Dignidade e sapiencialidade de um monumento

As belas construções conforme o espírito católico são menos custosas que os prédios de estilo moderno, que se espalham pelas megalópoles atuais. Isso mostra que o dinheiro não é o principal fator na edificação de uma civilização, e sim a Fé.

 

Temos aqui o Palácio da Comuna de Piacenza, na Itália, edifício gótico onde funcionam a Câmara Municipal e a Prefeitura.

Agradável contraste entre a estátua e o edifício

O edifício é constituído de três linhas. A parte branca é de pedra, a de cima, com janelas, é feita de tijolos, e depois vemos esses enfeites no alto.

O número três tem uma misteriosa capacidade de beleza relacionada, de modo inefável, com a Santíssima Trindade.

Essas janelas todas dão para uma praça, onde vemos duas estátuas muito bem colocadas. Um modo banal de posicionar esses monumentos seria o seguinte: traçar uma linha reta a partir do meio desses cinco arcos e sobre ela colocar, bem no centro, uma das estátuas.

Ora, essas estátuas foram colocadas meio fora de lugar, sem muita relação com o edifício. Mas elas estão num ponto muito poético e constituem uma surpresa agradável para quem olha. Portanto, são bonitas no ponto onde se encontram. É um belo indefinível. Enquanto falo, estou procurando encontrar palavras para exprimir o que há de bonito e não as consigo encontrar. Ademais, a figura representa um cavaleiro numa marcha muito bonita, e este “movimento” contrasta agradavelmente com o que o edifício atrás tem de sério, de estático, de solene.

Nota-se que essa área de baixo é vazada e constitui uma espécie de passeio público que, provavelmente, acompanha o prédio em toda a sua extensão. Em certas regiões da Itália, onde chove e neva muito, esse espaço coberto é de grande auxílio para a população.

Encontramos nessa parte uma série de arcos. De um lado são cinco arcos e, logo acima, seis janelas, sucedidas por elementos decorativos, no topo. Essa sucessão de elementos que se repetem dá uma sensação de unidade ao edifício; entretanto, uma impressão, ao mesmo tempo, extremamente variegada. Porque na base está o arco gótico todo feito em pedra, com uma inegável nota aristocrática, forte, dando quase a ideia de uma porta de fortaleza ou de castelo.

Diversas gamas de maravilhoso

Já as janelas de cima são elegantes, distintas, mas não são tão nobres e nem tão fortes quanto os arcos embaixo. Elas têm qualquer coisa de boa burguesia rica e correspondem muito a uma classe meio nobre, meio burguesa que floresceu na Itália naquele tempo.

Analisando essas janelas, encontramos cinco colunas, mais uma vez. Essas colunas tornam leve a fachada a qual ficaria muito pesada com esses cinco arcos grandes que a compõem. Ademais, essas pequenas colunas constituem uma continuidade em relação ao que está embaixo, porque elas são de pedra também.

Por outro lado, combinam muito bem com a parte que está acima, constituída de tijolos. A mudança de materiais está habilmente preparada pelo artista, e as passagens de um lance para outro do edifício são muito definidas.

Bem no alto, nota-se este cuidado do arquiteto: encerrando essa parte de tijolos, vemos posta, na próxima passagem de um elemento a outro, uma barra com uma espécie de ameias, num estilo ainda gótico, que corta esse lance e faz com que se possa imaginar o edifício sem essa parte superior.

No alto surge o campanário cujos sinos serviam para alertar a população em caso de incêndio, guerra ou outras eventualidades.

Essas ameias são feitas com uma finalidade decorativa e não militar. Notem como são interessantes, altas e se abrem em cima como que para deixar escapar qualquer coisa que penetra no céu. E, como se não sentissem em si bastante poder de elevação, elas são superadas por esses elementos que, mais do que os outros, rumam para o alto.

De maneira que quem olha para o alto do edifício tem a impressão de que ele termina subindo para o céu e perdendo-se no horizonte do panorama.

O conjunto dá uma ideia de bom senso, de peso, de ordem, de solidez que exprime bem o que seria a pequena aristocracia de uma pequena cidade. Possui a dignidade e a sapiencialidade de um monumento da Civilização Cristã, e nisto tem qualquer coisa de maravilhoso, fazendo com que, ao compararmos este edifício com qualquer casa de plutocrata em uma megalópole moderna — cuja construção e materiais utilizados custam vinte vezes mais do que este prédio —, vemos, contudo, ser este aqui um verdadeiro palácio. Um príncipe pode morar aqui, mas não poderia residir em certas casas de plutocratas.

É, exatamente, a presença da sabedoria e da arte da Civilização Cristã.

Notamos neste Palácio da Comuna de Piacenza aspectos do maravilhoso. Não o maravilhoso no grande, mas no miúdo, para demonstrar que há gamas diversas de maravilhoso. E para provar também não ser por falta de dinheiro, mas sim de Fé, que não se constrói uma grande civilização, pois o dinheiro não é o principal fator na edificação de uma civilização.

Onde há Fé, essas coisas aparecem. Tire a Fé, elas morrem completamente.  

 

 

(Extraído de conferência de 30/3/1967)

 

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