Conhecendo as vias da Confiança

Entre os quatro livros que mais marcaram a alma de Dr. Plinio figura o “Livro da Confiança”. Na conferência que a seguir transcrevemos, ele conta como foi seu encontro com essa obra.

Voz de Cristo, voz misteriosa da graça que ressoais no silêncio dos corações, vós murmurais no fundo das nossas consciências palavras de doçura e de paz…

Essa frase se prende, para mim, a dias de muita aflição. Aos 25 anos, achava-me numa encruzilhada de meus caminhos, em virtude de uma determinada circunstância de minha vida em que o problema de discernir a voz de Cristo, a voz misteriosa da graça, se me punha de modo bastante agudo.

Aos 24 anos, parti para o Rio de Janeiro a fim de assumir meu lugar de deputado na Assembléia Constituinte. Viajei despreocupado com relação à minha família, pois a deixava em condições de vida inteiramente normais.

Apesar de ainda jovem, eu me dirigia tranqüilo para lá, porque, se minha eleição correspondia aos planos de Deus, eu haveria de me sair bem. A Divina Providência não traça para um homem um caminho sem dar-lhe o necessário apoio. Assim, estava convicto de que, mesmo tendo de suportar alguma amargura, tudo acabaria bem.

Aflições e desapontamentos

Entretanto, nem tudo no Rio de Janeiro saiu para mim como um jovem idealista esperava. A vida parlamentar trouxe-me enormes dissabores, os quais, somados a outras dificuldades, fizeram-me sentir um certo desapontamento, como se a Providência não fosse cumprir as perspectivas que Ela mesma tinha aberto diante de mim.

Pouco tempo depois, uma informação vinda de São Paulo veio turvar mais o meu horizonte. Com efeito, o futuro de meus pais e o de seus dois filhos estava praticamente assegurado pela vultosa herança que nos legaria um parente próximo.

Porém essa pessoa, já idosa, fez um mau negócio e perdeu todo o seu patrimônio. Em conseqüência, não iríamos herdar nada. Pior. Ficávamos reduzidos a uma grave situação financeira.

Pensei: “Como pode uma coisa dessa acontecer? Agora terei de fazer o quê? Quando terminar este mandato de deputado, que ofício vou exercer? Era melhor não ter sido eleito do que, encerrada a carreira parlamentar, ser obrigado a pegar um emprego inferior”.

Então, aquilo que à primeira vista parecia um presente da Providência, transformara-se em algo que caía sobre mim. Como se não bastasse a preocupação com esse futuro tão carrancudo, sombrio, ameaçador, começo a sentir todas as noites, por volta das três horas, uma nevralgia no rosto.

Fortíssima, como se fosse um prego cravado na face, e que me impedia de dormir. O único jeito que tinha de encontrar um certo alívio era sentar-me e ficar com a cabeça apoiada sobre dois ou três travesseiros, permanecendo assim até que me viesse algum sono. Então eu conseguia descansar mais um pouco.

Acordava e tinha de sair às pressas para a reunião dos deputados paulistas e, em seguida, para a sessão da Assembléia. À noite, sobrava-me algum tempo para rezar meu rosário, cuidar de minha vida espiritual,etc.

Quem nunca esteve às voltas com uma nevralgia não imagina o que seja ficar essas horas noturnas assim dobrado, sentindo um prego enfiado no rosto e sem conseguir dormir. No meu caso, pensando em todos os problemas que me afligiam. Quer dizer, perda da fortuna, carreira profissional comprometida, enfim, vendo minha vida muito dificultada.

Meu porvir parecia uma flor que desabrochara de manhã sob um lindo sol e que, antes do anoitecer, tivera suas pétalas arrancadas e espalhadas por uma borrasca… Sem falar de uma circunstância que só fazia aumentar essa angústia.

Tomara eu a resolução de consagrar toda a minha vida ao apostolado católico. Compreende-se que, para tanto, eu não podia dedicar muito tempo ao trabalho profissional.

Por outro lado, se não exercesse uma profissão, não teria como proporcionar a meus pais, que já caminhavam para a velhice, uma vida condizente com sua posição social.

Como achar um caminho? Que problemas, que coisas misteriosas! E assim ficava eu esfacelado diante dessas perspectivas, horas e horas, noites a fio, sem saber que saída encontrar, até o momento determinado por Nossa Senhora para se fazer uma luz nesse tão sombrio panorama.

