São Francisco Di Girolamo

Pregador incansável pela conversão dos pecadores, São Francisco Di Girolamo soube conservar-se inteiramente humilde e abnegado, apesar do estrondoso sucesso que obtivera em seu apostolado. Homem a quem a própria Virgem Santíssima recomendara aos pecadores, São Francisco arrastava as almas ao caminho do bem, por sua despretensão e humildade.

Em legado ao bem que realizou, a Providência concedeu-lhe uma das mais belas mortes. Rendeu ele seu espírito ­cantando o “Magnificat”, cântico com que a própria Mãe de Deus louvou o Padre Eterno pelos dons que recebera.

Uma vida cheia de glória que proclamava humilde e alegremente sua plenitude, no momento derradeiro de seu ocaso.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 10/5/1968)

São Francisco de Jerônimo: despretensão e amor ao sacrifício

Quem se deixa dominar pelo orgulho perde todas as virtudes que eventualmente possua. Mas ao despretensioso todo o resto lhe será dado por acréscimo.

 

Em 11 de maio comemora-se a festa de São Francisco de Jerônimo, cuja biografia contém os seguintes dados(1):

São Francisco de Jerônimo nasceu em 17 de dezembro de 1642.

Grande pregador em Nápoles

Tornando-se jesuíta, seu maior desejo era ser missionário nas Índias e Japão, mas Deus o destinou a evangelizar o reino de Nápoles, trabalho ao qual se dedicou de corpo e alma.

Preparou, para auxiliá-lo, uma confraria de artesãos que se chamou Oratório da Missão; além de outros numerosos trabalhos, seus membros todos os domingos acompanhavam São Francisco em suas pregações pelas ruas e praças de Nápoles. Saíam cantando da Igreja de “Gesù Nuovo” e, em procissão, dirigiam-se aos locais mais frequentados.

Ao avistarem a procissão, os elementos de má vida abandonavam, sem cólera, o que estavam fazendo.

Francisco subia, então, a um lugar mais elevado e falava ao povo. Começava descrevendo, com energia, os horríveis efeitos do pecado e os castigos que esperavam o pecador.

Quando o temor estava em todos os corações, ele falava sobre a misericórdia de Deus. Depois dizia aos presentes que faria penitência por si e por eles. Ajoelhava-se ante uma cruz e, com o rosto em lágrimas, flagelava-se com uma disciplina de ferro. Não era preciso mais para o povo segui-lo, cheio de arrependimento.

Grande devoto da Virgem, que frequentemente enviava-lhe os pecadores que desejava se convertessem. Tornou-se famoso o caso de um homem, há muito afastado da Igreja, que Nossa Senhora o protegeu por causa do respeito com que saudava as suas imagens. Apareceu-lhe três vezes, ordenando que procurasse Francisco para se confessar.

São Francisco de Jerônimo morreu em 1716, cantando o “Magnificat” em agradecimento pelas graças que recebera em sua vida.

Meio publicitário de primeira ordem

Essa vida é uma verdadeira beleza! Vê-se como a graça prepara as pessoas de acordo com o ambiente em que elas devem atuar. É uma coisa evidente que este homem, que desejava fazer a pregação na distante China, no distante Japão, tinha todo o necessário para pregar na própria Itália. Ele era italianíssimo e o modo de ele fazer sermões o era também. É o Sul da Itália, todo entusiasmado por música, por cerimônias externas, por procissões, por aparato, gente com a imaginação quente, fértil, ao contrário dos nórdicos.

Vejam como é bem calculado ele sair, pelo Sul da Itália ensolarada, de dentro de uma igreja napolitana, com um grupo de gente cantando e fazendo uma procissão. É muito diferente, por exemplo, de um grupo de ingleses saindo da Catedral de Westminster, cantando e fazendo procissão nas brumas de Londres. Na Itália tudo isso toma outro aspecto, outra poesia.

