O caminho da dor – I

A trajetória de um homem que ao longo de sua vida procura santificar-se é repleta de sofrimentos. Quem, à semelhança de Nosso Senhor, abraça com amor e resignação as cruzes que lhe advêm adquire têmpera moral, corrige-se de seus defeitos e chega à glória eterna.

 

Quais são as dores que uma pessoa precisa sofrer ao longo da vida?

A Providência permite que alguém, em determinado momento, sofra dores extraordinárias. Por exemplo, ser caluniado injustamente e, por causa disso, passar anos mal visto por todos aqueles a quem mais se admira.

Sacerdote caluniado por jansenistas

São Luís Grignion de Montfort, em uma de suas obras, menciona um padre, grande devoto de Nossa Senhora — para mim isso tem um luzimento parecido com o de uma canonização; ser elogiado por São Luís Grignion, enquanto grande devoto de Maria, é o auge dos auges.

Esse homem, que era muito bom padre, estava certo dia na sacristia para atender o público, quando lá entrou um dos meninos que serviam à igreja, o qual mexeu numa coisa qualquer, saiu correndo e dirigiu-se a uma rua ou praça, situada junto ao templo, gritando uma calúnia medonha, dizendo que o sacerdote tinha querido atentar contra a pureza dele.

Bastou esse menino, sem outras testemunhas, gritar na via pública tal calúnia, que se produziu na cidade uma emoção extraordinária. Embora esse padre fosse de vida muito digna, todos acreditaram na calúnia. O Bispo o privou dos cargos eclesiásticos, e o sacerdote, que possuía alguma coisinha para subsistir, durante dez anos viveu no horror e na rejeição de todo mundo. Dez anos se passaram, mas podia-se temer que isso durasse uma vida inteira…

Determinado dia, o Bispo se apresenta e lhe diz amavelmente: “Meu padre, faz favor, venha cá.” Ele se aproximou para beijar o anel do Bispo, o qual o abraçou. Vieram também outras pessoas as quais contaram que aquele menino, que se tornara moço, havia morrido. E, antes de falecer, diante de testemunhas, declarou que ele tinha feito aquela calúnia, pago por uma corrente teológica, na aparência católica, chamada jansenista, existente naquele local e que, aliás, tinha se espalhado como uma lepra por toda a Europa. Para difamar esse padre, que criticava muito aquela corrente, um dos seus chefes deu dinheiro ao menino.

Creio que a corrente interessada nisso — é opinião minha — mandou colocar gente próximo à igreja naquela hora, para acreditar imediatamente: “Oh! que horror! Mas imagine…”, e assim dar corpo à calúnia, a qual se difundiu como um mar sobre a cidade. E somente quando a Providência dispôs que esse menino, depois moço, mal à morte, dissesse a verdade — ele sabia que não podia ir para o Céu se não se retificasse, morreria em estado de pecado mortal e, com o inferno diante de si, acabou confessando —, o padre foi reabilitado. Mas foram dez anos terríveis.

Então, sobre um homem que levava sua vida normal de padre, com os sacrifícios inerentes à vida de sacerdote, de repente caiu como que um raio e estraçalhou-o durante algum tempo.

Madre Mariana de Jesus Torres padeceu tormentos do inferno

Creio que já narrei aqui a história da Madre Mariana de Jesus Torres, religiosa diante da qual se deu o milagre primeiro de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em Quito, no Equador. Tendo sido eleita abadessa do seu convento, ela começou a governar com muita bondade — era uma pessoa de virtudes eminentes; espero que seja canonizada. Havia ali algumas freiras novas, que eram descendentes de índios. Como manda a Igreja, com toda a sabedoria e razão, não fazer segregação racial, essas filhas ou netas de índios foram recebidas no convento.

Entretanto, uma delas, que tinha vontade de ser abadessa, tramou a destituição de Madre Mariana de Jesus Torres e a substituição por ela mesma, criando um choque entre as freiras índias e as freiras espanholas ou descendentes de espanhóis. Houve então uma divisão entre as religiosas, e afinal de contas tornou-se abadessa essa revoltosa, ou uma freira dependente da revoltosa. E a primeira coisa que fez foi mandar prender Madre Mariana de Jesus Torres na prisão do convento, porque naquele tempo os conventos tinham cárceres. E Madre Mariana ficou muito tempo presa, injustamente.

