Um “fiat!” que ecoou na História

Na festa da Anunciação do Senhor, em 25 de março, Dr. Plinio medita a narração evangélica, as cogitações de Maria diante da saudação do Anjo, as alegrias d’Ela na vida privada de Jesus, suas perplexidades durante a Paixão, e, sobretudo, sua submissão à vontade de Deus.

No linguajar comum do homem hodierno, certos conceitos como os de esplendor, pompa e glória, tendem a se confundir com a ideia de riqueza e a reduzir-se, em última  análise, a uma questão econômica. Ora, a Anunciação ocorreu numa casa pobre, mas foi um episódio esplendoroso, pois nele deu-se a conhecer o nascimento milagroso de  um Menino, o qual reinaria no trono de David e teria o império sobre toda a Terra nos séculos futuros.

As cogitações de Nossa Senhora sobre o mistério que Lhe era anunciado

A interrogação de Nossa Senhora — “Se Eu não conheço varão, como dar-se-á isso?” — nos leva ao seguinte pensamento: ou Ela havia recebido de Deus a revelação de que  seria sempre virgem, ou, pelo menos,  sentira profundamente na alma o convite para a virgindade perpétua e não restava a menor dúvida de que este chamado vinha de  Deus.

Estava implícito em suas palavras esta reflexão: “Sei que para conciliar essas atitudes aparentemente contraditórias de Deus — que me inspira a virgindade, porém me quer  como mãe do Salvador —, acontecerá uma maravilha, porque Ele nunca se contradiz”.

O Evangelho narra que Ela cogitava sobre o que seria essa saudação. Maria não colocava em dúvida que aquele Anjo viesse realmente da parte de Deus, pois o tratou como um emissário do Altíssimo. Mas a cogitação d’Ela incidia sobre o mistério existente na saudação: como explicar que seu Filho pudesse ter todo aquele poder que Lhe era  anunciado?

Como descendente de David, Nossa Senhora sabia que o Filho d’Ela nascido também o seria. Tinha ciência de que São José, seu esposo, era da mesma estirpe real, e que,  embora o Menino não nascesse dele, seria descendente do Rei-Profeta segundo a lei.

Há uma bonita expressão usada pelos teólogos: “Caro Christi, caro Mariae” — a carne de Cristo é a carne de Maria. Ou seja, d’Ela Jesus herdou a carne e o sangue do grande  monarca de Israel.

Ao se ler a narração evangélica, fica- se com a forte impressão de que  Nossa Senhora cogitava notadamente sobre o significado das palavras “lhe dará o trono de David”, e  sobre a natureza do reino que seria outorgado a seu Filho. Daí sua interrogação: tratava-se do nascimento do Messias, cuja vinda Ela tanto ansiava?

A resposta do Anjo começa por dizer: “Não temas, ó Maria!” Ela tinha, portanto, um certo temor. Como se explica que, concebida sem pecado original, e isenta de qualquer imperfeição moral, Ela pudesse ter medo de um Anjo?

A presença de um espírito angélico, e sobretudo a de um Arcanjo, é algo de tal densidade que deixa perplexo o ser humano. Era natural que Maria sentisse todo o peso da  presença do mensageiro celeste. Porém, não foi o Anjo que Lhe causou temor, mas a comunicação da impressionante missão que a Ela cabia, pois na sua humildade teve  receio de não corresponder de modo perfeito aos sublimes desígnios de Deus.

Mas a explicação do Anjo: “Tu encontraste graça diante de Deus”, inundou- A de tranqüilidade e paz. Os exegetas afirmam que no momento em que Ela proferiu o “Ecce ancilla Domini”, o Espírito Santo concebeu Nosso Senhor no claustro imaculado  da Santíssima Virgem.

Assim, aquele diálogo, tão simples mas tão belo, teve como esplendorosa conseqüência a Encarnação do Verbo.

A vida e as cogitações de Nossa Senhora em Nazaré

Nossa Senhora guardou as promessas do Anjo no interior de sua alma, e ao ver o Menino Jesus, segundo expressões do próprio Evangelho, crescer em sabedoria, idade e  graça diante de Deus e dos homens, naturalmente pensava na missão que Lhe estava reservada.