Este Santo está inventando, portanto, um processo publicitário de primeira ordem para chamar a atenção num lugar onde todo mundo canta: a poética Itália daquele tempo, em que se trabalhava pouco e se vivia muito e melhor.

Imaginem as ruas estreitinhas da Itália daquela época, pelas quais as pessoas, saindo da Igreja do Gesù, caminham cantando hinos sacros. Todo mundo vai ver passar a procissão, até mesmo as pessoas de má vida. Sobe o santo num local mais elevado e começa a falar.

Agudo senso psicológico no agir

E notem o alto senso psicológico no agir: São Francisco entende bem que, para aquele gênero de gente, é preciso começar a falar pelo temor, pois se trata de pessoas embrutecidas, endurecidas no pecado e, no seu atual estado de espírito, incapazes de amor. Então, para descolar o apego desta gente aos bens da Terra, é necessário começar a dizer-lhes que são bens efêmeros, passageiros e, depois, falar das chamas do Inferno, no duro.

Depois de tê-los amedrontado bem e, pelo temor, produzir neles um início de desapego em relação aos bens terrenos, ele passa a falar da misericórdia para dar a esperança dos bens futuros, nutrir o amor de Deus e fazer com que Ele comece a lhes aparecer com a sua face amorosa.

Vemos, assim, o quanto esse caminho, pelo temor para o amor, faz bem. Toda espécie de aventureiro, de mafioso, de sem-vergonha de fundo de bodega, sai e começa a comentar:

— Mas como é esse Inferno? Pega fogo mesmo?! Como é esse fogo?

E ouvem a voz do Santo:

— Morre-se de repente… Cuidado com a morte súbita! Olhai o que aconteceu, no vosso bairro, com a Margherita — porque tem que ser assim, personalizado; para a oratória popular a coisa não pode ficar em teoria —, que morreu enquanto estava pendurando a roupa no varal. Quem haveria de dizer? Agora, eu pergunto: o mesmo não pode suceder com qualquer um dentre vós?

Dirige-se a um ouvinte e pergunta:

— Você não teve já uma tontura?

— Eu já tive.

Outro pensa: “Eu também tive, mas não conto!”

De repente, por essas “coincidências” de que os oradores assim inspirados são capazes, São Francisco diz:

— Você conta que teve! Mas não haverá alguém aqui que não tem coragem de contar que já sofreu alguma tontura?

E aquele que fizera o propósito de não contar, pensa: “Esse homem adivinhou o que está se passando em mim!”

Varão humilde que derrama o próprio sangue

Estando os espíritos assim vacilantes, ele começa então a falar da misericórdia. Mas aí há uma prática em que a justiça e a misericórdia se osculam: depois de falar da misericórdia, São Francisco dá uma prova da necessidade da justiça e uma amostra da imensidade da mesma misericórdia. E ele mesmo vai junto a uma cruz, ajoelha-se e diz: “Este sangue que vou derramar é por vós!” E começa a se flagelar. E vê-se correr o sangue do inocente, enquanto o pecador está embaixo, olhando e refletindo:

“Mas será possível? Eu fugiria na disparada para evitar essa sova, e ele a leva por mim! Que coisa fabulosa!”

E a graça começa a atuar. Não há coisa mais eficaz do que uma dupla graça: a da humildade e a do sangue derramado. Ou seja, ouvir um pregador destes que tem a coragem de falar sem procurar chamar a atenção sobre si, sem ser vaidoso, sem fazer espetáculo; ele está empolgando toda aquela gente, mas pensando abnegadamente na salvação das almas e na causa da Igreja, e não está preocupado nem um pouco consigo. Pelo fato de sentirem que não há nele egoísmo, ele arrasta os outros para abandonarem o seu egoísmo. Ademais, ele leva isso à generosidade de derramar o seu próprio sangue.

Esse fato me traz à memória um dito de Napoleão. Certa vez, quando ele estava no fastígio de sua glória e já pensando em proclamar-se imperador, perguntaram-lhe:

— Por que não te fazes aclamar Deus?