Durante esse período, vivendo a pão e água, com toda a serenidade, ela rezava pela alma de sua perseguidora. E a Providência deu-lhe a entender que essa freira era tão ruim, estava tão comprometida que só havia um jeito de salvá-la: Madre Mariana de Jesus Torres deveria oferecer-se para, em espírito, passar cinco anos sofrendo, inclusive fisicamente, as chamas infernais. Uma coisa horrorosa!

Ela contou depois que, às vezes, durante esse tempo, pensava estar condenada de fato; mas ao mesmo tempo tinha a ideia um tanto contraditória de que ela sofria isto para salvar a alma da outra.

Ela então dizia: “Se eu estou condenada, que minha condenação sirva pelo menos para salvar minha inimiga. Considero meu sofrimento por bem empregado”. É belíssimo!

Durante esses cinco anos, Madre Mariana sofreu barbaramente. Terminado o prazo, foi libertada, saiu do inferno, voltou a paz para sua alma e ela foi reeleita abadessa.

A freira revoltosa adoeceu, e Madre Mariana tratou-a com a maior bondade possível, de maneira que aquela freira acabou reconhecendo que tinha andado mal, pediu perdão e faleceu. E Madre Mariana de Jesus Torres recebeu a revelação de que a alma dessa freira foi para o purgatório, onde deveria ficar por um prazo longuíssimo, se não me engano, até o fim do mundo. Uma coisa de assustar! Assim ela salvou essa alma.

Foi um sofrimento que a Providência pediu a Madre Mariana e ela aguentou.

Médico famoso que ficou cego repentinamente

Lembro-me de um médico de São Paulo, que era famoso e rico. Ele estava assistindo a corridas de cavalos; pôs o binóculo e começou a acompanhar o percurso dos equinos na pista. Em certo momento, não viu mais nada. Achou esquisito, tirou o binóculo e nada enxergava. Ficou cego de repente, devido a um deslocamento de retina.

Como era muito rico, ele contratou o melhor oculista de São Paulo para ir com ele à Europa — os grandes centros médicos, naquele tempo, eram exclusivamente os europeus; a América do Norte ainda tinha se destacado muito menos –, a fim de consultar os maiores oculistas. Para abreviar, não tinha mais solução; ele continuou cego e morreu vinte anos depois.

A vida de um verdadeiro católico é repleta de sofrimentos

Mas não é propriamente desses sofrimentos que vou tratar. Isso é fácil compreender; são episódios que ocorrem na vida de uma pessoa.

O problema é diferente: todo homem, mesmo que não lhe aconteçam coisas dessas, deve sofrer muito na vida. O curso comum da existência de um homem verdadeiramente católico, apostólico, romano, praticante, é cheio de sofrimento, primeiro ponto.

Segundo ponto: com esse sofrimento o homem atinge a têmpera moral que deve possuir. Terceiro: ele se corrige dos seus defeitos. Quarto: com isto pode chegar até a santidade.

De maneira que essas grandes tragédias, esses grandes sofrimentos, com frequência acontecem na vida dos santos. Um teólogo do século XIX fazia uma afirmação interessante: “Dai-me um frade que cumpre simplesmente a regra de sua Ordem e eu vos darei um santo”. Como? Sofrendo coisas extraordinárias? Não. Aguentando o duro da vida, como Deus quer.

Como é esse duro da vida? Como os presentes neste auditório estão mais próximos do começo da vida do que do fim, e as suas memórias só versam sobre esse início, falemos dele.

Uma criança desobedece a seus pais…

Desde pequena, a criança começa a ser partilhada entre dois impulsos contrários. Por um lado, ela quer muito bem a seus pais, gosta de ser acariciada por eles, etc. Mas, de outro lado, os progenitores lhe dão ordens: não faça tal coisa, faça tal outra.

No momento em que os pais lhe dão uma ordem, põe-se para ela um problema: “Se você quer realmente bem a seu pai e sua mãe, não fará o que eles estão proibindo; se fizer, vão ficar tristes. Mas ninguém proíbe uma pessoa de fazer algo que não seja gostoso. Porque, se não é gostoso, ela não faz, e se faz é porque acha gostoso. Você recebeu uma proibição… Como é isso?” É um não gostoso que se põe no caminho da criança. Então vem a questão da escolha.