Um livro comprado a esmo

Perto do meu hotel erguia-se a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, onde eu ia comungar todos os dias. Acontece que, devido às nevralgias e às preocupações, era-me difícil acordar tão cedo quanto seria necessário para receber a Sagrada Eucaristia durante as missas da manhã, já rezadas quando eu chagava na igreja. Mas o pároco era extremamente amável comigo: percebendo meus horários bastante apertados, sempre se dispunha a me dar a comunhão na hora em que eu por lá aparecesse. Supérfluo dizer quanto lhe ficava agradecido por essa caridade, fazendo-o entender ao cumprimentá-lo com particular gentileza.

E era só, pois eu tinha de sair correndo para a Assembléia Constituinte, e não havia tempo para entabular uma conversa com ele. Certo dia, porém, o padre se aproximou de mim e disse: “Dr. Plinio, nós estamos organizando uma exposição de livros piedosos aqui na sacristia. Se o senhor quiser examinar essa mostra, talvez tenha alguma obra que lhe agrade ver”.

De fato ele desejava me dizer outra coisa: “Para manter a paróquia, estamos vendendo alguns livros. O senhor não quer nos ajudar, comprando alguns deles?”

Eu, devendo tantos favores, não podia nem tinha vontade de recusar. Auxiliar aquela paróquia era uma coisa muito boa, e eu queria colaborar nessa forma de bem. Assim, terminada minha ação de graças, fui correndo para a sacristia disposto a adquirir dois ou três livros, escolhidos a esmo. Peguei um de cujo tema já não me lembro, e outro
chamado O Livro da Confiança.

Retirei-me apressadamente, tomei um táxi e fui trabalhar, levando os livros na mão. À noite, de volta ao meu quarto de hotel, deixei-os sobre um móvel qualquer, sem lhes dar maior atenção.

tendia que confiar em Deus é uma atitude boa. Lembrava-me até de um canto entoado pelo coro da paróquia em que me fiz Congregado Mariano, cuja letra em latim era:
“Beatus homo qui confidet in te —Bem-aventurado o homem que confia em Vós, Senhor”. Eu gostava de ouvir aquilo, era uma canção que me dizia alguma coisa, porém não aprofundava seu significado.

Agora, naquela amargura, ao ler as palavras “voz de Cristo, voz misteriosa da graça”, tive uma sensação curiosa, como se uma atmosfera dulcíssima e cheia de afeto penetrasse em mim, afastasse todos os espantalhos e receios, e me dissesse: “Repita, meu filho: voz de Cristo, voz misteriosa da graça, vós murmurais em minha alma palavras de doçura e de paz”.

Eu sentia algo que fazia desaparecer todas as minhas angústias e me dava uma certeza de que, realmente, aqueles fantasmas de perspectivas e de preocupações futuras sumiriam. E de que Nosso Senhor e Nossa Senhora resolveriam bem os problemas que tanto me amarguravam.

Continuei a ler o livro, e a cada nova frase, a mesma sensação de tranqüilidade se produzia em mim. Eu tinha a impressão de estar entrando num bosque encantado onde davam flores maravilhosas, onde passarinhos cantavam do modo mais sonoro e agradável possível, etc.

E onde fica a razão? Contudo, habituado sempre a raciocinar muito, e não conhecendo a doutrina católica a respeito da confiança, eu tinha duas objeções contra esses  sentimentos.

Em primeiro lugar, não se me apresentava nenhuma razão plausível para confiar em que Nossa Senhora me ajudaria naquela emergência, pois não via no meu horizonte nada que me prometesse uma solução. E o homem tem de ser concreto, não pode viver de impressões interiores. Para confiar, ser-me-iam necessários motivos pão-pão, queijo-queijo, filhos da razão. Ora, onde estava a razão dentro dessa história?

Depois, havia o fato de que em certas horas do dia eu lia aquelas frases, e era para mim como se estivesse mascando serragem de madeira. Não me diziam nada. Em outras horas, pelo contrário, era como se penetrasse um pedaço do Céu dentro de meu espírito. Logo, objeção: “Que propósito tem isto?

Eu não entregarei minha alma a essas sensações interiores sem antes ter uma explicação de como se fundamentam na boa e ortodoxa doutrina da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.” Mas, não havia remédio, era uma experiência curiosa: eu abria o livro e penetrava em mim essa doçura. Nesse momento, as objeções desapareciam,
tornando evidente ser aquilo uma ação da graça, um favor de Deus e de Nossa Senhora.

