Dr. Plinio: Varão Católico


O panorama Católico na São Paulo de 1928 – II

Como descrevi em ocasião anterior, a maioria dos homens da camada social mais alta da São Paulo de 28 não praticava a Religião. Diziam-se ateus e procuravam evitar qualquer manifestação de apreço à vida de piedade.

Por outro lado, boa parte deles era honesta em seus negócios. Se alguém os chamasse de ladrões ou algo semelhante, reagiam com a força física. E naquele tempo empregava-se muito mais o uso das bofetadas e bengaladas, como vagos restos do duelo que chegou a existir no Brasil, embora à nossa maneira nacional...

Vestígios de Fé sob a aparência anti-católica

Cumpre mencionar, aliás, que esses indivíduos se apresentavam com um tônus peculiar aos de sua classe: porte ereto, decididos, os mais velhos usando bigodes retilíneos ou à la Kaiser, com as pontas viradas para cima. Os cabelos primorosamente penteados com fixadores franceses, norte-americanos ou argentinos – era famoso um produto portenho chamado Gomina –, formando uma espécie de capacete lustroso sobre a cabeça. Poucos dividiam o cabelo ao meio, muitos o penteavam inteiramente para trás, outros faziam uma risca de lado. Em qualquer desses estilos, o cabelo era sempre rigorosamente engominado.

Essa forma de se cuidar estava de acordo com os atores de cinema hollywoodianos, os quais ditavam a moda no tempo. E o perfil dos homens era bastante varonil, mesmo dos mais moços, que ora usavam bigode, ora não, conforme as tendências em voga. Estas, é claro, variavam: houve o período dos bigodes pequenos e ralos, horrendos, estendendo-se ao longo do beiço superior, sem subir até o nariz; já segundo costume diverso, o bigode era cultivado como um tufo, algo à la Hitler, outras vezes à la Adolphe Menjou (artista do cinema americano que bancava o aristocrata francês decadente), com um tufo grande e pontas compridas, considerado distinto.

Entretanto, analisando as fisionomias de certos homens assim, eu notava que eles se faziam de mais anti-católicos do que realmente eram. No fundo, conservavam resquícios de Fé. Muitos deles se envergonhavam e até sentiam horror da sua má conduta. Porém, não ousavam enfrentar a exigência absoluta do ambiente social de que o homem fosse impuro, sob pena de ser tido por efeminado. Além disso, eles caíam na vida imoral e se habituavam. Para vencer um mau hábito de dez, vinte, trinta anos, sem a oração e o auxílio da graça não é possível. Ora, eles não rezavam nem aproveitavam as graças devido à sua debilíssima generosidade. Resultado, iam rolando...

Na sua covardia espiritual, esses homens riam do puro, mas eu percebia que, com o escárnio nos lábios, havia a inveja no olhar, como se pensassem: "Se eu pudesse ser como aquele que é puro...!"

Continua...

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