Imaginemos o seguinte:
O pai ou a mãe diz à criança: “Somente suba na cadeira, para pegar o brinquedo que está em cima do armário, se houver uma pessoa mais velha para ajudá-la. Do contrário, não dou licença”. É-lhe explicada a razão evidente: se subir sozinha, terá que fazer certo esforço para alcançar o objeto, digamos um boneco, poderá cair e se machucar. A criança mais ou menos entende isso.

Seus pais saem de casa, a criança fica só e sente o desejo de apanhar o boneco para brincar com ele. Surge, então, em sua cabeça uma porção de pensamentos: “Meus pais não estão aqui; quando voltarem vão me ver brincar com o boneco… Mas eles não mais se lembrarão se o boneco estava em cima ou embaixo. Subo na cadeira, pego o boneco e depois coloco a cadeira no lugar em que estava; posso passar um bom tempo brincando com o boneco, porque eles me disseram que eu ficaria trancado neste quarto umas duas horas, até que voltassem”.

Em certo momento, a vontade de brincar com o boneco é tão grande que a criança empurra a cadeira, sobe e pega o boneco; e na hora de descer da cadeira, com o boneco nas mãos, a cadeira cambaleia, a criança tem um susto enorme, quase cai, mas dá um jeito e se equilibra.

…e vêm à sua mente algumas questões…

Ela começa a brincar e, depois do primeiro momento, vem à sua mente uma questão: “Eu deveria ter feito o que fiz?”

E uma reflexão desagradável: “Mamãe, chegando, ao ver que estou com o boneco aqui, é capaz de lembrar-se que ele estava em cima do armário, e notará minha desobediência. Quem sabe se seria melhor, para evitar o castigo, eu desobedecer uma segunda vez, subir na cadeira novamente e pôr o boneco lá em cima? Já andei mal uma vez… Quando faltar mais ou menos meia hora para meus pais voltarem, colocarei o boneco no lugar em que estava”.

Mas o pensamento continua: “Agora que você andou mal, aguente. Brinque com o boneco e quando eles chegarem você dirá: ‘Olha, me perdoem, eu peguei o boneco’. Eles vão se zangar com você, será uma coisa desagradável”.

A criança cessa de brincar e diz a si mesma: “Por que pensar nisso tudo? Falta uma hora e meia para eles voltarem. Quando faltar quinze minutos, vou resolver esse problema. Agora vou brincar”.

Ficam, então, na cabeça da criança três convites. Primeiro: agir bem, quer dizer, contar para os pais o que ela fez; segundo: agir mal, desobedecer mais uma vez e colocar o boneco em cima do armário; terceiro: não pensar no problema, a não ser no último momento, e brincar, ou seja, gozar a vida.

É possível que, conforme a psicologia da criança, esse problema do boneco estrague a tarde dela. Ela pode ainda pensar: “Seria melhor eu não ter desobedecido. Nunca mais vou desobedecer”, Mas depois lhe ocorre esta ideia: “Mas a vida fica tão cacete se eu nunca mais desobedecer que, de vez em quando, desobedecerei”.

…cuja solução significa um programa para sua vida

Conforme a decisão dessa criança, que pode ter quatro ou cinco anos de idade, ela traçou um programa para sua própria vida: Ela escolheu o prazer ou a dor.

Digamos que a criança desobedeça e coloque o boneco novamente em cima do armário; os pais regressam, nada percebem e encontram a criança alegre, a mãe trouxe-lhe um docinho, e o pai, uma revista para ela ver. Agradam a criança e a vida continua.

Mais tarde a criança pensa: “Valeu bem a pena enganá-los. Fiz o que eu não devia, ganhei presentes e passei uma tarde gostosa. Em alguns casos, talvez minha atitude dê errado, mas tantas vezes dará certo que vou fazer assim.”

E pode começar a existir uma dobra no espírito da criança, devido à qual vai ficando cada vez mais difícil para ela andar direito, e mais fácil andar mal. Ela vai inventando jeitos, habilidades para desobedecer, ideias novas, outras travessuras para fazer coisas mais gostosas; quer dizer, desobediências ainda maiores, por onde, praticando uma falta venial, pecado de criança, ela compra um prazer. E essa dobra vai se marcando cada vez mais.

