O papel da Eucaristia no mundo moderno

Diante de uma falsa concepção de modernidade, amplamente difundida em nossos dias, onde encontrar o equilíbrio que salvará o mundo hodierno? Dr. Plinio, por ocasião de um Congresso Eucarístico nos remotos anos 50, evidencia para seus ouvintes que a salvação só pode vir da Eucaristia.

 

Na linguagem corrente, “mundo” é o conjunto de toda a humanidade, ou o globo em que vivemos. Porém, “mundo” traz consigo um sentido mau, ele pode ser considerado como um reino das trevas, que tem Satanás por príncipe.

O que entendemos por “mundo moderno”?

Muitos são os sentidos que contém a palavra “moderno”. “Mundo moderno” pode ser considerado o mundo de hoje em relação ao de ontem, sendo que o de hoje não exclui o de ontem, pois foi graças ao de ontem que o de hoje existe.

Porém, por vezes a palavra “moderno” é empregada com o sentido de oposição ao passado.

Todavia, este termo tem um sentido ainda mais sutil e recôndito, e é este sentido que me cabe analisar.

Nós não poderíamos dizer que tenha se modernizado um país onde vigorasse o regime de separação entre a Igreja e o Estado, e este passasse ao regime de união; mas, muita gente dirá que se modernizou outro que passasse da união para a separação. Ninguém diria que passar do divórcio para a indissolubilidade do vínculo conjugal é modernizar; mas muita gente acha que passar da indissolubilidade do vínculo conjugal para o divórcio é modernizar.

Orgulho, sensualidade e modernidade

Nós temos então uma certa ideia de modernidade, em virtude da qual se entende que tudo quanto é laicismo, tudo quanto é igualitarismo, tudo quanto é conceder aos instintos do homem a liberdade de se divertir e de se satisfazer como entenderem, isso é verdadeiramente moderno.

De tal modo esse conceito existe e é ativo, que vós o podeis observar na vida contemporânea. Ela se transforma constantemente; a todo momento, um costume muda, uma instituição toma novo aspecto, outra instituição morre para dar lugar a alguma coisa de novo; observai todas essas mudanças, e, na sua quase totalidade, vós vereis nas transformações que se deram um progresso da ideia de igualitarismo, um progresso do princípio de laicismo, um progresso da sensualidade.

Observai na vida doméstica: a todos os momentos as barreiras que separam os pais dos filhos se atenuam, a autoridade do marido decai, a liberdade dos filhos cresce. E cresce para quê? Para que os filhos cumpram melhor o seu dever? Cresce para que sejam mais castos? Cresce para que eles sejam mais esforçados? Ou cresce, pelo contrário, para que eles tenham maior liberdade em fazer tudo quanto bem entenderem, de se atirarem às diversões imodestas, desonestas, de satisfazerem a sua sede de prazer, de romperem os grilhões de uma obediência indispensável que deve vincular os filhos aos pais?

Observai as relações entre as classes sociais. A todo momento mudam-se os trajes, e estes tendem a nivelar e equiparar as classes; a todo momento mudam-se as maneiras, e essas mudanças significam uma diminuição do respeito dos mais moços aos mais velhos, do homem à mulher, dos alunos aos seus mestres. De todos os lados, minguam as forças da autoridade, as forças da hierarquia, as forças da ordem, roídas por um movimento incessante, gradual, mas profundo, roídas por essa tendência imensa para o nivelamento, que acaba tendo no laicismo a sua expressão mais completa. Porque o homem, depois de não ter querido, na Terra, superior de nenhuma espécie, também não quer um superior no Céu, não quer saber de Deus, e, então, organiza a sua vida precisamente como se Deus não existisse.

O perigo da má concepção de modernidade

Este é o terrível fenômeno o qual mina a própria população católica, e no espírito do brasileiro — tão acomodatício, infelizmente — conduz a essa situação monstruosa: somos uma população de esmagadora maioria católica, as estatísticas indicam uma quase unanimidade de católicos no Brasil, mas se nós examinarmos a vida pública brasileira, a moralidade existente nela é como se Deus não existisse. Se nós examinarmos a nossa vida doméstica, veremos que cada vez mais ela vai sendo como seria se Deus não existisse. E, entretanto, as igrejas continuam cheias, os atos do culto continuam concorridos. É um fato indiscutível que todos se dizem católicos na ocasião do recenseamento!

Como explicar isto senão pela corrosão silenciosa, discreta, muda, terrível como uma lepra, feita por esse estado de espírito de organizar o mundo abstraindo de Deus, de conceber tudo ao signo da revolução e da desordem, de organizar tudo com base na sensualidade, o que é a própria desorganização?

E eu vos pergunto, minhas senhoras e meus senhores: se esta Nação, tão bela e tão digna de um melhor presente, se contorce neste momento numa das mais graves crises da História, não porque lhe faltem as condições materiais de existência, não é por que lhe falta aquela moralidade? Não é por que lhe falta aquela coerência da Fé com as atitudes práticas?

“Modernidade”, traço decisivo de nossa época

Assim definidos os vários sentidos da palavra “moderna”, nós podemos perguntar qual vem a ser o papel desta modernidade dentro do mundo moderno.

E nós poderíamos dizer que se no mundo a mentalidade dita moderna não conquistou tudo, ela é a grande força propulsora de quase todos os acontecimentos, a grande nota característica do momento. Ela é também o grande perigo, o traço forte e decisivo da época em que nós vivemos.