Porém, quando fechava o livro, aquela suavidade se eclipsava, e para mim já não era tão patente tratar-se de um movimento da graça. Então, eu precisava de provas.

A solução exata, no momento exato

Estas apareceram, de modo bem inesperado. Vinha eu passar os fins de semana em São Paulo para estar com meus pais, e no domingo à noite ou segunda-feira de manhã retornava ao Rio de Janeiro.

Certa noite, numa dessas minhas passagens por São Paulo, encontrava-me no prédio da Congregação Mariana de Santa Cecília, quando um congregado amigou meu, pessoa muito viva e inteligente, aproximou-se de mim e, num tom de voz baixo, quase sussurrado, me disse: — Plinio, você gostaria que eu lhe pusesse na pista de um emprego
muito bom? Quando você deixar de ser deputado, você fica com esse trabalho… Eu caí das nuvens! “Esse homem não sabe nada a respeito de minha vida, não conhece os apuros e os problemas em que ando, como pode ele vir me oferecer algo tão capaz de me satisfazer e de me aliviar em  tantas preocupações?!”

Enfim, quando se está afogando no mar, pega-se qualquer corda que apareça, pois ela deve estar presa a algum lugar sólido. Imediatamente puxei duas cadeiras e o fiz  sentar-se ao meu lado: — Venha cá e me conte esta história direito.

Ele ficara sabendo da abertura de vagas para professores no Colégio Universitário da Faculdade de Direito de São Paulo, e verificou que eu estava talhado para uma delas.

Com algumas providências, eu conseguiria um lugar, com um ótimo ordenado. Eu hesitei um pouco, mas afinal resolvi agir conforme ele me indico. E de fato, após alguns trâmites, acabei sendo nomeado professor catedrático vitalício e com o vencimento irredutível. Era o cargo que desejava, com o ordenado de que precisava, e uma posição honrosa para um ex-deputado.

Terminou o mandato, voltei para São Paulo, e o emprego estava à minha espera.

Mais ou menos por essa época, foram-me oferecidos dois outros cargos de professor catedrático, nas duas primeiras faculdades católicas abertas em São Paulo, a Sedes Sapientiae e a São Bento.

Nesse ínterim, as nevralgias desapareceram, como se nunca tivessem existido. Alguns fardos haviam sido tirados de cima de mim, e eu fiquei entendendo a verdade desta afirmação: Voz de Cristo, voz misteriosa da graça…

As razões para se confiar

Tudo o que nos leva para a virtude será sempre uma ação que baixa do Céu até nossas almas. E se algo nos impele a procedermos conforme à Fé e à Doutrina Católica, há todas as razões para acharmos que isso vem de Deus. Máxime quando nos sentimos fracos e notamos em determinado momento uma força nos ajudando a realizar aquilo que não julgávamos ao alcance de nossa fraqueza. É Deus quem está nos levantando e nos fazendo andar. Ele nos prova, pede-nos uma tarefa árdua e pesada, porém nos sustenta para caminharmos.

“Deus qui ponit pondus, supponit manum”, diz a Escritura. Deus, que impõe o peso, coloca por baixo a mão para que o aguentemos.

Portanto, se sentirmos coragem e tivermos vôo de alma para empreender o que antes nos parecia tão difícil, poderemos verdadeiramente dizer: “A graça está me levando. Deus me chama. Eu vou!”

O que se passara comigo ao ler o Livro da Confiança era, então, obra da graça. Através de suas páginas benditas, fiquei conhecendo as vias da confiança, que deve conduzir  cada um de nós a este ponto: mesmo se houver um grande perigo de que os planos de Deus a nosso respeito não se concretizem, devemos permanecer tranquilos porque, no fim, se realizarão.

Tranquilos, é verdade, mas não indolentes. É preciso rezar e pedir para obter, seguindo o conselho de Nosso Senhor: “Pedi e recebereis; batei e ser-vos-á aberto”. E lembro que nunca fazemos um pedido verdadeiramente grato a Ele, se não for por meio de Nossa Senhora, Mãe d’Ele e nossa. Mãe de Misericórdia, nossa vida, doçura e esperança.

Então, peçamos a Ela, e por meio d’Ela a Nosso Senhor Jesus Cristo, dizendo: “Minha Mãe, vosso Divino Filho tem tais desígnios a meu respeito, mas os problemas se avolumam à frente de meu caminho. Contudo, não me deixo tomar por angústias nem inquietações, porque eu confio em Vós. Ajudai-me!”

E assim praticamos, do melhor modo possível, a virtude da confiança.

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