A grande batalha pela castidade

Imaginemos dois tipos de crianças. Uma, que sempre pratica o bem e nunca desobedece aos pais. Outra, fazendo sempre o mal e desobedecendo de duas maneiras: ou pensando: “Eu quero fazer o mal”, ou não pensando, mas no fundo praticando o mal.

Elas chegam aos dez anos de idade, mais ou menos, quando começa a crise da puberdade e se apresenta a primeira tentação contra a pureza. Qual das duas crianças está preparada para travar a grande batalha pela castidade? A criança da travessura, que seguiu a escola do prazer? Ou a séria, que pensa nas coisas retamente, ama a verdade? Esta última, quando se lhe apresenta a tentação da impureza, diz: “Isso não pode ser!” Ela reage e não peca.

Mas quanto à outra criança, há noventa e nove probabilidades sobre cem de que, se lhe apresentando o prazer da impureza, ela peque. Ela está habituada a não se recusar nenhum prazer. No momento em que aparece um prazer que seduz os homens muito mais do que brinquedos de criança, ela está muito menos preparada para resistir àquela pressão. Resultado: ela cai. E vai ser um homem impuro, porque foi uma criança que não quis a dor.

Essa criança deveria ter sido séria e não ter levado as coisas na brincadeira; precisaria ter raciocinado: “Eu não quero o mal, mas o bem. Percebo que estou indo por uma via ruim que vai me conduzir para o inferno; não quero isso. Amo aos meus pais, mas sobretudo amo a Deus, a Nossa Senhora, não quero ofendê-los. E, por causa disso, não vou fazer uma ação má”. Então, ela começa uma luta.

Lutando contra si, ela se torna forte. Se a criança vence a crise da pureza, ao cabo de ter feito a batalha da castidade, ela se torna um herói. O homem que nunca pecou contra a pureza pode dizer: “Graças a Nossa Senhora, pelo favor que Ela me obteve de Deus, sou um herói”.

Se ela pecou contra a pureza, mas se arrepende, poderá dizer: “Sou um pecador regenerado e a graça de Deus pousou sobre mim, arrancou-me do charco imundo onde eu estava, levantou-me; minha alma hoje é pura, graças a Deus. Nossa Senhora, Virgem Puríssima, rogai por mim!”

Um osso partido, quando se consolida, fica mais forte no local da fratura do que nos outros pontos. Assim também, a pessoa que caiu em matéria de pureza, arrependeu-se e depois praticou a castidade, torna-se mais forte.

Dizer não para si mesmo e sim à voz da graça

Ao fim de uma longa existência, oitenta, noventa anos, se a pessoa viveu sempre assim, ao morrer, os braços de Deus estão abertos para ela. Nosso Senhor Jesus Cristo lhe sorri, ela vê no peito do Redentor o Sagrado Coração que pulsa de amor por ela. Nossa Senhora a afaga e a conduz junto ao Divino Salvador. Seu Anjo da guarda canta, há uma alegria em toda a corte celeste por uma alma que entra para o Céu. O objeto dessa alegria é ela, porque no fundo compreendeu que toda a prática da virtude é um dizer não para si mesmo, e sim à voz da graça, a qual nos convida a cumprir o dever.

A graça diz no interior da criança: “Obedeça a seu pai, a sua mãe; obedeça a Deus que ordenou honrar pai e mãe.” Sendo fiel à graça, ela vai se fortificando e resistindo a outras tentações. Por exemplo, uma criança que aprende a não brincar com os brinquedos não permitidos, aprende também a estudar nas horas em que deve. É claro, porque uma coisa é reversível na outra.

Aprendendo a estudar nas horas em que precisa estudar, ela vence a preguiça de pensa, a preguiça do trabalho mental, e se torna uma pessoa que gosta de ler um livro, estudar uma doutrina, e pode ser um homem inteligente e até célebre. Pode tornar-se um defensor da Fé.

Se a criança não estuda, fica com preguiça de estudar. No tempo de minha infância, conheci um menino que às vezes batia na testa e dizia: “Eu sou burro! Mas não tenho culpa de ser burro.” E pedia aos colegas para fazerem redação para ele, a fim de ele copiar com a letra dele e passar no exame. Os colegas o atendiam, mas eu, que o conhecia bem, sabia que ele era burro de preguiça, mas se fizesse esforço poderia tornar-se uma pessoa razoável. Entretanto, devido à preguiça, ficou fadado a ser burro a vida inteira.

Continua no próximo número…

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 30/8/1986)

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