Ele respondeu:

— Porque, depois de Jesus Cristo, só há um meio de ser tomado a sério como Deus. É subir numa cruz e fazer-se crucificar. E ser crucificado eu não quero.

“Christianus alter Christus”(2). São Francisco de Jerônimo não se crucificava, mas para ser tomado a sério ele se flagelava. E no ato de açoitar-se, feito com humildade e desprendimento — porque uma flagelação orgulhosa não conseguiria coisa alguma —, ele levava as almas atrás de si.

Vemos, então, qual é o resultado dessas missões, o lindo fecho dessa biografia: um pecador a quem Nossa Senhora aparecia, recomendando que o fosse procurar. Um homem que, apesar desse sucesso estrondoso, se conserva inteiramente humilde e abnegado até o fim de sua vida, e que morre num ato de humildade, atribuindo tudo à Santíssima Virgem, como devia atribuir — porque, como diz São Paulo, cada um de nós é um servo inútil —, e cantando o “Magnificat” para agradecer os dons de que ele fora objeto.

A morte deste Santo é uma das mais belas que pode haver: morrer entoando o cântico com que Nossa Senhora agradeceu os dons que Ela mesma recebeu de Deus! Uma vida cheia e que proclamava, humilde e alegremente, sua própria plenitude no momento do seu ocaso. Sem dúvida, é uma vida que mereceria que uma pessoa fizesse um poema a respeito dela.

A tentação de vaidade

Alguém poderia dizer-me:

“Doutor Plinio, o senhor não está engrandecendo um pouco demais o personagem? O senhor se refere a ele como se fosse um homem que tivesse calcado aos pés todos os louros do mundo, quando ele, afinal de contas, era um modesto pregador popular. O que era isto em comparação com um grande orador acadêmico?”

E eu respondo: uma das coisas mais difíceis é o indivíduo resistir ao apelo da demagogia, à sedução desse contato vivo com a multidão e a essa sensação de estar conduzindo as almas porque está guiando o povo. Essa é a tentação de vanglória mais difícil de ser vencida, debaixo de muitos pontos de vista, do que a de vaidade de quem está falando para um grande auditório frio, que ouve tudo com senso crítico e, depois, aplaude batendo com as pontas dos dedos na palma da mão.

Imaginem alguém convidado para falar na Academia Francesa de Letras — um dos mais altos cenáculos literários do mundo —, e vendo as fisionomias daqueles franceses críticos, ouvindo sua palestra. Terminada a exposição, dizem simplesmente: “Oh, bien…” O que é isto em comparação com um homem que vai carregado pelo povo que o aclama com “vivas” etc.? Aquele turbilhão do entusiasmo popular e “populacheiro” que inebria mais, assim como um determinado gênero de vinho popular embriaga mais do que a “champagne”. É uma magnífica amostra do que pode um homem, como vitória contra as formas fáceis de popularidade, perseverando na humildade e, por isso mesmo, levando as almas a Nossa Senhora.

Lembro-me de ter lido o seguinte episódio na biografia de São Vicente Ferrer, que talvez tenha sido o maior missionário de todos os tempos, depois de São Paulo. Quando fazia missões de cidade em cidade, o povo de uma localidade ia acompanhando-o a pé pelo caminho, e a população da outra vinha ao encontro dele e o conduzia, debaixo de um pálio, para a cidade seguinte onde ele deveria pregar. Quando o santo pregador entrava, era como um soberano que estivesse chegando: todos os sinos tocavam. E, naquele tempo, o sino era o máximo da consagração; era como a televisão de hoje.

No meio de toda aquela popularidade, enquanto ele entrava em Barcelona, onde lhe haviam preparado uma consagração apoteótica, alguém se aproximou dele e perguntou: “Irmão Vicente, não vos sentis vaidoso?”

Ele deu a resposta do homem humilde: “A vaidade esvoaça do lado de fora de mim, mas não entra”.

