Dr. Plinio: Princípios e Pensamentos


Noções gerais de temperamento II

Em anterior exposição evocamos alguns exemplos colhidos no reino animal, para ilustrarmos nossas considerações sobre temperamento. Havíamos tomado o paralelo entre o jacaré e o beija-flor, descrevendo mais as características do primeiro. Vejamos, agora, algumas peculiaridades do segundo.

Um pássaro "relacional"

Dir-se-ia que o colibri quase não se sente a si mesmo. Enquanto o jacaré é um individualista, ele é propriamente um relacional de primeira categoria. Percebe com imensa vivacidade o que se encontra ao seu redor. De longe, vê a flor a ser saboreada, voa em sua direção dando vueltas y vuelteretas, efetuando dois movimentos: um, na aparência perda de tempo, quando esvoaça diante da flor; e outro, quando a oscula com seu bico afilado e sorve-lhe com pressa inesperada todo o néctar desejado. Uma vez alcançado o objetivo, afasta-se com ainda maior celeridade, satisfeito, descrevendo uma trajetória retilínea, à procura de outras delícias.

O colibri, portanto, se relaciona de modo intenso com o mundo à sua volta. E, curioso, como é próprio do relacional, ele não se sente bem quando parado exceto para dormir, ou seja, para perder a consciência de si mesmo. Quando acorda, tem novo comprazimento, tomando contato com as coisas, procurando-as, encontrando-as, esvoaçando...

Creio ser um engano imaginar que ele só gosta de flor. Devo confessar que observei, desconfiada e atentamente, alguns poucos colibris, e estou perscrutando os fundos de minha memória para dar uma visão de conjunto sobre este pássaro. Quer me parecer que ele também se agrada muito com o ar e com o vento. Basta considerá-lo no seu vôo, para perceber seu contentamento e euforia. Assim como o jacaré, emparafusado na margem do rio, está derramado, o beija-flor, esvoaçando, sente a felicidade de fender o ar. A mim, dá-me a impressão de que em cada centímetro do seu vôo se desprende para ele uma forma de energia diferente, vinda das coisas e da terra. Ser-lhe-ia por demais monótono ficar sujeito à mesma energia. O que o satisfaz é a mudança, o sentir em si a harmonia das vibrações que variam, e isso indica seu caráter eminentemente relacional.

Sendo pequenino, deleita-se em criar um "ventinho" com seu fantástico bater de asas. E as reações que o homem manifesta ao receber uma brisa agradável na face, são análogas às do colibri quando voa de um lado para outro. O prazer do ar o inunda, ele se agrada e se encanta.

Nessa perspectiva, percebe-se portanto que o beija-flor possui um temperamento relacional, em que o próprio modo de ele se sentir abrange o contato com os outros, pede o movimento, e toda a sua constituição, carnatura, plumagem e vitalidade são calculadas de maneira a ele poder se deslocar como o faz.

Continua...

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