À procura do ótimo

Em mais uma reunião da série auto-biográfica na qual narra como se formou seu espírito, Dr. Plinio satisfaz o filial interesse de o de seus jovens ouvintes, e lhes descreve feitios personalíssimos da sua alma.

 

Dizer-lhes como se desenvolveu em mim o desejo do ótimo me traz recordações das minhas primeiras batalhas espirituais, de como elas nasceram, se desdobraram e desfecharam em outras pugnas, até chegar às de hoje.

Lembro-me de como se foram forjando em meu espírito alguns princípios que me conduziram ao amor não só ao bem, mas ao mais alto grau de bem em todas as coisas, isto é, ao ótimo. Antes de prosseguir, devo dizer que não é verdadeira a generosa afirmação aqui expressa, segundo a qual em minha alma nunca houve tendência para o medíocre ou para o ruim. Todos somos concebidos no Pecado Original e todos temos, por nossa natureza decaída, inclinações más ao lado de boas. E devemos combater as más, logo que elas se manifestem. Isto posto, de que maneira o desejo do ótimo histórica e concretamente se desenvolveu em mim?

Lembro-me de dois — é possível que fazendo um esforço maior de memória eu completasse o quadro — elementos fundamentais para isso. Em primeiro lugar, certos enlevos por determinadas virtudes e qualidades, mas principalmente pela Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, conhecida na Pessoa adorável e divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, na pessoa de Nossa Senhora, a Mãe perfeita por excelência, e, em grau menor, refletida na pessoa de minha mãe terrena.

Havia momentos em que a santidade e o bem da Igreja — é o que me vinha com mais frequência ao espírito — me apareciam tão clara e nitidamente, que eu ficava deveras entusiasmado. Em segundo lugar, concomitante a esse entusiasmo pelo bem, havia em mim um horror a determinados defeitos e a certos estados de alma, assim como a ideia clara de que, se eu não tomasse cuidado, poderia incorrer neles.

Há pouco tempo me caiu sob os olhos um livro sobre a vida de São Vicente Mártir. Impressiona ver como São Vicente, em meio às piores torturas do martírio, no momento em que o governador romano, para atraí-lo à apostasia, começou a lhe sorrir, ele, que já enfrentara torturas de arrepiar, disse ao governador: “Temo mais o teu sorriso do que todos os teus  instrumentos de tortura!”

Eu também me lembro dos sorrisos do mundo, dos sorrisos da vida quotidiana, tão mais risonha, tão mais amena, tão mais alegre naqueles remotos anos 20 do que nesses tardios anos 80! Era tudo tão diferente! Ainda havia um resto de perfume da “Belle Époque” que trazia consigo um pouco das brisas do “Ancien Régime”, que por sua vez tinha uma certa continuidade histórica com a Idade Média. Nessa minha época de menino havia algo, que valia a pena apreciar na vida.

Recordo-me das delícias daquele tempo. A “Fräulein” Mathilde era uma  alemã habituada fortemente aos prazeres germânicos. Costumava nos levar à confeitaria Vienense, pois os deleites degustativos sempre representaram um grande papel na educação que ela dava. Lá havia um padeiro suíço, de nome Moritz ou semelhante, que fazia uns bolos cobertos de fermento de cerveja, realmente de sabor bem vigoroso.

Outras vezes íamos à casa Fuchs, onde havia exposição de brinquedos. Oh, os brinquedos daquele tempo! Não se pode calcular hoje o que eram: extraordinários e caríssimos! Mas de maravilhar qualquer criança! Levavam os meninos à loja para escolherem um brinquedo. E, claro, tomavam isso como pretexto para ver a loja inteira. Naturalmente, acabavam se perguntando por que deveriam escolher um brinquedo só. Não podiam ser dez? Porque toda criança tinha vontade de comprar quanto brinquedo encontrasse ali.

Tudo na vida era mais entretido e mais agradável do que nos tempos atuais.

Mas os sorrisos das pessoas me faziam perceber que, de sorriso em sorriso, em determinado momento eu acabaria adquirindo o estado de espírito de uma delas, e com ele, o defeito de uma ou de outra. Isso me causava a sensação parecida com a vertigem das alturas, aquela possibilidade de derrapar se não se presta atenção.

Daí, um movimento de recuo e de horror: se eu não me afastar muito de certos estados de espírito, eu rolo abismo abaixo. Não é possível encontrar uma posição de meio-termo em que eu consiga me equilibrar.

Eu percebia que o meio-termo era uma mentira e que ou eu me afastava inteiramente do perigo ou, ficando no meio-termo, acabaria tendo apetência pelo abismo, porque o meio termo é a união ilegítima entre o píncaro e o precipício. Estabilidade no meio-termo é um engodo, não existe, pois nele não se tem vontade de atingir o ápice, mas se tende ao abismo.