Quer dizer, “eu sinto a tentação da vaidade, mas não consinto”. Vejam que beleza são essas coisas, que fazem de um pequeno detalhe da vida de um Santo uma verdadeira maravilha.

A despretensão

Que isso nos toque e nos sirva de exemplo. O que eu mais desejo para mim e para cada um de nós é a despretensão. Não nos preocuparmos com o que estão pensando de nós, em fazer bonito papel diante dos outros, mas sermos indiferentes aos aplausos ou às vaias. E sabermos calmamente tocar o nosso caminho, executando aquilo que Nossa Senhora quer de nós, compreendendo que, para Deus, todo homem é pecador, tem defeitos, e as virtudes que ele possa ter lhe vêm de Deus Nosso Senhor, porque não saem de sua natureza contaminada pelo pecado original; portanto, pelos rogos de Maria, tudo deve ser agradecido ao Criador.

Aliás, é preciso dizer, ser vaiado por levar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo a um ambiente hostil é uma bem-aventurança, pois significa sofrer perseguição por amor à justiça. Indica um belo grau de humildade o conservar-se despretensioso num ambiente onde há simpatia para conosco, porém é mais difícil, ao ser vaiado, manter-se humilde, mas sobranceiro.

Eu os convido, portanto, a praticarmos juntos, nesses seus dois aspectos, a virtude da humildade, enfrentando com sobranceria a vaia e preparando as nossas almas para dominar o contínuo apetite de sermos bem-vistos e louvados pelos outros, e de, veladamente ou não, nos julgarmos superiores em relação aos demais.

Que Nossa Senhora nos conceda essa despretensão e eu lhes garanto que todo o resto lhes será dado por acréscimo. 

 

(Extraído de conferência de 10/5/1968)

 

1) Não dispomos dos dados bibliográficos da ficha utilizada nesta conferência.

2) Do latim: O cristão é outro Cristo.

São Mayeul e a confiança cega

Se, como diz a máxima, a justiça é cega, mais ainda o deve ser a nossa confiança em Deus. Quando nos exercitamos nessa virtude, praticando-a de modo humilde e irrestrito, acumulamos um inimaginável tesouro de misericórdia e recompensas celestiais. É a lição que Dr. Plinio extrai da admirável vida de São Mayeul, abade de Cluny, o mosteiro-pilastra da Cristandade medieval.

 

Célebre na Idade Média e nos séculos sucessivos, pela impregnação do espírito católico que ela promoveu na cultura e civilização europeias, a Abadia de Cluny foi igualmente um celeiro de Santos.  Entre eles, São Mayeul, abade cuja biografia podemos ler no Pe. Rohrbacher.

Humildade, obediência e dom dos milagres

São Mayeul de Cluny, nasceu na Provença, pelo ano de 906. Foucher, seu pai, era da primeira nobreza, e tão rico que doou àquele mosteiro vinte terras com as igrejas a que pertenciam. São Mayeul era ainda jovem quando perdeu pai e mãe, e suas propriedades haviam sido devastadas por invasores bárbaros, obrigando-o a abandonar a região e se retirar para Mâcon. Ali foi recebido por um parente seu, e colocado entre os cônegos da diocese. Pouco depois se dirigiu a Lyon, onde estudou as artes liberais e a filosofia. De regresso, foi promovido a arcediácono, dignidade na qual se destacou por sua caridade para com os pobres e na instrução de outros clérigos.

Sua reputação tornou-se tal que, tendo vagado o arcebispado de Besançon, foi eleito, com consentimento do clero e do povo. Porém, recusou-se a assumir o cargo, e concebeu mesmo a ideia de deixar o mundo.  Como o mosteiro de Cluny estivesse nas vizinhanças de Mâcon, Mayeul abraçou a vida monástica nessa comunidade, em 943.

