

São Teodoro dizia isto a Deus: “Ave, ó Deus, aquele que vai morrer Te saúda. Mas esse que vai morrer sabe que em Ti ele vai viver.” É belo!

Entretanto, os perseguidores procuraram cristãos entre os habitantes para serem conduzidos também à prisão. Teodoro os seguia, exortando a serem firmes e fiéis a Jesus Cristo.

Quer dizer, o tempo que lhe foi dado para hesitar, ele o empregava rezando ou acompanhando outros ao martírio. Era, naturalmente, gente menos importante que ele, a quem os perseguidores não tinham medo de matar. Ele acompanhava os outros ao martírio, exortando-os: “Sustentem, protestem contra o juiz, sejam firmes até o fim, confessem o nome de Jesus Cristo!”

Podemos imaginar a raiva dos que lhe tinham dado prazo, ao verem como ele o empregava. O transporte para o lugar do martírio era feito por uma espécie de piquete de soldados que levavam os condenados à vista de toda a cidade. Os pagãos vaiavam os que iam morrer. Do lado de fora do piquete, estava Teodoro, o soldado: “Aguentem, dura pouco, a eternidade vem, Deus merece, Jesus Cristo é nosso Deus!”

Em todas as ocasiões ele marcava dessa maneira o seu zelo para o serviço de Deus.

Incendeia um famoso templo pagão

Agora vem um modo de manifestar o zelo que deixa o Padre Rohrbacher hesitante, mas ele menciona pondo ao lado de São Teodoro uma grande autoridade. Diz o autor:

Havia um templo no meio da cidade, nas margens do rio chamado Ires. Esse templo era dedicado à deusa Cibeli, que as fábulas chamavam “a mãe dos deuses”. Teodoro, encontrando a ocasião favorável, pôs fogo durante a noite no templo, que foi reduzido a cinzas, com os ídolos que nele existiam.

Pela discussão que vem depois, vê-se que, entre outras intenções, estava a de mostrar que os ídolos não valem nada, qualquer um ateava fogo neles. Era, portanto, uma prova de que ele tinha razão, mas também um escárnio aos idólatras.

O que São Gregório de Nissa relata como uma generosidade louvável, se bem que o Concílio particular de Euvira pareça censurar ações desse gênero. Teodoro, apesar disso, não ocultou sua ação; ele se gabava até publicamente, nas rodas, que era ele quem tinha posto fogo. Pelo que foi denunciado e compareceu perante o tribunal do governador com tal segurança que mais parecia juiz do que acusado.

É extraordinário! Com a Fé resplandecendo na fronte, sendo o juiz de seu juiz, sabendo que ele caminhava para a morte terrível.

Ele reconheceu o fato que lhe era imputado. O juiz lhe perguntou por que ele tinha queimado a deusa do lugar, em vez de adorá-la. O Santo respondeu que ele tinha acendido uma lenha para pôr à prova a deusa e ver se era combustível ou não. E que o fogo a tinha atacado e queimado, porque toda a força dela tinha consistido apenas em matéria e isso se queima.

Ora, ele estava dando um argumento para não adorar: “Como é uma deusa, se eu a queimei? O que vale isso?” O juiz fez o que tantas vezes fazem os ímpios, isto é, quando os bons dão um argumento, não contra-argumentam porque não têm o que dizer. Então ficam indignados.

O juiz se encolerizou e mandou chicoteá-lo e o ameaçou de outros suplícios muito mais rigorosos, se ele não obedecesse às ordens dos imperadores.

Como ele era de uma família influente, o juiz mandou chicoteá-lo, mas não o condenou à morte. Queria ver se ele apostatava, para não ter encrenca com a família, ou ao menos uma encrenca tão pequena quanto possível.

O Santo respondeu que os suplícios mais terríveis não o fariam obedecer aos homens contra o que Deus mandava, e que a esperança que ele tinha nos bens do Céu lhe tirava todo o temor dos males que o ameaçavam nesta Terra.

Um dos lados de seu corpo foi rasgado com unhas de ferro

O governador, vendo-o insensível a essas ameaças, trata de suborná-lo por promessas magníficas que lhe faziam esperar honras, dignidades e até a qualidade de pontífice de um desses deuses.