Onde buscar a salvação para o mundo moderno?

Mas, também é verdade que neste mundo — cada vez mais dominado pelo espírito acima descrito — há Alguém Eterno, Onipresente: Nosso Senhor Jesus Cristo. Presente em todos os sacrários da Terra, nos sacrários de ouro do Brasil e dos templos da Cristandade. Este Alguém, cuja presença não se percebe com os sentidos da carne, está presente na Sagrada Eucaristia. Ele é o grande Apóstolo do mundo contemporâneo, como de todos os tempos. E Ele fala constantemente às almas, ensinando-lhes pela linguagem muda — mas, infinitamente eficaz — que é a linguagem de Deus. Fala-lhes constantemente sobre a necessidade de o homem se opor às coisas que constituem a sua miséria, a sua degradação. Fala-lhes da necessidade de caminhar rumo a outro sentido, de se converter a Deus Nosso Senhor de todo o coração.

Por meio da Eucaristia Deus multiplica suas maravilhas

Minhas senhoras e meus senhores, neste mundo moderno terrível, dá-se o que sempre acontece quando se desafia a Deus. Deus multiplica as maravilhas, e, ao mesmo tempo em que a iniquidade vai chegando ao seu auge, nós notamos frutos admiráveis da Sagrada Eucaristia, frutos da graça, frutos que dão no apostolado um resultado incomparável. Enquanto multidões caminham para o prazer e para o vício, enquanto multidões silenciam diante do mal e se acovardam, vão se tornando, por toda parte, mais numerosas as almas que, elevadas por um anelo de perfeição absoluta, de ortodoxia completa, de obediência inteira à Igreja Católica, renunciam a tudo, dispostas a tudo enfrentar para afirmar apenas a doutrina da Igreja.

Eu me lembro, neste momento, da figura angélica de Santa Maria Goretti. Nesta época em que as praias são tomadas pelo neopaganismo que estadeia toda a corrupção da civilização moderna, uma virgenzinha entrega a sua vida com toda a resolução para não perder aquilo que tanto ama: sua virgindade. Quando se tem uma alma verdadeiramente eucarística, aprende-se a amar a virgindade como o dom mais precioso da vida.

Santa Maria Goretti é um fato culminante, será um fato único?

A Eucaristia faz de frágeis crianças, grandes heróis!

Eu me lembro, por fim, de um fato impressionante, ocorrido atrás da cortina de ferro, e noticiado pelo “L’Osservatore Romano”.

Os comunistas tinham invadido uma aldeia onde havia uma igreja católica. Alguns meninos ouviram dizer que, a horas tantas, eles iriam entrar na igreja, arrombar o sacrário e profanar as Sagradas Espécies.

Era noite, nevava, o luar brilhava de modo admirável. A igreja estava na solidão, e enquanto os fiéis dormiam em suas casas, a agonia se aproximava: o recinto sagrado vai ser assaltado. Nosso Senhor estará sozinho neste “Horto das Oliveiras”? Não, durante a noite inteira, três meninos, que pulam pela janela aberta, estão dentro da igreja.

Quando os comunistas entraram, uma das crianças tentou detê-los inutilmente a caminho do altar, e morreu massacrado. Outro defendeu a mesa da Comunhão, e morreu também. O terceiro pôs-se sobre o altar, cobrindo o sacrário com o próprio peito. O que fizeram, então, os bárbaros sacrílegos? Mataram este sacrário vivo antes de arrombar o sacrário de ouro, tão menos precioso do que aquele.

Por fim, apanharam as Sagradas Espécies e as profanaram. O inferno, certamente, exultou, mas muito mais exultou o Céu pelo sangue desses três pequenos mártires derramado na igreja, de modo não menos glorioso do que o dos mártires que derramaram seu sangue na arena do Coliseu.

Uma das maiores vitórias de todos os tempos

Aí está, como vedes, a ação da Eucaristia no mundo moderno. No momento em que a iniquidade está chegando ao seu cúmulo, a graça e a misericórdia chegam também ao seu auge. À fortaleza do vício e do mal, Deus opõe uma indômita fortaleza do bem. O triunfo da Igreja Católica se dará no mundo moderno. Esse triunfo se dará certamente pelo embate gigantesco entre as pequenas forças do bem e as enormes forças do mal, mas nós veremos talvez, e, a meu ver, provavelmente nos próprios dias em que existimos, nós veremos este fato com que a Igreja há de marcar uma das maiores vitórias de todos os tempos, e essa vitória será a vitória da Sagrada Eucaristia, fonte de graça aberta para o mundo por intermédio da intercessão de Nossa Senhora que, rezando sempre a Jesus Eucarístico, consegue para nós as graças de que nós precisamos.

A salvação vem da Eucaristia, por meio de Maria 

O papel da Sagrada Eucaristia no mundo moderno faz-me pensar em Nossa Senhora. Como não se pode falar em triunfos sem pensar em Maria Santíssima — Ela é a Medianeira necessária —, eu posso afirmar que um dos mais preciosos dons concedidos por Nosso Senhor, através da Sagrada Eucaristia, é a devoção a Nossa Senhora.

Esta devoção, tão característica e radicada em nossa Terra de Santa Cruz, há de salvar o Brasil. v

 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência pronunciada na solene sessão da ­Semana Eucarística de Campos dos Goytacazes, em 23/4/1955)

Revista Dr Plinio 147 (Junho de 2010)

 

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