Não se distinguiu senão pelas virtudes, sobretudo a obediência e a humildade. Seis anos após a entrada de Mayeul no mosteiro, o santo Abade Aymard, sentindo-se velho e cego, e temendo que as enfermidades fossem causa de relaxamento na observância da regra, declarou-o abade, com o consentimento de toda a comunidade. Após a morte do venerável Aymard, em 965, Mayeul governou sozinho a abadia durante perto de 30 anos. Aliava à doutrina grande facilidade de falar, e escutavam-no com prazer quando proferia um discurso de moral. Muitos ricos e poderosos, tocados pelas suas exortações, abraçaram a vida monástica e aumentaram consideravelmente a comunidade de Cluny. Mayeul procurava sempre o recolhimento, mesmo nas viagens, e orava com tal compunção que, não raro, encontravam a terra regada de lágrimas.

Também tinha o dom dos milagres.  Indo, por devoção, visitar a Igreja de Nossa Senhora de Puy-en-Velay, entre os muitos pobres que lhe pediam esmolas, um cego disse ter tido a revelação de São Pedro que recuperaria a vista, se lavasse os olhos com a água onde São Mayeul houvesse lavado as mãos.  O abade despediu-o com forte reprimenda, e, sabendo que ele pedira tal água aos domésticos, proibiu-lhes terminantemente de fazê-lo. O cego não se desencorajou. Após ser despedido várias vezes, esperou o abade à beira do caminho, tomou o cavalo pela brida, e jurou não largá-lo antes de obter o que pedia.

Para que não fosse possível uma escusa, trazia água num vaso pendente do pescoço. O santo compadeceu-se, desceu do cavalo, benzeu a água segundo o costume da Igreja, fez o sinal da Cruz sobre os olhos do cego, depois, com os assistentes, se pôs de joelhos e orou à Santíssima Virgem. Antes de se levantar, o cego recuperara a vista…

Admirado pelos bárbaros

Em 973, São Mayeul regressava de Roma, acompanhado de grande número de homens de vários países, que se criam seguros na companhia de um santo. Mas, na passagem dos Alpes, foram atacados pelos sarracenos de Freysinet, que colocaram todos a ferros. O santo abade, cheio de aflição, pediu a Deus que ninguém morresse e foi atendido. Como alguns mouros zombassem da religião cristã, São Mayeul começou a mostrar-lhes com fortes razões a segurança da nossa religião e a falsidade da deles. Isto os irritou a tal ponto, que lhe algemaram os pés e o encerraram numa horrível gruta. Neste local, tendo o santo encontrado ao seu lado a obra atribuída a São Jerônimo, o “Tratado da Assunção da Virgem Santa”, pediu à Mãe de Deus que lhe fosse ainda concedido celebrar esta festa com os cristãos. Estavam a 23 de julho. Milagrosamente viu-se livre das algemas e os infiéis, estupefatos, passaram a tratá-lo com respeito. Permitiram que escrevesse a Cluny para obter seu resgate e de seus companheiros, e restituíram os víveres que haviam guardado como despojos de guerra.

Enquanto a quantia exigida não chegava, aumentou a devoção dos bárbaros pelo abade. Como este não estivesse habituado aos seus alimentos, preparavam um pão especialmente para ele. Certa vez, querendo polir um bastão, um sarraceno colocou o pé sobre a Bíblia que Mayeul trazia sempre consigo. O santo deixou escapar um gemido e o soldado foi pronta e severamente repreendido pelos companheiros. No mesmo dia este sarraceno, entrando numa briga, teve cortado o pé com que pisara a Sagrada Escritura.

Vindo enfim o resgate, São Mayeul foi libertado e celebrou a festa da Assunção entre os seus, como pedira. Os sarracenos de Freysinet não tardaram a ser completamente batidos por tropas cristãs, o que foi considerado como uma punição divina pelo aprisionamento do santo abade.

Em 994, quarenta e um anos depois de sua fecunda existência como superior de Cluny, consagrada à virtude e ao zelo pela disciplina monástica, São Mayeul passou ao repouso do Senhor, cheio de anos e méritos. Sua sepultura, em Souvigni, ficou célebre por tão grande números de milagres, que Pedro, o venerável, não receou dizer que, depois de Nossa Senhora, não há outro santo na Europa que mais milagres operou.  

