Ladainha da Humildade – Desprendimento e amor a Deus

Dr. Plinio nutria grande apreço — e a recomendava vivamente a todos — pela  Ladainha da Humildade, composta pelo Cardeal Rafael Merry del Val, Secretário de Estado  do Papa São Pio X.
Conforme ressaltava Dr. Plinio, é a humildade um dos importantes esteios para a perseverança do católico, como salvaguarda da virtude da pureza e da autenticidade de qualquer ato piedoso.

A Ladainha da Humildade, escrita pelo Cardeal Merry del Val, embora magnífica e de inestimável proveito para as almas, devendo ser rezada amiúde, poderia admitir certo desenvolvimento particularmente útil para os membros de nossa obra.

Contrária à visão egoísta da vida

Nesse sentido, ocorreu-me fazer uma aplicação dos mesmos conceitos enunciados pelo Cardeal Merry del Val a tópicos que nos interessam de modo especial.

Sob um certo ponto de vista, essa oração poderia ser chamada “Ladainha do Desprendimento”, pois todos os pedidos nela formulados têm por objetivo evitar o egoísmo.

Assim, os desejos de ser estimado, amado, honrado, consultado, preferido, de ser mais santo do que os outros, etc., resultam, em última análise, da preocupação egoísta de considerar-se o primeiro e ter tudo para si. Em síntese, de quem possui, como ideia fixa, o “eu, eu, eu”.

Crescer no amor a Deus e ao próximo

Surge, então, este pensamento: “Está bem, não desejo ser amado, conhecido, louvado. Esse é o lado negativo do assunto. Qual será seu aspecto positivo?”

O lado positivo, contrário ao egoísmo, consiste não apenas no amor ao próximo, mas, sobretudo, no amor a Deus. O verdadeiro amor ao semelhante é um reflexo do amor a Deus, que se exprime também pela devoção a Nossa Senhora, à Santa Igreja Católica Apostólica Romana — Corpo Místico de Cristo — bem como pelo amor à vontade do Altíssimo e, portanto, à nossa vocação, ao movimento do qual participamos.

Em conseqüência, apresentar o lado positivo dessa Ladainha envolve a seguinte questão: ao entrar num ambiente, devo sinceramente estar despreocupado de ser o primeiro, de ser honrado, louvado, estimado, consultado, etc., e cumpre tomar essa atitude por amor a Deus. Portanto, preciso querer que o Criador e a Igreja sejam amados sobre todas as coisas; e seja eu capaz de amar minha vocação acima de todas as coisas meramente humanas.

Ter sempre em mente o aspecto positivo desses pedidos

Importa considerar também que, ao me esforçar para evitar que o amor próprio, o orgulho e o egoísmo me dominem, preciso ter uma certa visualização que me ajude a combater esses defeitos. Imagine-se, por exemplo, que eu pronuncie uma conferência e o público, muito indulgente e pouco dado a críticas, me cumule de aplausos. Qual deve ser o pensamento correto a se formular nessa hora?

“Que ovacionem a mim, não tem importância. Minha exposição conseguiu despertar o amor a Deus e à Igreja Católica em alguém? Esses aplausos significam um verdadeiro movimento de virtude que minhas palavras suscitaram? Se assim foi, alegrar-me-ei. Não, porém, quanto ao que diz respeito a mim, porque esta é minha razão de ser. Sou filho de Deus e da Santa Igreja, servo de Nossa Senhora: com isto devo me preocupar.”

Ter sempre em mente esse aspecto positivo da Ladainha da Humildade é um esplêndido auxílio para se praticar de modo completo essa virtude propugnada pelo Cardeal Rafael Merry del Val em sua prece, bem como para evitar os defeitos nela apontados.

O modo mais acertado de se rezar a Ladainha da Humildade

Assim, parece-me em extremo conveniente meditarmos sempre no conteúdo dessa valiosa oração. E fazê-lo com aplicações concretas à nossa vida quotidiana, ao nosso dia-a-dia na vocação. Pois o amor próprio é algo tão contínuo, polimórfico e profundamente radicado na natureza humana, que qualquer pessoa, não tendo vigilância, acaba sendo meio infiltrado — para dizer pouco! — por ele.

Exemplifico. Se desempenhamos uma tarefa de modo bem feito, obtemos um grande resultado para nosso apostolado e, por isso, somos objetos de admiração dos outros. A pergunta que devemos fazer a nós mesmos é: “Agimos assim por satisfação própria ou por Nossa Senhora? Para sermos aplaudidos ou a fim de que Ela seja bem servida?”

Se realizamos o trabalho para glorificar a Santíssima Virgem, é o correto e o desejável. Mas, se eu degustar os elogios e pensar: “Homem! Fiz tal coisa, e como os outros me admiraram naquela hora! Fulano, que sempre me contraria, ficou com uma face comprida…” — estarei me entregando a considerações lastimáveis, as quais roubam todo o mérito do meu apostolado.

Precisamos ser indiferentes ao fato de aparecermos ou não naquilo que fazemos nas vias da nossa vocação. E para se alcançar esse desprendimento, só há um meio eficaz: examinar-se e perguntar se Nossa Senhora de fato está bem servida, honrada e glorificada com nossas realizações.

Quer dizer, o modo mais prático e correto de rezar a Ladainha da Humildade é fazer continuamente essas aplicações ao nosso comportamento na vida interna de nossa associação. Por outro lado, se empreendemos um trabalho importante e ninguém nos elogia, não nos incomodemos. Desde que tenhamos procurado atender aos desígnios de Deus, o resto não importa.

É procedendo dessa forma que se combate inteiramente o egoísmo e o orgulho.

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