Procurar sempre o mais perfeito

A alma inocente, favorecida pela graça, tem um movimento ascensional em direção a Deus, desejando sempre o maravilhoso. Entretanto, a Revolução procura perverter as pessoas desviando-as desse caminho, apresentando-lhes falsificações da verdade, do bem e do belo.

 

No fundo, o homem encontra aquilo que procura. E, segundo uma expressão francesa muito adequada, “quem não sabe o que procura, não sabe o que encontra”. Resultado: aquele que procura uma determinada coisa a encontra; se não a procura, ele acaba não a encontrando.

O princípio de todas as virtudes

Em termos mais precisos, se uma alma é colocada diante de uma coisa verdadeira, ela se pergunta qual é a conclusão, qual a verdade que parte daí. Diante de uma coisa boa: pode haver ainda melhor? Diante de uma coisa bela: há um modo de embelezá-la mais? Quando a alma tem esse movimento, ela possui em si o princípio de todas as virtudes. No fundo, a alma é feita de tal maneira que, colocada diante daquilo que é segundo Deus, ela quer ainda mais.

A verdade, o bem, a beleza criados são reflexos do Bem, da Verdade, da Beleza incriados. E quando a pessoa, diante da verdade, do bem e da beleza criados quer mais e mais, ela procura Deus. Sua alma está em ascensão, buscando crescer cada vez mais e atingir o píncaro. Instintivamente, por causa dessa disposição prévia de espírito, ela procura sempre o mais perfeito. E o resultado é que encontra.

Então, por exemplo, diante de um lindo copo de cristal, a pessoa pode se perguntar: com um quartzo rosa, meio lilás, elaborado, não se faria também um copo bonito? Que pena as esmeraldas serem tão pequenas, porque não é possível fazer um copo de esmeraldas… Mas como seria bonito um copo de esmeraldas! O que significa esse movimento da alma? Significa desejar mais alguma coisa, que é segundo Deus.

Uma pessoa ouve falar das rodas(1) da Santa Casa de Misericórdia, da caridade daquelas freiras, e no primeiro momento imagina: Como seria bonito que, em vários lugares do mundo, freiras vestidas como Santa Catarina Labouré — que recebeu a visão da Medalha Milagrosa —, com aquele chapéu branco, hábito preto, cuidando das criancinhas dos outros, com uma pena, uma condescendência que as mães não tiveram, ensinando a Religião e aguentando as ingratidões das crianças, que às vezes são ingratas com os pais e quanto mais o serão com quem não são os pais! E carregando a cruz que o pai, ou a mãe, prevaricador não carregou! Que bonito refletir: de repente algo da graça, através da freira, incide sobre a criança e a alma desta vai se modelando!

Depois de ter imaginado isso, vem uma pergunta: como seria com Santa Catarina Labouré? Poderia eu imaginá-la? E posteriormente surgiria outra indagação: e se uma criança ignota fosse parar nos braços de Nossa Senhora, como a Santíssima Virgem faria?

Querer melhorar continuamente

Por que a alma vai por si imaginando o mais maravilhoso? Porque ela tem esse movimento ascensional rumando para Deus, que é o dinamismo de sua própria inocência, favorecido pela graça, naturalmente. Com essas cogitações, que são naturais à alma inocente, ela procura coisas maiores e, procurando, encontra. E a alma tem a proteção do anjo da guarda, de Nossa Senhora.

Representam-nos tantas vezes o anjo da guarda amparando uma criança para não tropeçar numa pedra; e é verdade. Mas quanto mais ele a ajuda para não tropeçar num sofisma, num erro, para acertar com a verdade, ter mais estímulo para querer o bem, amar a beleza! Quantas e quantas vezes movimentos bons de nossa alma foram do anjo da guarda, que cochichou ao nosso espírito, sem percebermos, tal coisa, tal outra, e caminhamos para frente! Nossa alma, angelizada, transportada por ele, voa de degrau em degrau, sob os auspícios e o bafejo dele. Isto é subir!

Então, procurando se encontra, e assim se produz também formas de perfeição cada vez maiores. Começam a aparecer os artistas, os literatos, os pensadores, os filósofos, os santos, a civilização inteira floresce. É a Cristandade, a marcha para cima. Num ambiente assim, em que as pessoas são ávidas disso, cada passo numa das vias — verdade, bem ou beleza — todo mundo nota: Olha aquele lá, que vocabulário! E aquele outro, que maneiras educadas! Aquele outro, que bondade! E aquele outro, que firmeza no pensar e que coerência! E assim por diante. E todos os pequenos progressos são notados, aplaudidos por todo mundo, e tudo na sociedade trabalha para que a virtude seja fácil de praticar e atraente. É o desejo de melhorar continuamente.

