Artigo

A ordem temporal sacral, ministra da Igreja

Vejamos, em suas mútuas relações, os aspectos espirituais e materiais da vida temporal. De que maneira se relacionamentre si as atividades atinentes à formação da civilização, da cultura, do estilo, do ambiente, com as demais atividades cuja contextura forma a vida quotidiana dos homens e das sociedades?

Indispensável harmonia entre a vida mental e a material

Consideremos o assunto na esfera limitada de uma família. Por mais ambiente que ela tenha, por mais que sua vida social-espiritual seja intensa, seria um erro imaginar que cada uma de suas atividades é dirigida pela preocupação inteiramente consciente, intencional, de formar um estado de espírito, e de o definir. Ela age em geral com a mesma naturalidade e a despreocupação com a qual o corpo respira ou o sangue circula nas veias. Ao adquirir um móvel, fazer uma cortina ou escolher um quadro, as preocupações conscientes de ordem absolutamente prática, de caráter inteiramente circunstancial, podem até ter um papel preponderante. Não obstante, as forças mais profundas da alma cooperarão também, e deixarão sua marca no ato, sem que muitas vezes a própria pessoa que adquire o móvel, que escolhe a cortina ou o quadro o perceba. São afinidades naturais, vigorosas, mas tão discretas entre os vários bens adquiridos pelas sucessivas gerações de uma família, e que coexistem numa mesma casa, que por vezes só as pessoas estranhas ao lar são capazes de notar as características da atmosfera doméstica.

É o que explica a formação dos estilos. Nenhum deles resulta de um planejamento de gabinete, mas é obra de uma sociedade inteira. Os artistas não são propriamente os criadores do estilo em uso em uma sociedade, mas seus intérpretes, seus propulsores na linha em que se vai desenvolvendo a mentalidade social.

É o que explica também que, nos estilos verdadeiramente produzidos por uma sociedade, o prático e o belo, os elementos de utilidade física e as características de expressão mental se fundam tão harmoniosamente.

A vida propriamente mental se entrelaça tão intimamente, se embebe tão profundamente, se entranha tão indissociavelmente na vida material, como a alma no corpo. E é nesta interpenetração que está a garantia da sanidade e da autenticidade de uma e de outra.