Teodoro escarneceu dessas promessas para voltar às suas ameaças, cujo efeito era muito próximo; ele assegurou ao juiz, fazendo um sinal da Cruz sobre todo seu corpo, que ainda que o juiz o fizesse derreter no fogo, o cortasse em pedaços, ele não cessaria de confessar Jesus Cristo até o último alento.

O juiz, renunciando então a todos os meios de doçura, fez colocar o Santo sobre um cavalete. E ordenou lhe rasgassem um dos lados com unhas de ferro, o que foi executado com tanta crueldade que os seus ossos ficaram todos postos a descoberto.

Podemos imaginar a dor lancinante que uma coisa dessas causa!

Ele nada disse ao juiz, mas cantava: “Eu bendirei Deus em todo o tempo, sempre o seu louvor estará na minha boca”.

Ele cantava esse versículo de um salmo. “Em todo tempo” quer dizer no tempo bom, mas também no tempo ruim. “Por mais que sofra, eu O louvarei!” Se isso não é grandeza de alma, não sei o que é grandeza de alma!

Luzes pairavam sobre o Santo

O juiz, espantado por uma tão rara força no sofrimento, disse-lhe:

– Tu não tens vergonha, miserável como és, de pôr tua confiança neste homem que chamas Cristo, que houve quem fizesse morrer como um infeliz? Tu não tens vergonha de te dispor inconsideradamente aos tormentos e aos suplícios?

Respondeu Teodoro:

– Essa vergonha é para mim e para todos os que invocam o nome de Jesus Cristo uma razão de alegria e de glória.

Ele então foi exposto à tortura e depois mandado para a prisão onde Deus manifestou as maravilhas de seu poder a propósito de Teodoro. Porque, segundo conta São Gregório de Nissa, escutou-se durante a noite a voz de uma multidão de pessoas e viu-se algo como uma multidão de lâmpadas. O carcereiro, surpreso com esse duplo prodígio entrou no cárcere e não viu outra coisa senão o Santo que descansava placidamente no meio dos prisioneiros.

É uma coisa admirável! Um homem que sofreu essas torturas conseguir dormir! É inconcebível! Na véspera de outras torturas, tranquilamente.

As vozes e luzes pairavam sobre ele e se tornaram notórias ao carcereiro.

O juiz mandou, na manhã seguinte, que ele fosse levado de novo para o submeter a outras torturas. E considerando-o invencível em todos os pontos, pronunciou a sentença de morte e o condenou a ser queimado vivo, o que foi feito imediatamente.

Fortaleza sobre-humana dos mártires

Termina, assim, a história de São Teodoro. Se não fosse o fato de haver uma caudal de episódios semelhantes, ele poderia ser chamado “São Teodoro, o grande”. Mas a questão é que o conceito de grande tem dois sentidos: um é perante Deus, e nessa acepção todos os Santos são grandes; outro é diante dos homens. Neste sentido, por mais profundo que seja o conceito de grandeza, chamam-se “grandes” os que são maiores do que os do mesmo gênero. Ora, os mártires gloriosos são tão numerosos que se hesita em dizer que ele é maior do que muitos outros. Entretanto, pudemos ver como ele é grande!

Consideremos agora a repercussão desses fatos na opinião pública. Nós não temos os documentos diretos, tanto mais quanto as fontes pagãs não tratam do Cristianismo a não ser muito pouco e de passagem. Como então podemos saber qual é a reação da opinião pública? Pela marcha progressiva das conversões. Torturas, conversões; torturas, conversões… Compreende-se que, diante de um mundo dividido, atos como esses despertavam, no fundo das almas, restos de razão natural naufragados dentro da podridão romana. Junto com esses restos vinha a graça de Deus que dava às almas um discernimento, uma apetência de bens sobrenaturais que, de si, a natureza humana não tem, despertando por sua luz, por sua força, mesmo nas almas mais pútridas, ímpetos generosos.

Na luta de séculos entre os mártires e seus perseguidores vemos duas coisas espantosas. De um lado a fortaleza sobre-humana dos cristãos ao suportar tamanhos tormentos. De outro, a crueldade dos algozes.

Causa surpresa ver que instrumentos não cirúrgicos, e sim de tortura, manipulados não por mãos de cirurgiões votados ao êxito da cura e a que doa o menos possível, mas empenhados em maltratar, os quais pegam o ferro quente e põem a fundo, regozijando-se quando o paciente geme, e que cortam, recortam e estraçalham… Que pessoas dotadas da nossa natureza tenham aguentado coisas dessas é um milagre patente! O ser humano não tem forças para isso por sua natureza. Terá vigor para ir a um combate, sempre com a esperança de sair ileso, mas caminhar para a tortura dessa maneira o homem não tem força.

