Inocência paradisíaca

Continuando a descrição de como a alma de um menino reto se abre para a realidade à sua volta, conhecendo-a com o senso do ser pelo qual ama o belo e rejeita o feio, Dr Plinio concebe esse processo numa criança ideal: Abel, se tivesse nascido sem pecado original, no Paraíso terrestre.

 

Na anterior exposição sobre o tema, ficamos de considerar o exemplo de Abel, imaginando-o inocente no Paraíso, como teria sido sem o pecado de Adão.

Refiro-me de modo intencional a Abel, e não a Adão, porque este foi criado já adulto. Tendo Nosso Senhor Jesus Cristo morrido aos 33 anos, costuma-se dizer que essa é a idade perfeita do homem, e com ela Deus criou Adão. Portanto, um adulto na sua plenitude, que foi tomando conhecimento das coisas durante a vida.

Mas, Abel passou pela infância. Como teria sido esse período na existência de um homem sem pecado original? Como as coisas iriam se apresentando para ele?

O conhecimento na alma inocente

É preciso notar que, após a queda de nossos primeiros pais, a infância é um misto de inocência e imbecilidade, acompanhadas pela fraqueza da mente e do corpo. Essa imaturidade vem do pecado original. Sem este, a criança passaria a pensar desde o início sem as debilidades que trouxe o pecado, dotada de notável discernimento e profundidade de espírito, embora sem a experiência de um homem adulto.

Coisa infinitamente mais maravilhosa se deu com Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua natureza humana. E, dizem os teólogos, algo análogo aconteceu com São João Batista, a partir do momento em que — durante sua gestação, mas com sua razão constituída, no claustro materno de Santa Isabel — ouviu a voz de Nosso Senhora e estremeceu de alegria.  Nesse instante, viu-se limpo da culpa original, e conheceu algo de extraordinário na Santíssima Virgem.

Portanto, se não houvesse pecado original, a criança teria um conhecimento maduro, embora incipiente, das coisas. Ao tomar contato com estas, verificar-se-ia nela algo de primaveril, não apenas candidamente limpo, mas com o encanto daquela primeira hora que vai desabrochando e contém todo o futuro. Mais ou menos como a aurora que encerra em si a beleza do dia. É muito bonito vê-la condensada no raio inicial de luz cortando as nuvens, com uma beleza especial que nem ao meio-dia o sol apresentará. O primeiro ósculo do astro-rei na Terra tem uma pulcritude própria.

Os homens nascidos no Paraíso terrestre, sem pecado original, seriam mortais por natureza, porém, por um dom especial de Deus, não morreriam.

Quer dizer, a riqueza da vida no primeiro instante iria se ampliando até atingir a apoteose. E, sob certo aspecto, nada seria mais belo quanto o momento primaveril, inicial, em que um homem nascesse e tivesse a vida diante de si, semelhante a uma cascata na qual a água escachoa com abundância e plenitude formidáveis. Assim seria a criança, com o caráter e os encantos de um principiante já maduro de espírito.

Para formarmos uma ideia dessa condição, imaginemos Nosso Senhor menino ensinando no Templo. Cândido e admirável como uma criança que tinha à sua frente todo o futuro, mas, de outro lado, maduro a ponto de deixar estarrecidos os doutores da Lei. Nosso Senhor, Homem-Deus, nascido da Virgem que tinha sido concebida sem pecado original, quanto Ele era incompatível com qualquer forma de pecado! Guardadas todas as proporções, assim também seria a criança sem pecado original.

Abel passeando pelo Paraíso

Temos na alma um mecanismo de raciocínios, vontade, sensibilidade, instintos, que trabalha continuamente e nos faz conhecer as coisas exteriores, e depois confrontá-las conosco.  E para que essa operação seja mais perfeita, realizamos uma análise e um estudo intelectivo de cada uma, de maneira a conhecermos a coisa melhor e também a nós mesmos. Assim, sabemos o que nos convém.

Uma criança sem pecado original — o nosso hipotético Abel perfeito —, em seu primeiro passeio pelo Paraíso, ao ver as plantas, por exemplo, teria a noção da natureza e das propriedades de cada uma, como também de sua própria realidade física, de suas apetências, conveniências e seu feitio de alma.  E escolheria as frutas adequadas para sua primeira refeição.

Suponhamos uma árvore em estado de frutificação permanente, da qual o homem pudesse facilmente colher frutas ao alcance de sua mão, ou porque tinha tal império sobre a natureza que, por um ato de vontade, poderia obrigar a planta a se dobrar, e do alto descer um galho, reverente, apresentando-lhe uma penca delas à sua escolha. Isso sucedia, aliás, com o primeiro homem,  em virtude de seu domínio sobre as demais criaturas.  Quando passeava pelo Paraíso, todas as coisas se voltavam para ele, a fim de servi-lo, em atitude de corte, como se fosse um rei. E à medida que as observava, em sua alma despertavam-se reações semelhantes às da criança com a bola: é, não é; quero, não quero, mas sem a falta de critério do menino que, por exemplo, deseja comer uma bola de vidro.

Voltemos a Abel. Ele ia conhecendo as coisas lentamente, com exatidão, escolhendo o que lhe convinha; almejando tanto quanto razoável, não se empanturrando com elas nem as esbanjando.  Em determinado momento, quando se alimentava de algo, com a naturalidade de quem toma um copo de água, diria: “Agora basta, estou satisfeito”.