Sabendo que seu Filho era Deus, Nossa Senhora julgava explicável que Ele obtivesse os êxitos mais retumbantes e extraordinários. E terá Ela pensado, ao ver Jesus se tornar  moço, que em certo momento Ele sairia da casa paterna para dar cumprimento à sua missão?

Porém, essa hora ainda demoraria a chegar. Durante trinta anos, Ele quis viver apenas com Ela e São José. Ao que tudo indica, o chefe da Sagrada Família faleceu antes de Nosso Senhor começar sua vida pública.

A tradição nos atesta que Nossa Senhora e Jesus estavam presentes à cabeceira de São José no momento de ele exalar seu derradeiro suspiro: razão pela qual, o grande Patriarca é também o padroeiro da boa morte.

Como gostaríamos de assistir essa cena! Um leito pobre, Nossa Senhora de um lado, e de outro, Nosso Senhor, atraindo para Si a atenção de Maria e a do moribundo, aos  quais dirigia sublimes palavras de conforto. Nossa Senhora, com sua insondável solicitude, servia a São José, orando por ele e também o consolando…

Que revoada de Anjos! Em certo momento, as sombras da morte se tornam mais próximas. São José começa a notar que aquele convívio, para ele até certo ponto um Céu, iria cessar. Mas, de outro lado, sabia que lhe aguardava uma gratíssima missão: chegando ao Limbo dos Patriarcas, anunciaria que o Messias se tinha encarnado no seio da  Virgem Maria. Provavelmente, só com a menção dos nomes de Jesus e de Maria aquele lugar inteiro se teria iluminado…

Após a morte de São José, Nossa Senhora terá pensado a respeito de Jesus: “Quando começará Ele sua vida pública, e cessará nosso convívio? Com quem ficarei? Que  notícias terei d’Ele? Quando terá início o seu Reino? Assistirei a implantação dele, estando ainda na Terra ou já no Céu? “Inúmeras vezes, conversando com Ele, notei que  sua fisionomia foi se tornando mais tristonha. E na medida em que a tristeza pode ser comparada a uma sombra, foi se tornando sombria. Ele me tem falado de um imenso  sacrifício que deve padecer.

“Sei que é a morte de Cruz, à qual se referem as Escrituras, e que Ele mesmo já me anunciou. Vejo-me, de um lado, cercada de esplendor, e de outro, da perspectiva do  fracasso tenebroso.”

Passam-se os dias, os meses e os anos… Trinta anos viveu Jesus sob o mesmo teto com Ela, adornando sua alma com maravilhas cada vez maiores.

Um dia — pode-se conjeturar — Ele se aproxima d’Ela e, com veneração e carinho ainda mais intensos, envolvendo-A com o olhar, Lhe diz: “Minha Mãe, chegou o  momento!” Talvez tivesse dito isso com um sorriso cheio de saudades, mas saudades antecipadas, cheias de sorriso. Era a missão d’Ele que ia começar e desfecharia na sua glória.

Ele sabia que, essencialmente, caminharia em direção à Cruz. Mas nesse percurso recrutaria os Apóstolos, os discípulos e todos os elementos da Igreja nascente. Pregaria  durante três anos sua maravilhosa doutrina, praticaria milagres que haveriam de impressionar e persuadir o mundo inteiro, fundaria a Igreja, instituiria os Sacramentos. E depois morreria…

O que Mãe e Filho se terão dito nessa despedida? Terá sido uma surpresa que durou um minuto? Ou Ele A avisou com um mês de antecedência? Nessa hipótese, para Nossa  Senhora esse mês terá parecido um minuto, porque Ela quisera uma despedida muito mais prolongada?

São maravilhas que nos serão reveladas no Céu, e diante das quais não teremos palavras para manifestar nossa veneração e adoração. Após Nosso Senhor ter iniciado sua  vida pública, Nossa Senhora é procurada pelas santas mulheres e se incorpora a essa família de almas cujos cuidados Jesus Lhe confia.

“Conversas” de Nossa Senhora com o Espírito Santo

Todas essas considerações nos parecem de extrema beleza. Porém, como são restritas diante de realidades ainda mais altas! Sabemos, por exemplo, que Nossa Senhora é a  Esposa do Divino Espírito Santo. Quantas graças a Terceira Pessoa da Santíssima Trinidade Lhe concedia, para que conhecesse e meditasse em tudo quanto acontecia? Quantas perguntas não terá feito ao Divino Consorte, dirigindo-se a Ele com as palavras: “Meu Rei, meu Senhor e meu Esposo”?

