Onde está o auge do esplendor: na forma ou na cor? – II

Após séculos de esplendor, de feeria de formas e cores, como foi possível abandonar o gótico em favor de outros estilos? Entretanto, apesar de relegado a segundo plano em favor do estilo clássico, das ruínas do “Ancien Régime” ressurgiu a arte gótica.

 

As considerações que fizemos sobre a forma, a cor, em síntese, sobre o estilo gótico existente na Catedral de Orvieto, nos levam a analisar algo colateral, mas que também possui grande importância para a História: Como explicar que, em determinado momento, as almas se tornaram de tal maneira incompreensíveis para com o gótico, que durante séculos não se construíram mais edifícios nesse estilo?

Mais ainda, ergueram-se incontáveis igrejas, mosteiros, abadias, edifícios públicos, residências particulares em estilo clássico, com os antigos arcos em semicírculo ou a linha reta dos pórticos, porém nunca em estilo gótico, o qual permaneceu esquecido durante séculos.

Muitas das obras clássicas revelam incontestável talento — seria errado não reconhecê-lo —, mas também demonstram, de modo espantoso, uma falta de piedade sob vários aspectos. Como realizaram todas essas coisas que parecem ignorar completamente as impressionantes obras da arquitetura medieval?

Tudo quanto a Idade Média realizara em matéria de arte estava esquecido em favor das figuras nada combativas, ou sérias, apresentadas pela Renascença.

Havendo um caminho tão bem trilhado por medievais de inegável gênio, como os grandes da Renascença não pensaram em continuá-lo? E tenham revolvido o pó das ruínas clássicas, arrancadas debaixo da terra, ou esqueléticas em sua superfície, e restaurado uma antiguidade que o Cristianismo havia de muito superado?

Qual é o estado de espírito de quem, passando diante de edifícios góticos, não se encanta, mas se desvanece de admiração para com os monumentos da era clássica? Sem negar de forma alguma a beleza dos monumentos da Renascença, se compararmos uma com a outra…

Das ruínas, um novo gótico

O gótico, incontestável por sua beleza, permaneceu, entretanto, sepultado no esquecimento durante todo o período do “Ancien Régime”, período em que desabrochou a arte barroca.

Suponhamos que houvesse nessa época alguns entusiastas pelo gótico em Orvieto, os quais começassem a fazer propaganda de sua catedral para que o povo a compreendesse, a amasse e passasse a produzir coisas em continuidade com o gótico, e não com o estilo renascentista. Eles procurariam os “medievalizáveis” em Orvieto, para à noite, no reflexo do luar, comentar a igreja.

Imaginemos que eles organizassem um apostolado de difusão, de simpatia por esse estilo e, ao cabo de alguns anos de trabalho, conseguissem, em Orvieto, cinquenta pessoas entusiasmadas pela catedral, e mais umas mil com simpatia por ela. E todos a olhassem com uma saudade sonolenta e risonha: “É mesmo bonita, não é?”

Explode a Revolução Francesa. Aproxima-se o Diretório, surge Napoleão, não obstante volta a realeza na pessoa dos Bourbons, e a História continua seu curso. Entretanto, por coincidência ou não, pela Europa inteira começa a renascer o gosto pelo gótico.

O Conselho de Estado de Luís XVI havia decretado o arrasamento da Catedral de Notre-Dame, para fazer ali uma igreja em estilo grego, como digna de ser a catedral de Paris; pois julgavam o gótico indigno para tal.

Passando pelo palco da História as figuras de Robespierre, Danton, Marat, ouvindo-se nos gongos do passado o “Ça ira”, “La carmagnole”, a “Marseillaise”, o troar dos canhões de Napoleão a derrubar coisas veneráveis pela Europa inteira, e eis que das ruínas emerge um estado de alma simpático ao gótico!

Assistimos, então, à restauração de inúmeros monumentos góticos, e os estudos desse estilo florescerem. Edifícios góticos se constroem, não só na Europa, mas na América, como a Catedral de Saint Patrick, em Nova York, a Basílica de Quebec, como também a própria Catedral de São Paulo, e quantas igrejas, ainda que pequenas, com reminiscências góticas, em terras onde, durante a Idade Média, só havia índios!

Ainda um último aspecto

Vista de lado, percebe-se sob outro ângulo o esplendor da fachada, um pouco menos vistoso, pois a luz dos mosaicos não incide tão diretamente sobre quem está olhando. Por isso, possui uma forma de pulcritude, que não é a evidência viçosa, mas a discrição nobre do belo, o qual não se proclama, mas se insinua. Essa forma de beleza tem o encanto do que é insinuado, enquanto a outra possui o esplendor do que é proclamado.

Nas fotografias da Catedral de Orvieto, sempre há algo que nos chama a atenção: elas procuram isolar a catedral completamente do contexto. Isso é inteiramente compreensível, pois ela não permite vizinhança, exceto de outros edifícios também em estilo gótico.

Pode-se ter uma pequena ideia disso, considerando como os edifícios que existem à sua volta são mesquinhos, e até depreciados em relação à catedral. A catedral, como que, diz a eles: “Vós me ignorais? Mais ainda eu vos ignoro! Se não me quereis olhar e reconhecer minha beleza, ela aqui está de pé para vos julgar. Um dia prestareis conta ao Juiz eterno, deste estado de alma que está no fundo de vós. Quanto a mim, minha conversa é com o sol, com as estrelas e com Deus!”

 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de Conferência de 23/1/1981)

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