A Providência orienta as diversas formas de santidade

Por esses interessantes traços biográficos, percebemos como Deus via cada alma de acordo com uma orientação própria, correspondente aos desígnios d’Ele de dispô-las no universo de maneira ordenada e sábia, segundo formas diversas de santidade.

Então, para determinado tipo de alma está destinado um tipo de graça, e há uma conduta especial da Providência ajustada a ela, orientando os acontecimentos terrenos, produzindo-os, permitindo outros, de maneira que tais almas sejam fiéis a essas graças e realizem a forma de santidade à qual foram chamadas.

Isso se aplica de modo esplêndido no que diz respeito a São Mayeul.

Antes de tudo, é interessante observar como as pessoas daquele tempo procuravam viajar junto com os homens tidos por santos, certos de se verem mais protegidas do que se andassem sozinhas. É uma atitude que revela o espírito de fé do qual estavam animadas.

Porém, viajaram com este santo e na aparência Deus os iludiu, pois todos caíram presos nas mãos dos sarracenos. Portanto, a confiança depositada no santo parecia objeto de uma severa e amarga desilusão.

Ora, o que aconteceu?

São Mayeul, cheio de aflição, pediu a Deus que ninguém morresse, e foi atendido. Um outro santo qualquer poderia desejar o contrário, e rogar a Deus que, naquele momento, concedesse a todos a palma do martírio, ou pelo menos não pedir a vida para todos. Ficaria quieto, entregando nas mãos de Deus o destino deles, como aprouvesse à sua infinita sabedoria. Seriam modos diversos pelos quais as almas santas, sob influxos diversos da graça, respondem de maneiras distintas em semelhantes situações.

Confiança absoluta no auxílio divino

No caso de São Mayeul deu-se como o narrado, e ele foi atendido. Ninguém morreu, e a confiança que tinham depositado em Deus na pessoa dele foi, portanto, justificada. E o foi por uma espécie de superabundância, porque não só não morreram, como presenciaram uma série de maravilhas as quais terão feito imenso bem para as almas deles.

Em primeiro lugar, tiveram a graça de privar com um santo. Deus, na aparência de lhes tirar algo, de fato lhes concedeu mais do que imaginavam, ao contrário do que faz o demônio: quando este nos promete algo, é exatamente o de que nos irá privar. Nosso Senhor age de modo inverso, e não nos nega aquilo que nos prometera. De sorte que cabe a nós nutrirmos uma inteira confiança na misericórdia divina, pois acabará nos proporcionando o que parecia nos ter subtraído.

Assim, também aparentemente, Ele punha aqueles homens em risco de vida. De fato, Ele lhes deu a vida e muito mais do que esta, oferecendo-lhes preciosíssimos dons espirituais.

Analisemos um pouco estes dons.

Eles viram o santo entrar em discussão com os hereges e presenciaram a glória da religião manifestar-se pelo fato de os sarracenos não serem capazes de discutir e se irritarem. Constataram, por esta forma, a força dos argumentos da religião verdadeira.

Mais ainda. Viram o santo sofrer uma prisão injusta, ser algemado e duramente tratado por causa da defesa que fez da doutrina católica. Mas, testemunharam também esse outro lado da glória divina, que é o fato de o santo, depois de ler o “Tratado da Assunção da Virgem Santa”, ter feito um pedido e ser atendido milagrosamente. Quer dizer, foi libertado, as algemas se quebraram e os muçulmanos ficaram estarrecidos diante do ocorrido. Portanto, trata-se de uma insigne graça concedida por Deus a esses homens…

Ademais, puderam perceber como seus captores se tomaram de respeito para com o santo no qual não acreditavam, tributando-lhe toda espécie de atenções. E mediram a envergadura da intervenção de Deus, ao ser cortado o pé de um homem que tinha desprezado a Bíblia. E auferiram a maldade humana quando, apesar disto, os sarracenos não se converteram. Enfim, contemplaram o que consideraram um castigo divino pela prisão do santo, ou seja, a derrota das tropas de seus perseguidores.