Ora, os mártires aguentam desafiando e morrem na serenidade de suas almas. Como se pode compreender isso sem o milagre? Há, pois, um milagre evidente convidando essa gente a se converter.

Força de Deus que penetra, embebe e toma conta de tudo

Outra coisa que também excede a estatura humana é a maldade dos homens que ordenam essas execuções e as praticam. Dir-se-ia que a criatura humana desce abaixo de si mesma quando faz isso. Encontram-se menos raramente homens que realizam isso, mas que multidões inteiras o pratiquem é inimaginável! Ainda mais multidões do maior, mais civilizado, mais culto e mais rico império que havia na Terra. Essas multidões se entregarem ao prazer de ver o tormento dos outros, essa manifestação de sadismo coletivo que dá a impressão de psicose sem o ser, isso é uma coisa também inacreditável, dentro da qual se vê a ação do demônio combatendo contra a ação de Deus. Esse é um choque maior do que os homens empenhados, de lado a lado, que dá toda beleza ao episódio. A pulcritude do episódio vem de um modo relevante, a meu ver, disto: o choque no qual Deus vence e escarnece do demônio.

Com efeito, ao longo de uma tortura dessas, na opinião pública muitos ficam piores. Entregam-se dessa maneira ao demônio! Alguns ficam melhores. Esses alguns já sabem que, melhorando, vão se expor a uma tortura daquelas, e que o caminho deles é o que estão vendo. Não é como uma conversão de hoje, em que o indivíduo é batizado, o padre felicita, ele vai para sua casa tranquilo; se sua família é católica ainda faz uma festinha para ele. Não é isso, não! Naquela época, o convertido sabia: “Isso vai me levar àqueles padecimentos. Minha conversão está me pondo na fila dos que vão morrer. Está bem, eu entro na fila!” É qualquer coisa de admirável!

Poder-se-ia objetar que o efeito disso na opinião pública é nulo. Uma opinião pública de gozadores e bandidos só pode ser insensível a isso, e jamais os católicos deixarão de ser uma minoria.

Sem dúvida, a aparência era essa. Os católicos viviam por debaixo da terra. Quando Constantino deu liberdade à Igreja e fez um edito mandando fechar os templos pagãos, não houve protestos e tudo acabou, porque, a bem dizer, não havia mais pagãos em Roma.

A ilusão era de que os pagãos tinham a popularidade e todo o poder. De fato, existe uma dinâmica do mal à maneira de um gás venenoso que se dilata e conquista facilmente. Contudo, há uma força de Deus que muitas vezes é subterrânea, não se percebe, mas que penetra, embebe, toma conta de tudo sem que se tenha ideia. Em determinado momento, quando se vai ver, Ele venceu.

Sejamos como São Teodoro e vamos para a frente com coragem!

Isso se dá com os que, em nossos dias, lutam pela Contra-Revolução. Constituem uma minoria açoitada por todas as severidades da guerra psicológica revolucionária; acossada com múltiplas formas de tortura do desdém, da ignorância, da perseguição dos seus mais próximos, e dentro da própria Igreja, de tal maneira que um católico contrarrevolucionário poderia dizer: “Alienus factus sum in domus matris meæ” – Tornei-me um estranho na casa de minha mãe (cf. Sl 69, 9). De tal maneira o contrarrevolucionário é insultado, isolado, ejetado de todos os lados. Dir-se-ia: “Minoria sem futuro, condenada eternamente a ser insignificante e para quem não trabalha a vitória”.

Sejamos nós como “Teodoros” e vamos para a frente com coragem! Quiçá não percebamos, como São Teodoro não notou as conversões que ele mesmo ia determinando; mas uma coisa é verdadeira: o sofrimento dos que padecem por Nossa Senhora é semente de novos cristãos. Eis a lição que São Teodoro nos dá. Rezemos a ele.            v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/8/1981)

Revista Dr Plinio 251 (Fevereiro de 2019)

 

1) Cf. ROHRBACHER, René-François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas, 1959. v. XIX, p. 261-266.