Se o relacionamento d’Ela com seu marido segundo a lei, São José, era tão bonito e tocante, como não terá sido com o Divino Espírito Santo? Por exemplo, no momento da  Encarnação, Ele se tornou Esposo d’Ela.

Ora, no ato dos desponsórios, o homem oferece à sua mulher um presente magnífico. Que dádiva extraordinária o Divino Espírito Santo terá concedido a Maria? Que graças?  Que esplendores? Tal escapa à nossa pobre imaginação…

Esperanças e apreensões de Nossa Senhora

Durante a vida pública, ao contemplar as pregações e milagres de Nosso Senhor, parecia a Nossa Senhora que a promessa da glória estava se realizando. Mas, de outro lado, com seu discernimento dos espíritos incomparável, Maria Santíssima percebia que Satanás rondava pelo ambiente, e sentia o ódio que ele incutia em algumas almas.

Pensemos noutra circunstância. Como diz São Tomás de Aquino em seu belíssimo hino eucarístico “Lauda Sion: In suprema nocte cenæ”, na última noite da ceia, véspera da Paixão, “recumbens cum fratribus”, estando sentado com os irmãos, que são os Apóstolos, Nosso Senhor celebrou a primeira Missa.

Provavelmente, Nossa Senhora se encontrava no Cenáculo, e recebeu também a Comunhão. Que maravilha não terá sido a Primeira Comunhão de Nossa Senhora! Mas, Ela ouviu igualmente a terrível profecia: “Um de vós há de Me trair”. Viu Judas sair de modo apressado do Cenáculo, com essa intenção.

O Evangelho narra a cena de modo tocante, com palavras que têm um caráter muito simbólico: “Fora, era noite…”

Ela viu Nosso Senhor sair em seguida. Talvez Ele tenha se despedido d’Ela. Ter-Lhe-á dito que era chegada sua hora, ou A deixou na dúvida? Ele e os discípulos se retiraram depois de  terem cantado um hino pascal, e penetraram naquela mesma noite, na qual ecoavam os passos de Judas.

O que terá acontecido com Nossa Senhora nos instantes seguintes? Provavelmente, o fundo de quadro da meditação d’Ela eram as promessas de triunfo recebidas na Anunciação. Porém, havia o preço da glória, não mencionado pelo Arcanjo naquele jubiloso encontro, e esse preço era a dor.

Pensemos, então, na Virgem Dolorosa, na hora mais terrível da Paixão, no meu entender o momento em que Nosso Senhor exclamou em altos brados: “Meu Pai, Meu Pai,  por que Me abandonastes?”

É um brado de sofrimento e de dilaceração, mas são também as palavras iniciais de um Salmo cujo triunfante tom final parece prenunciar a Ressurreição. Que sentimentos  terão ido na alma santíssima de Maria, ao ouvir esse clamor de Jesus?

Por outra parte, Ela vislumbrou, antes da morte d’Ele, o primeiro clarão de alegria, quando O ouviu dizer ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Essa afirmação  significava que Nosso Senhor nunca perdeu de vistas, mesmo em meio às dores mais lancinantes, que Ele estava assim abrindo para a humanidade as portas do Céu.

As promessas divinas se realizam em meio a aparentes desmentidos Das presentes reflexões nos é dado tirar uma conclusão que pode ser resumida em poucas palavras. Com a Anunciação, foi comunicada a Nossa Senhora, e através d’Ela a todo o gênero humano, a Encarnação do Verbo. Com o seu “Sim!”, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

No dia da Anunciação, a Palavra de Deus raiou num amanhecer de alma repleto de louçania, com promessas superlativas. Mas se as promessas de Deus suscitam as mais  alegres esperanças, elas soem passar também por aparentes e terríveis desmentidos. É o modo de agir da Providência.

Nesse sentido, a Anunciação foi também a proclamação de que a autêntica glória não consiste em não sofrer humilhações e derrotas, mas, sim, em lutar pela Verdade. A alma santíssima de Nossa Senhora, habituando-se às promessas, às alegrias e aos desmentidos, constitui para os católicos o sublime exemplo de submissão à vontade de  Deus, manifestada por Ela, de modo inigualável, no humilde “fiat” que ecoou por toda a sua vida.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

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