Lição de coragem e de grandeza

A comemoração dos fiéis defuntos, ensina Dr. Plinio, “encerra para nós um alto significado, pois além de ser o dia no qual rezamos de modo especial pelos que faleceram e porventura se encontram no Purgatório, é também a data em que a Igreja, com seu tato peculiar e inconfundível, nos torna presente a realidade da morte.

“Dir-se-ia que a Santa Igreja, a cada 2 de novembro, faz abrir um precipício sob nossos pés e nos revela uma multidão de almas em estado de pena, de sofrimento, de miséria, não tendo ido diretamente para o Céu. É-nos dado medir, assim, algo da destruição provocada pela morte.

“Certo, essas almas se salvaram. O Paraíso as aguarda. Porém, devem cumprir uma penitência pelas imperfeições consentidas, necessitam purificar-se de defeitos, de faltas cometidas nesta vida. Purificações mais ou menos dolorosas, mais ou menos longas, conforme o grau de culpa. E essas almas não podem pedir a própria libertação. Por um superior e misterioso desígnio de Deus, dependem das orações que se fazem por elas na Terra.

“E a Providência dispõe maravilhas para que tais almas sejam sufragadas. Quantas visões e revelações, quantos fatos admiráveis, quanta doutrina proposta pela Igreja sobre as almas do Purgatório incentivam os fiéis a entender o sentido dessa devoção e a se empenhar nas súplicas pelo fim daquele padecimento! Quantas obras pias realizadas nesse intuito, e quantas indulgências concedidas pela Santa Sé premiando e abonando semelhantes atos de caridade cristã!

“Bela ao extremo é essa solicitude materna da Igreja para com as almas de seus filhos que morreram e ainda padecem. Belos e profundos os pensamentos contidos na liturgia a respeito desse estado transitório entre a Terra e o Céu.

“De quando em quando devemos meditar sobre essas verdades, sobre o Purgatório, sobre a morte, para compreendermos o que há de intensamente real na advertência dita pelo sacerdote na Quarta-feira de Cinzas: Lembra-te homem de que és pó e ao pó hás de tornar. Não somos senão pó e ao pó voltaremos. Essa ideia nos leva a atinar para a exata dimensão de todas as coisas desta vida. Que são os inúmeros desejos e volições que nos movem, quando calculamos o nosso valor autêntico? Quando pensamos que daqui a um dia ou uma hora podemos já não pertencer a este mundo, comparecermos diante de Deus, ser julgados e destinados à expiação das chamas do Purgatório?

“Ora, sem essas incertezas, não apreciaríamos a grandiosidade da vida humana. Nada é atraente, nada é bonito nesta existência, a não ser com um pano mortuário de fundo. Pois é pelo contraste que o homem conhece as realidades desta Terra. E é só pela oposição à essa miséria fundamental da morte que entendemos como é pouco tudo quanto aqui desejamos, e como é grandioso esse outro destino que nos espera.

“Por isso mesmo, devemos também considerar a morte com serenidade, com magnitude, inclusive no que ela tem de aflitivo e de tremendo, pois é igualmente a expressão de nossa imensa importância. Se somos entes racionais capazes de passar por tamanha tragédia, somos capazes de grandeza tal que, sem dúvida, uma existência mais magnífica nos está reservada.

“Essas e outras considerações nos vêm a propósito do dia dos mortos. É a lição que nos oferecem a morte e os fiéis defuntos. Incomparável lição de profundidade, de força de alma, de coragem, de grandeza. Quem não a aproveita e não a ama, não sabe contemplar a Deus na sua afabilidade, sua meiguice, na sua majestade e sua justiça sem fim.

“Peçamos, portanto, pelas almas do Purgatório. E roguemos a elas, nos obtenham a compreensão, o amor e o entusiasmo por todas as sombras com as quais a morte enriquece a estética do Universo e os verdadeiros panoramas da vida humana.”

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