Começaria a conhecer também os panoramas paradisíacos, que se lhes apresentavam ordenados. O Paraíso era uma caixa de surpresas, não porém um labirinto. Podia-se saber o que se encontraria, caminhando nesta ou naquela direção. E, de quando em vez, Deus dispunha uma surpresa maravilhosa lá e acolá. E Abel passearia em busca de paisagens que lhe agradassem, onde, por exemplo, os pássaros gorjeassem de acordo com aqueles cenários, compondo um “son et lumière”(1) especial; as sombras fizessem lindos jogos com a luz, e houvesse musgos magníficos ou pedras suntuosas para Abel sentar-se, a fim de observar melhor e pensar de modo mais profundo, sem sentir fadiga, pois ele não conhecia cansaço físico nem mental.

A glória eterna, sem passar pela morte

Ademais, seu seletivo 2 funcionaria continuamente, quer ele percebesse ou não. Ao observar duas coisas, pensaria: “Desta gosto mais, e daquela, menos. Como Deus é grandioso!  A segunda convém a meu irmão, e a primeira para mim.  Como o Criador é esplêndido em tudo que faz!  Meu Senhor, obrigado pelo que destes a meu irmão, e por aquilo que me ofertastes. Como sois maravilhosos e bom!”

Abel usaria do que lhe era oferecido, deleitar-se-ia e iria se completando, tornando-se cada vez mais ele mesmo.  Sobretudo, compreenderia que, pelo funcionamento desse seletivo, quando alcançasse a plenitude de si próprio, teria a magna recompensa: a apoteose, o céu se abriria, os Anjos desceriam para levá-lo, sem passar pela morte, para a glória eterna.

Essa seria a perspectiva da vida de um homem sem pecado original.

Riquezas do seletivo no inocente

Tendo em vista esses pressupostos, podemos estudar melhor o que se passa nesse misterioso seletivo de uma criança nascida no Paraíso, sem a mácula original: como ele opera, se desenvolve e se enriquece.

Tudo o que existia no Éden era cognoscível pelo homem, sendo cada coisa imagem, semelhança ou vestígio de Deus. E o Paraíso, no seu conjunto, espelhava o Criador de maneira mais perfeita do que cada criatura em particular. Assim, à medida que a pessoa — Abel, por exemplo — fosse conhecendo as coisas, perceberia a excelência e compreenderia melhor a natureza peculiar de cada uma delas, e como se imbricavam entre si.

Logo depois das sensações concretas, surgiram em seu espírito as idéias abstratas. Imaginemos que ele encontrasse junto a um magnífico lago, uma árvore estupenda a qual, em todos os milímetros de sua superfície, estivesse florescendo e se projetasse sobre a água de um modo maravilhoso. Planta, do seu gênero, sem igual no Paraíso. Sua primeira impressão, puramente sensível, assim se exprimiria: “Que maravilha!”

Em seguida, começaria uma reflexão: “Como é bom para essa árvore dar tantas flores! Que excelente qualidade ela possui!”. E numa terceira etapa, ele se perguntaria: “Como conceituar esse predicado da árvore, pelo qual dá tantas flores?”

Não tendo nenhuma limitação mental, ele comporia imediatamente a palavra perfeita, cunhada como uma moeda: fecundidade.  Esta árvore é fecunda em flor. Então compreenderia melhor o que é flor, sua grande utilidade para encantar a alma e, por isso, superior sob certo aspecto à fruta.  A árvore tem fecundidade, e a flor, beleza.

Voltando-se para outro lado, vê uma flor que é única, brotada na ponta de uma pequena planta, e em torno dela não se acha nenhuma igual.  É maravilhosa!  Ele cogita: “Curioso! Há pouco me agradou a fecundidade.  Dir-se-ia que estou agora apreciando a infecundidade? Não pode ser. Ah! Esta última flor tem outro predicado: raridade!”

Logo após o conhecimento concreto, viria o conceito abstrato e a palavra: “Ah, é rara. Tudo que é raro é precioso. As coisas fecundas, de si produzem muitos efeitos. Mas há outra forma de fecundidade, como a dessa plantinha da qual nasceu uma flor que equivale a todas daquela outra árvore. Isso se chama categoria, classe!”

Um maravilhoso descortino do universo

Assim se poderia imaginar um passeio pelo Paraíso, e as idéias surgindo e se desprendendo umas das outras como se fossem páginas um pouco coladas de um livro que se abre e elas se desvendam. E, naturalmente, viria ao espírito de Abel outra ideia: “Não se pode ser mais fecundo do que aquela árvore, e ter mais categoria do que essa flor? Qual é o “summum” da fecundidade: florescer ou criar?

“Criador… Quem, do nada, fez tudo isso? O que é criar? Como é Aquele em quem todas essas coisas potencialmente estavam e que, de repente, lhes deu vida? Como Ele é único, e n’Ele se fundem todas as qualidades! Deus!”

Percebe-se, então, como o universo vai se abrindo de modo maravilhoso, conduzindo-nos até o Onipotente Senhor da Criação.

A esse propósito, lembro-me de um brinquedo japonês que havia no meu tempo de criança, tão pobre em comparação com essa faustosíssima figuração que estamos imaginando… Punha-se um pouco de água num prato de sopa, por exemplo, e nele se jogava uns papeluchos, espécie de confetes. Estes se umedeciam e começavam a se abrir, formando florzinhas diferentes. As crianças gostavam de ver como as bolinhas bonitinhas se abriam em flores, e depois o prato ficava repleto delas.

Assim se sentiria alguém inocente que fosse vendo o universo se desdobrar, abrindo-se como essas florzinhas, preparando seu espírito para Deus. v

 

Plinio Corrêa de Oliveira
Revista Dr Plinio 85 (Maio de 2005)

 

1 ) Espetáculo de som e luz.

2 ) Como vimos em anterior artigo, “seletivo” é uma palavra cunhada por Dr. Plinio para indicar o senso pelo qual o homem seleciona as coisas que conhece, aceitando umas e rejeitando outras.

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