O meio-termo era, portanto, por excelência o inimigo que eu devia evitar se não quisesse despencar. Daí nasceu minha decisão de procurar o ótimo, que, não fosse esse horror do péssimo, talvez eu não a tivesse tomado. Vi-me colocado no dilema entre rumar para o píncaro do ótimo, para o vértice de bem, ou rolar para o vórtice do péssimo. Esses foram os dois elementos fundamentais na  minha ascensão para o bem: o enlevo por alguns pontos e o horror por outros.

Ou se praticam todas as virtudes, ou não se pratica nenhuma

Havia um terceiro elemento que, graças à intercessão de Nossa Senhora, não tardou a se formar em meu espírito. Era o seguinte princípio, que compreendi com clareza: é uma mentira imaginar que se pode praticar bem só uma, duas ou três virtudes. As virtudes são irmãs indissociáveis. Ou nós as praticamos todas ou não conseguimos praticar nenhuma. Portanto, as virtudes que eu  reconheço pela razão serem louváveis, mas não despertam em minha alma entusiasmo especial, mesmo essas eu tenho de praticar. E tenho de observar na íntegra, porque se não for assim, não  praticarei nenhuma. É como uma corrente da qual se rompe um elo só: ela fica sem valor.

Tomemos, por exemplo, a mentira. Qualquer um compreende que a mentira é um mal. Não se deve mentir. Aquele dito cínico de Talleyrand: “a palavra foi dada ao homem para ocultar o seu pensamento”, não passa de um gracejo de quem não tem sensibilidade moral. Porque qualquer um entende que a palavra foi dada ao homem para exprimir o seu pensamento. Portanto, não se deve mentir.

Mas eu compreendo que a virtude da veracidade talvez não suscite o máximo do entusiasmo de alguém. E que se pode, por exemplo, ter muito mais entusiasmo pela pureza, pelo heroísmo ou pela Fé, do que pela veracidade. Contudo, se a pessoa peca gravemente contra a verdade, ela perde aquele estado sem o qual nenhuma virtude vale. Perde o estado de graça, e em poucos passos terá  perdido todas as outras.

Assim, alguém pode não ter entusiasmo preponderante pela virtude da veracidade, mas desde que ele ame com autêntico fervor, com legítimo enlevo uma virtude qualquer — a da Fé, por exemplo — ele acaba compreendendo que ou é veraz ou ele não serve à virtude da Fé que tanto ama.

As virtudes são todas irmãs. Não se pode, num anel de irmãs, viver afagando uma e detestando outras… É preciso ter boas relações com todas. Não se pode viver num meio-termo que consistiria em ter boas relações com umas e não com outras.

Batalha contra as aparências

Pude fazer a apologia do ótimo conhecendo ao longo de minha vida esses princípios, refletindo sobre eles em função da mediocridade moral, tão comum nos meus jovens anos. Hoje a mediocridade é menos freqüente, pois ela é como uma fita em bobina: à medida que se vai desenrolando, de cinzenta passa a ficar cada vez mais escura, até que no fim é francamente preta! Os  anos 80 são filhos ou netos dos anos 20, e o que em geral era apenas mediocridade ontem, hoje é maldade, pois o medíocre engendra uma geração má. A mediocridade era, precisamente, o grande sofisma que tive de enfrentar.

Porque, naqueles tempos, o bem e o mal se misturavam muito. Havia tendências más encobertas de uma aparência tradicional boa. E não se podia saber com certeza se, no fundo, uma determinada coisa era boa ou má.

Nessa conjuntura, era-se levado a achar normal aquela mistura entre o bem e o mal. Ora, a condição para que eu perseverasse no bom caminho, era exatamente romper essa convicção, arrancar a máscara dos medíocres que viviam dessa composição impossível entre o bem e o mal.

E eu acabava por fim com a persuasão da maldade que havia naquela composição, a qual gerava sempre o mal, pois o bem era ali uma casca, uma aparência. Era a última brisa de uma tarde que já  se pôs, de uma luz que já está além dos montes. Há certas tardes em que o sol se põe e o céu ainda está claro: isso eram os anos vinte, debaixo de muitos pontos de vista.

Tive de batalhar! Batalhar contra o quê?

Contra as aparências, é verdade. Mas também contra a minha vontade de me contentar com as aparências. Contra a minha vontade de me dizer a mim mesmo que aquelas aparências eram reais e  levar a vida despreocupada, amena e cordial com todo mundo.

Formei a convicção interior de que era preciso ter um espírito diferente dos outros. E os outros notaram isso. Era uma grande batalha que começava!

Plinio Corrêa de Oliveira (Continua)

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