De maneira que, tendo posto a sua confiança em São Mayeul, foram atendidos com uma verdadeira superabundância, e esse fato ficou registrado na História. Quase mil anos depois de ocorrido, pessoas de um país e de uma cidade que eles não sabiam poder existir, recordam com devoção e enlevo esse episódio.

Percebemos, portanto, quanto de bom e edificante resultou dessas peripécias de São Mayeul, na aparência ruins, fadadas ao insucesso e próprias a induzir as almas a não confiarem na Providência Divina.

Porém, a verdadeira lição a se tirar é o oposto: cumpre confiar sempre no socorro do Céu. E com um requinte.Diz-se que a justiça é cega; pois muito mais o deve ser a confiança. A Providência espera que confiemos contra todas as evidências, contra todas as aparências, conservando-nos fiéis apesar de todas as circunstâncias em contrário. Quando a pessoa passa longo tempo se exercitando nessa confiança irrestrita, acumula para si um inimaginável tesouro de misericórdia e recompensa.

O êxito através de aparentes abandonos

Peçamos, pois, a Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos rogos de sua Mãe Santíssima e de São Mayeul, essa confiança cega que resiste a todas as evidências no sentido contrário, para a solução dos nossos problemas interiores, para obtermos misericórdia quanto aos nossos pecados e defeitos, e para alcançarmos a graça de progredirmos na santidade, em meio aos torvelinhos mais estranhos e às vezes mais lamentáveis da vida espiritual.

Confiar, confiar, confiar sempre, lembrando o que dizia São Francisco Xavier: o pior do pecado não é a falta cometida, e sim que a alma perca a confiança depois do pecado e continue a cair. Se o pecador não perder a confiança depois do pecado e confiar, mais dia menos dia ser-lhe-á dada a misericórdia.

Igual confiança devemos manter nas vicissitudes da nossa vida quotidiana, nas nossas dificuldades de apostolado, etc. E a esse propósito, convém considerarmos o seguinte. Segundo uma falsa filosofia do sucesso, tudo aquilo que fazemos tem de dar resultados visíveis e palpáveis, e todo insucesso nos deixa perplexos, não deveria existir e indica que Deus nos abandonou. Então, se tentamos, por exemplo, fundar uma escola e esta se fecha, significa que não a devíamos ter aberto. Deus nos abandonou. Se pretendemos convidar alguém para fazer parte do nosso movimento e este alguém não corresponde, é sinal de que Deus não nos foi favorável. E assim por diante.

Ora, compreendamos que Deus nunca opera deste modo. Ele nos reserva o êxito através de muitos aparentes abandonos, ou através de muitas catástrofes reais, que resultarão depois na vitória. E é essa aceitação das catástrofes intermediárias que nos proporciona o resultado pleno que devemos desejar. Às vezes empreendemos algo e logo sobrevêm os reveses, não aquilo que esperávamos. Depois percebemos que Nossa Senhora nos obteve coisa incomparavelmente melhor do que a almejada por nós. Dessa maneira, nunca acontece de uma confiança não ser atendida nem coroada de êxito, embora por vezes de um modo que supera as próprias exigências e pedidos da mais afetuosa e humilde confiança. Portanto, esperar contra toda esperança, eis a fidelidade perfeita nessa virtude, a qual notamos naqueles homens que acompanharam São Mayeul.

Peçamos então ao santo abade de Cluny, alcance-nos a graça de aplicarmos essa lição nos episódios de nossa vida, discernindo a mão de Deus a nos guiar através dos túneis e precipícios mais desconcertantes, e a providência de Nossa Senhora pairando sobre nós, para nos dar sempre incomparavelmente mais do que desejamos. Amém.