Onde está o auge do esplendor: na forma ou na cor?

As civilizações expressam suas peculiaridades e características próprias também através das artes. Assim sendo, a arquitetura constitui outrossim um modo de se compreender pensamentos, inclinações e até mesmo intenções, existentes por detrás de meras pedras.

Quem admira os monumentos góticos se compraz em ver não só as suas linhas definidas e suas harmoniosas proporções, mas também as pedras com as quais foram eles edificados. Em geral granitos, de cor um tanto indefinida, constituem massas enormes e fortes, que parecem jorrar da terra. Assim são catedrais, castelos e torres da Idade Média, que muito impressionam quem se detenha a contemplá-los.

Entretanto, tais monumentos não seriam mais belos caso fossem pintados? Pois,  embora exista uma indiscutível beleza própria ao granito cinzento, poder-se-ia perguntar se numa catedral não seriam cabíveis outras formas de beleza, como a pintura.

Os fanáticos pelo purismo gótico — que nem sempre abarcam todo o seu valor — afirmam não raras vezes: “Pintar? Nunca! Seria uma blasfêmia! Elas devem ser de granito natural; do contrário perderiam completamente sua beleza”.

É bem verdade que o granito, com sua cor natural, é belo, e ademais seria uma lástima que desaparecesse. Dizer, entretanto, que esta é a única forma de beleza possível, contraria, antes de tudo, a realidade histórica dos fatos. Estudos acurados, em outros monumentos, têm demonstrado que as estátuas outrora eram pintadas. Em razão de chuvas, tempestades e neves, as tintas foram, aos poucos, desaparecendo; e devido ao esfriamento da apetência que o povo possuía pelo gótico, não foram renovadas. Isso não impediu, entretanto, que para várias dessas figuras fosse possível reconstituir parte da pintura.

Ora, os homens que conceberam essas maravilhas, fizeram-nas com cores. Assim, não se pode admitir que os sonhos e os hinos de entusiasmo dessas almas foram concebidos na atmosfera de uma blasfêmia.

Por que dissociar a forma da cor?

Foram encontradas, no subsolo de um banco em Paris, há não muito tempo, cabeças das esculturas de reis do Antigo Testamento que ficavam no pórtico de Notre-Dame, formando uma galeria.

Durante a Revolução Francesa foram elas decapitadas e as cabeças jogadas ao chão. Possivelmente uma pessoa piedosa recolheu-as e enterrou-as o mais fundo que pôde.

Deu-se, então, um fato maravilhoso. As cabeças foram retiradas e, ao serem analisadas, verificou-se que partes delas ainda estavam pintadas. Portanto, deve-se conceber a possibilidade e a coerência de monumentos em estilo gótico com pintura: catedrais, edifícios públicos como paços municipais, e castelos evidentemente, na medida em que não eram fortalezas, e sim residências. Mesmo sendo fortaleza, a casa de residência do senhor feudal e a capela no recinto do castelo podem ter sido pintados.

A alma enlevada do medieval não poderia deixar de pensar o seguinte: se a forma é tão linda, não haverá um ornato de cor para ela? Por que dissociar a forma da cor?

O cinzento da pedra é bonito por seu aspecto resoluto e batalhador, e também porque nos permite pensar em qualquer cor. Quando se vê uma catedral cinzenta, o subconsciente nos sugere, sucessiva e vagamente, várias cores para ela.

Esse é um dos encantos do cinzento, como, aliás, das antigas fotografias em branco e preto. Sob certo ponto de vista, eram mais poéticas do que as coloridas, pois subconscientemente era possível imaginar as cores.

É lindo ver o reflexo de um vitral incidir sobre o granito cinzento do interior de uma igreja! A pedra fica momentaneamente, como que, cravejada de pedras preciosas. Não haveria, então, um modo de perpetuar este colorido magnífico?

Orvieto: o gótico colorido

Grande ilustração do gótico policromado, uma das mais famosas catedrais góticas existentes na Itália — onde se costuma dizer que não houve o estilo gótico —, cuja fachada é colorida com mosaicos de alto a baixo, é por certo dos edifícios góticos mais belos do mundo: a Catedral de Orvieto.

Estritamente gótica, traz ela em sua fachada uma feeria de cores. Mesmo a rosácea que está no interior de um quadrado, o qual não se diria exatamente gótico, tem qualquer coisa de clássico; ambos se encaixam perfeitamente no conjunto.

Para a decoração foi escolhida a mais esplendorosa das cores: a do ouro. Em toda a fachada há um fundo dourado. O mosaico é de tal qualidade, tão rutilante e magnífico, que esta igreja, edificada no século XIV, causa a impressão de ter sido finalizada há poucos dias. Ela não apresenta a poesia do granito, que desafia todos os tempos, todas as intempéries e fica mais belo à medida que envelhece. Dir-se-ia que os invernos e as tragédias da História passaram sobre a Catedral de Orvieto sem a atingir em nada. Ela está magnífica, esplendorosa, sem alterações.

O granito fala da eternidade, na medida em que resiste ao tempo. O mosaico de Orvieto evoca a eternidade, no sentido em que ignora o tempo.

Causando viva impressão cromática, as diversas cenas se reportam à vida de Nossa Senhora. Há várias figuras coloridas em ambos os lados da rosácea, no alto das portas laterais, dentro e fora das ogivas, no cume da porta central. No alto do frontispício, a coroação de Maria Santíssima. O colorido pode ser encontrado por toda parte.

São cores ao mesmo tempo temperantes e muito vivas. Quem policromou a catedral não tinha o gosto pelas cores pálidas, ou discretas, que se confundem e se fundem umas com as outras, o que possui sua beleza. Mas o que há nela é a beleza das cores definidas, que têm individualidade e vida própria. Em cada grupo há uma sinfonia de cores.

A beleza que representa essa distribuição colorida sobre a fachada, com as linhas do gótico, proporcionam a ideia do que seria uma síntese entre a forma e a cor. Antiga disputa entre os artistas: o que apresenta mais esplendor, a forma ou a cor? Num quadro, o que é mais notável, o desenho ou o colorido?

Florença ou Veneza: cor ou forma?

Existem duas grandes escolas italianas divergentes a esse respeito: a florentina, toda feita de desenho, intencionalmente pobre em cores, para que o desenho seja ressaltado; e a veneziana, magnífica em coloridos, tendo apenas o desenho necessário a fim de dar pretexto para as cores se mostrarem.

Muito antes das duas escolas se diferenciarem e polemizarem, já havia uma magnífica síntese delas, na Catedral de Orvieto.

Os detalhes são profusos nas colunas, na rosácea, nos florões, nos rebordos, e em todos os outros lugares, pois que seus executores trabalhavam sem pressa de acabar, sem o desejo de serem aplaudidos pelo povo. Morriam em paz diante da igreja inacabada, com a certeza de que as gerações futuras haveriam de completá-la.

Esta catedral representa de um modo proeminente a beleza do gótico, tornando-se inatacável por todo o seu esplendor. Podem-se preferir outras — depende do gosto individual —, mas não é possível fazer alguma reserva ou ter algum desacordo em relação a ela.  

 

Continua em um próximo artigo…

 

 Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/1/1981)

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