Às vezes a Revolução apresenta algo com ares de “verum, bonum, pulchrum”

No meio disso, que estou apresentando quase como uma regra implacável, há, entretanto, muito de placável, que é celestialmente desconcertante. Na vida de todo mundo que vai seguindo o caminho da ascensão, de vez em quando se levanta — todos conhecem a cobra tipo naja, que se ergue e se apresenta ao homem, pondo a língua e querendo morder —, a semelhança de uma naja, uma tentação. E essa tentação é algo da Revolução que procura apresentar-se com ares de “verum, bonum, pulchrum”, como quem diz: “Olha, eu tenho até mais do que o caminho do bem que você está trilhando; siga-me!” Isso houve em várias épocas da História, como exemplificarei.

Há também o contrário, no caminho da Revolução: o “verum, bonum e pulchrum” às vezes atuam como Nosso Senhor fez com São Pedro. Jesus parou e olhou para ele. E alguns fazem como São Pedro: se deixam apanhar por aquele olhar, convertem-se e choram amargamente. Os que estão neste auditório, olhando para o tempo em que não pertenciam ao nosso Movimento — e andavam por esses caminhos que são descaminhos —, é impossível não se lembrarem de uma ou outra ocasião, quando de repente algo de “bonum”, ou de “verum”, ou de “pulchrum” lhes brilhou mais. Então vacilaram um pouco, mas não desviaram o caminho; até o momento em que Nossa Senhora lhes fez aparecer a Vocação.

São as horas terríveis e, ao mesmo tempo, comovedoras da História. Há ocasiões da História em que o mal se apresenta sem máscara e diz: “Eu sou o mal! Sigam-me!” E as pessoas o seguem. Em outras ocasiões, o mal se apresenta com aparências de “verum”, de “bonum” e de “pulchrum”. Olha resplandecente e declara: “Vou fazer um raciocínio e ninguém conseguirá desmontar!” Ou então: “Vou praticar um ato de virtude que ninguém conseguirá imitar!” E faz certo ato. Ou então: “Vou fazer uma coisa linda, que ninguém poderá copiar nem, menos ainda, exceder!” E funda uma escola artística. E diz a cada pessoa: “Você não quer “verum”, ou “bonum”, ou “pulchrum”? Venha comigo, eu lhe dou. Olha isso, aquilo, aquilo outro!”

Há uma forma do obsessivo nesse convite, semelhante ao guizo da cascavel. Antes de a cascavel morder ela toca aquele guizo. Assim também faz o mal: “Olha aqui! Olha aqui! Olha aqui!”

O princípio da tábula rasa

Estou me lembrando de uma coisa assim, que é um princípio filosófico o qual se apresenta com uma clareza extraordinária, mas é uma mentira em nome da qual não sei quantos despencaram ladeira abaixo. É o princípio da tábula rasa, que diz: antes de estudar certa coisa, devo fazer abstração de todos os dados que eu tinha sobre ela. E antes de julgar, também devo fazer um estudo novo. Porque o que eu sabia antes pode deformar o meu pensamento. Vou partir de um grau zero, como uma tábua rasa, sobre a qual um carpinteiro passou a plaina; aí estou em condições para ter um pensamento límpido e verdadeiro.

À primeira vista, parece a coisa mais evidente que há. O indivíduo pensa: “Eu me dispo de preconceitos e faço um raciocínio sereno”. Aparentemente é de uma verdade que tem garras, arrasta. Nosso instinto diz: há algo nisso de falso. Mas se alguém pedir: “Apresente o argumento verdadeiro contra isso!”, temos que pensar muito para arranjar um castelo de pequenos argumentos a fim de mostrar que o princípio da tábula rasa é errado.

Quem é intransigente com relação aos maus está progredindo na virtude

Mas, quando o mal toma ares de “bonum, verum, pulchrum”, é apenas por algum tempo. Pouco depois, ele deixa a máscara no chão e mostra a careta por inteiro. Mas o indivíduo já se habituou, se viciou com o mal e aí não tem mais jeito; ele cede mesmo. Quer dizer, é uma forma de desnaturar, de corromper, de deteriorar as pessoas. No fundo, quem segue o mal tem uma sensibilidade tão fina que, quando o “verum, bonum, pulchrum” é apresentado sob máscara, as pessoas, nas épocas de transição, se comovem e aplaudem esse “verum, bonum, pulchrum” falsificado. Aplaudem porque sentem que é falsificado; percebem ser uma ponte para elas mesmas, sem muito choque, chegarem ao mal.

Eu termino com esta conclusão: prestem atenção, quem possui muita percepção para saber quem não presta, tem vontade de subir. Quem possui pouca percepção para saber quem não presta, tem vontade de descer. Quem tem muita moleza com aquele que não presta, é conivente e está descendo. Quem possui muita intransigência com aquele que não presta, é bom e está subindo. Essas coisas à distância se percebem, se discernem. O resto não é senão hipocrisia.  v

 

(Extraído de conferência de 4/4/1981)

 

1) Caixas em formato cilíndrico colocadas junto às portarias de conventos e Santas Casas de Misericórdia, destinadas a receber crianças abandonadas pelos pais.

 

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